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janeiro 29, 2017

Cai o pano, de vez

Este blog nasceu em 2004, quando eu tinha 15 anos e o hospedava no Weblogger.
O universo virtual do período em que ele foi criado era absolutamente diverso do que conhecemos hoje, em que o que encontrávamos na blogosfera estava longe de ter o glamour (e o retorno financeiro) da atualidade.

Passeando entre vários hosts e códigos HTML ou XLM fui construindo gosto pela virtualidade, identidade na escrita, maturidade nas ideias, ganhando risos, divagações e amigos a distância. Aqui confessei aquilo que o coração adolescente não podia gritar em público, mas que era compartilhado com prazer entre desconhecidos conhecidos.

Aí aconteceu do tempo passar.  E eu cresci. E eu mudei. E isso não foi uma decisão: foi um processo.
Um processo longo e constante que trouxe como resultado a pessoa que está aqui. Agora, aos quase 30, está atrás desse texto uma pessoa que até se lembra daquela menina que transformou o blog no que ele é hoje, mas nem de longe se parece com ela.

E acompanhando essas mudanças de personalidade e realidade, esse blog foi também mudando e se remendando para se adequar a mim e para que eu pudesse caber nele. Mas enfim, chegamos a um ponto decisivo: não caibo mais aqui.

Então cheguei ao fim do "diário" virtual que se estendeu por 13 anos, com muito gosto e resistência.

E assim encerro este blog. Obrigada aos envolvidos.


junho 22, 2016

[diá/monó] logo

(...)

De nós as respostas já temos, e a que não temos, na verdade não importa. Os fatos presentes são os fatos verdadeiros e eles, os conhecemos bem.
São muitas as divagações que eu poderia começar sobre aquilo que não foi, como fazem as adolescentes em seus diários, mas aqui entre nós, qual o valor de visitar o futuro que não comecei?

Não há questão entre nós que não esteja acertada. Enquanto seres individuais somos eu cá e tu aí, onde estou vendo, sem qualquer incerteza de tua posição em teu lugar. Se há algo a explorar, é aqui onde não tocas e nem podes ver: nas ações que guardo dentro do meu corpo.
Tudo o que há (entre presente e passado) conhecemos. E o que não há, o sabemos igualmente bem, do início ao fim.

A questão entre nós é: até quando lamentarei ter deixado você partir?

maio 27, 2016

Tudo permanece

Um dia parei e percebi o silêncio que havia em mim.
Eco.
E um enorme vão livre.

Senti que faltava alguma coisa.
Algo havia ido embora e já fazia muito tempo. No tempo em que uma mulher adulta começou a morar dentro do meu espelho.
É como se vida começasse a perder o sentido imediatamente depois da adolescência.
Aos poucos foi tudo ficando mais calmo, mais lógico, silencioso, monocromático, estranhamente pacífico. Sobra a sensação de que as sensações sutilizaram, e fica um ser que não sabe mais - e não se lembra - viver à flor da emoção: finalmente sem sofrimento ou desgaste e livre daquela a indomável frustração da missão falha. No lugar, quedam-se as vantagens da escolha de se resguardar até alcançar o estado de não mais amar ou ter paixão.

Eu tive certeza de que crescer era carregar o corpo - curiosamente ainda vivo - em passos comedidos e ponderados atrás das horas em que, por convenção social, devemos estar de pé.  E ao fim dessas horas (o resto de dia que é seu) se ocupa de um nada sem ânimo ou ânsia. Amadurecer, descobri, era garantir ao passado tudo o que era possível sentir. E ao presente apenas os olhos abertos.

Mas tropecei em um nó de trilha percorrida e caí de nariz bem em frente ao meu espelho de piso. Há poucos milímetros do que perdi.
Sem querer me vi.
Está tudo lá, exatamente onde deixei. Tudo o que acreditei ter esfarelado e esvoaçado com o sopro do tempo ficou escondido e desbotado no fundo do amontoado de vida que joguei por cima. E agora foi descoberto.
Um monte de alma, vida, sonhos bobos, riso de canto de boca e alucinações para antes de dormir.

janeiro 22, 2016

Mortais...

Livros? Ama. Se considera um leitor veterano, assíduo em todas as bienais. Sua casa tem mais livros do que roupas e isso lhe garante o posto de intelectual. Seu favorito ainda é Harry Potter e o Segredo do Príncipe. Leu em inglês, óbvio! Tinha pressa e não podia esperar pela tradução.

Come o mundo geek sem nem dar tempo de fazer a digestão. Argumenta constantemente sobre como Jared Leto jamais superará Ledger, enquanto espera ansioso pelo Esquadrão Suicida.

Todo dia avança um passo na organização de seu Rubik’s Cube (sim, em inglês mesmo) e tem no quarto referências dos mais diversos ícones blockbuster, enfeitando as paredes e prateleiras, deixando bem claro que ali vive alguém que não veio à terra à passeio: está aqui para arguições inteligentes e olhar blasé para os meros mortais desinteressantes que não pertencem ao seu universo.
É o tipo de sujeito sempre está numa discussão sobre física, biologia e religião, embora seja ateísta - porque sua sabedoria elevada está acima das sobrenaturalidades - e sua área de trabalho não tenha qualquer relação com esses assuntos.

Um sábio. Um culto. Um rebelde, de intelectualidade superior à quase tudo à sua volta (embora alimente sua inteligência só com ração mainstream - palavra que ele mesmo me ensinou). Um desesperador retrato de uma geração que sabe que é melhor do que qualquer outro mortal.
Está ali, na fila para assistir à estreia super esperada do ano, cujo custo de produção é imensurável E não há uma série do Netflix sobre a qual não tenha feito uma resenha no blog. Assinante da Galileu e da Super Interessante. É, portanto, escritor e especialista em qualquer assunto, e aquele que discorda de seu discurso, é um pobre ignorante.

Seu estilo musical favorito carrega qualidade e refinamento. É superior. O que rende comentários constantes sobre o quanto é absurdo o funk brasileiro ser tratado como cultura popular - porque cultura é outra coisa - e sabe que MPB é só um estilo de música de corno chata.
As religiões são alienantes e um verdadeiro câncer social - mas nem por curiosidade estudou o Corão ou pisou num terreiro.

A literatura brasileira é chata. Carece de emoção. Assim como o próprio idioma “brasileiro”: imperfeito, impuro, pouco sonoro. Subdesenvolvido. Terceiro mundo.
E tudo aquilo que está no lado B da cultura popular, que não carrega glamour, que se aprofunda, que cansa, que desafia as certezas... Isso, com certeza, de opinião formada, baseado em todo seu rico repertório, é só o resto.


Porque não está na blogosfera badalada. Porque não rende uma fotografia bonita. Porque ser tão alternativo e sábio não é mais que ser um consenso.

dezembro 31, 2015

Para Dois-Mil-et-Quinze

É, Dois-Mil-et-Quinze... Você não foi fácil. A promessa era que você viria como uma avalanche, derrubando tudo aquilo de seguro em que se poderia agarrar. Não decepcionou, nem por um segundo.
O dólar subiu. A bolsa caiu.
Fui cuspida, objetificada, maltratada e culpada. Tudo de boca calada, porque é mais seguro. Quase a Geni.
E como a Geni, me pôs sempre conveniente presente. Sempre conveniente ausente. Com falta e saudade até do que não se viveu.
Faltou água.
Faltou comida.
Faltou ânimo, muitas vezes.
Faltou ar.
Foram dores e perdas constantes, e a impotência que os sucede.
Teve insolação. Teve frio. Teve chuva. Teve medo.
E teve solidão. Muita. De ouvir o vento reverberar nas paredes do peito vazio tantas vezes, que os ouvidos se acostumaram ao som.
Teve mesmo muita solidão, Dois-Mil-et-Quinze. Solidão e sono.

Mas quem diria, que neste mesmo ano, em que acordei com a certeza de não mais ser capaz de levantar da cama, eu teria a luz do sol refletindo em meus cabelos e luzindo toda a volta?
A animação que era escassa vinha aos poucos beijar meu rosto cheia de fé, e então foi só olhar com calma...
Aí foi perceber que enquanto uma mão molhava face, e a outra a enxugava com toalha macia.

E teve luta, e teve grito e teve renascimento.
Teve trabalho até o corpo exaurir.
Deu pra amar umas quantas vezes, dos olhos brilharem e a carcaça ficar boba. Deu pra gozar a falta das armas e a vulnerabilidade. Deu para apertar os laços e atar novos nós.
Teve abraço. Teve afeto. Teve riso solto. Teve jazz.
E a solidão deixou de ser sentimento pra virar companhia. E então paz. Finalmente uma paz cheia de sons.

Você, Dois-Mil-et-Quinze, de fato sacudiu o mundo e me virou do avesso. Só, mal sabia, que o avesso é o meu lado certo - sempre foi - e agora já posso ver, de novo, meu reflexo no espelho.
Mal sabia que pra cada rasteira que me passava, havia várias mãos para me segurarem. Mal sabia que aqui, do lado avesso, tem afeto em abundância. E afeto amortece quedas.

Quando você nasceu, Dois-Mil-et-Quinze, eu não imaginava tudo o que viria pela frente. Não dava para especular o quanto tudo mudaria. O quanto o hoje de agora seria tão diferente do hoje de 365 dias atrás.
Eu jamais imaginaria que a paz inerte, dura, pesada e dolorosa do Um-do-um iria em bora à francesa, e em seu lugar viria toda essa reviravolta dramática de novela mexicana em capítulos finais.
Você tentou, Dois-Mil-et-Quinze, mas eu ainda estou aqui, de pé e com fé. Não foi fácil - exatamente como prometeu - mas eu te venci.

dezembro 28, 2015

Natal

Outro incrível texto da Nicole que me tocou e que eu creio que vá te tocar também.


  Neste Natal, do ano de 2015, gostaria de desejar a todas as pessoas, com toda força e amor que existem no meu coração, que nossos sentidos sejam inebriados com amor e compreensão! Que o retrato do menino Jesus na manjedoura abarque todos os meninos que nascem em meio as ausências da vida, que suas palavras de amor, comunhão e fraternidade ecoem nos dias presentes, em nossas mentes e corações, e nos impeçam de apedrejar, julgar, separarmo-nos uns dos outros, crucificarmos...

  Que estes dias, em que estamos mais inclinados a libertar nossa sensibilidade, durem mais que uma semana! Que os muros que nos separam e classificam rachem, esfarelem e se tornem ruínas... Que sem teorias, teses ou academicismos sejamos capazes de compreender, no silêncio do vento que insufla nosso peito, que somos muitos, diversos, complexos, que existe uma multiplicidade de sapatos, com diferentes cores e formatos, que apertam calos distintos e dançam ritmos os mais variados, e que não cabe a mim julgar caminhos que não percorri, dores que não sinto, num sapato que não é meu e não me aperta... Mas, mais que isso, se existem diferenças que nos enriquecem, há muito que nos une de forma universal!!!

  Em tempos de crise, que seja farta nossa alegria, a gratidão de sermos, ainda, privilegiados, e que esta - como as crises íntimas de cada um - nos deixe reflexão, amadurecimento... Que a dureza se torne lição e que juntos possamos aprender a viver com menos: menos acessórios, menos lixo, menos extravagâncias vazias, e que sobre mais tempo, espaço, dinheiro e energia para os momentos entre família e amigos, para os banhos de mar, para cozinhar o que alimente alma e nutra o corpo, para dança, música e poesia, para pôr do sol na lagoa de Araruama, para café da tarde com quem faz pão com requeijão ser banquete...

  Que ampliemos, hoje e sempre, sentidos e horizontes, para que nossos corações sejam capazes de abraçar mais e mais, que o mundo diga que estamos sozinhos em nossos quartos e pensamentos, porque os céus, a terra que nos sustenta, e o menino da manjedoura irão nos certificar que, não, somos muitos e estamos todos juntos, entrelaçados na exuberante trama desse universo...

Feliz Natal!

novembro 24, 2015

24/11/15

...Foi quando me dei conta de tantos príncipes encantados que - em mágicos acasos - a vida fez cruzarem meu caminho. Mas que de tão encantados os deixei partir, para poderem encontrar suas verdadeiras princesas. Aquelas doces e boas e puras o bastante para habitarem seus corações de heróis.
E assisto com doçura o desenrolar desses contos de fadas...

março 08, 2015

Montréal, 08 de março de 2015.

Carta às minhas amigas,

Minha querida amiga, irmã que o belo encontro da vida me ofertou, hoje eu não gostaria de exaltar sua beleza, tampouco sua delicadeza, mas sim o que me faz amar-te e, sobretudo, todas as qualidades que me fazem admirar-te como ponto de luz no mundo.

Como aprecio sua companhia, o sorriso cúmplice e o coração transbordante de ternura, como gostaria de lhe desejar um mundo adequado à suas aspirações e sonhos, profundo e incandescente... Hoje, porém, escrevo-lhe não para parabenizá-la por sua condição natural, nem sequer pelo ser ímpar que se constrói a cada dia, mas para enfatizar que se Elizabeth Bennet encontrou Mr. Darcy, Jane Austen não teve a mesma sorte.

Não se entristeça quando resumirem sua caminhada em resoluções como “ela é tão bonita, mas está sozinha”, não há problema algum em diferenciar-se em mais um aspecto. Somos todos únicos, e ainda assim perdemos capítulos inteiros tecendo – e sendo costurados em – um suposto uniforme... Esse mesmo ambiente que te violenta a cada dia com investidas nojentas, que te faz abraçar, aos dez anos, o maior medo de uma mulher – o estupro, é o que nutre e acalenta os homens que estão ao nosso redor, desenvolvendo, em alguns, o maior potencial possível de opressor e, com o perdão da palavra, de idiotas.

Se um dia as amigas de nossas mães tiveram de se submeter como única forma de continuar a vida, em 2015 eu posso lhe desejar que ninguém te violente – com posse que chamam de cuidado, com ciúme que apelidam de amor, com expectativas que desumanizam, com objetificação que batizaram de desejo. Se não for pra caminhar ao seu lado, mergulhar em seus olhos não maquiados e descobrir a complexa beleza das lentes com que observa o mundo... Desejo, sim, que você permaneça sozinha!
Se não estamos preparados para que dois seres se relacionem em amor gratuito, respeito e cumplicidade... Se além dos fantasmas e cicatrizes que cada um carrega, na bagagem trouxerem também a violência silenciosa que hoje celebra seu dia e amanhã te ofende por ser exatamente quem é... Desejo que você rompa com mais uma expectativa que recai sobre ti... E que, talvez, minha Alice possa escrever uma carta um pouco mais doce às suas amigas.

Em todo caso, também estou aqui...
Com amor, Nicole.



Um super conveniente, comovente e bem escrito texto para este dia em que o mundo acha que deve exaltar nossa beleza e feminilidade (?). Não. Não é por aí. Nicole sabe disso. Todas deveríamos saber.

julho 02, 2014

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Eu e você éramos uma espécie de erva daninha. Crescíamos espontânea e involuntariamente um no coração do outro e arrancávamos as flores que foram cuidadosamente cultivadas.
Não havia veneno nem remédio. Há um ditado que diz que "o que não tem remédio, remediado está". É mentira, nada estava remediado ou curado nem nunca estaria.
Nós nos machucávamos tanto, mas, de tanto amor que sentíamos, passamos a amar também as feridas que causávamos um no outro.
Eu não queria mais sentir esse amor e você queria me arrancar de dentro de si. Esse amor era um vício e,como os viciados, não conseguíamos nos livrar. Não havia clínica de reabilitação para amor doído.
Chorei durante semanas (ou meses, fiquei perdida no tempo) quando percebi que, embora esse amor fosse maior que eu, maior que você, maior até que nosso orgulho e vergonha na cara, eu já não te queria mais, mesmo sabendo que sua ausência me causaria dores terríveis e, provavelmente, um arrependimento eterno.
A verdade é que eu te amava, com todas as minhas forças (e fraquezas), mas não estava mais apaixonada por você.


Texto de Thatii Conde

junho 22, 2013

Vento e cinza


Sabendo que você tem uma vida - que nunca abandonou por mim - e que, por esta mesa razão, não estará sempre disponível para mim, por se amar, acima de todas as cosias, por que você sempre espera que eu abdique de mim mesma?
Por que você entende, com tanta facilidade, a sua própria infelicidade, mas não consegue entender a minha?
Hoje, talvez, seja o dia em que você, finalmente, possa entender todas as minhas escolhas, porque pode ver o que significa alguém te querer, e te ter ao seu bel prazer. E igualmente, te desquerer, e não ter-te. E você aceitar todas as escolhas feitas, previamente, por outrem independente do seu amor próprio.
Mais uma vez você saiu sem se despedir, para substituir-me por alguém que lhe parece melhor do que eu.
E eu o entendo.

Um beijo para você.
Hoje aprendemos que nós não temos mais conserto.

maio 10, 2013

Das coisas que você não sabe.

Eu tenho uma coleção de marcadores de páginas.
Eu acredito, sim, em Deus.
Eu evito vômito.
Eu leio gestos.
Não gosto de massa parafuso.
Tenho medo de me formar.
Tenho medo de espelhos.
Gosto de neblinas.
E dias úmidos.
Eu escrevia poemas na minha adolescência.
Ainda os tenho guardados.
No meu quarto.
Não sei cozinhar feijão.
Não faço as unhas por questões financeiras.
Tive a catapora mais séria que eu já vi.
Sofro de depressão desde que me entendo por gente.
Frequentemente, eu sonho com a minha escola.
Todos os meus orgasmos são verdadeiros.
Sempre tive orgasmos.
Morro de medo da solidão.
Mas sou muito sozinha.
Sinto muito frio quando tenho medo.
Tenho mania de esfregar o indicador na unha do polegar.
Sinto coceira nos lábios.
Estou com dor de cabeça desde domingo retrasado.
Eu finjo que não, mas sonho em me casar e ter uma pequena família feliz.
Sem segredos.
Eu passei minha adolescência inteira com moletom amarrado na cintura. Mesmo nos dias de verão.
Eu não consigo odiar nada.
Fico cheia de espinhas cada vez que você escapa de mim.
Gosto da comida do bandejão.
Eu não piso nas juntas de dilatação da calçada.
Nem nas pedras portuguesas brancas.
Eu te amei mais do que a mim mesma.
Eu sempre sei quando você está mentindo.
 - O tópico anterior foi redundante, mas você nem sempre entende o que eu digo -
Meu amor tem condições de conservação.
Caso contrário, fica impróprio para consumo.
Se ele está morrendo ou se já se foi, eu ainda não tenho certeza.
Essa lista ficou mesmo muito grande para tantos anos.

agosto 18, 2012

Percepção

Estamos acreditando em um nós de um futuro que não existirá. Então o melhor que podemos fazer é retomar nossas passos rumo à própria história. Singular.
Todo o resto são só palavras vãs, medo e uma ilusão de uma confiança que nunca deveria ter existido.
Não há nada em você que seja verdade.
Mas guardarei as mentiras que valeram.



Musica:

Palavras ao Vento
(Cássia Eller)

Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar
Que o nosso amor pra sempre viva
Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será
Palavras apenas
Palavras pequenas

julho 27, 2012

No hay

É bem fácil acreditar me amar. Sou aparentemente quase tão frágil e pequenina com aparência de boneca de vidro. E ainda tão capaz de sobreviver e seguir em frente, depois de cada empurrão que o escritor desta história me destina, não me dando demasiada importância perto de tudo que há ao meu redor ou fazendo papel de vitimada. Como ver esse pequeno ser manhoso e tão abusado da força sem se admirar? Vez ou outra, dá para confundir as coisas, as bolas e os sentimentos todos.
É... é fácil acreditar neste amor. Mas ele não existe. É um misto de afeto paternal com admiração que se mantém ali, no limiar do amor eterno que nunca chega.
Da mesma forma, dali há um pouquinho, dá para descobrir o quanto é fácil me substituir e me transformar em memória de um momento bom, curto e necessário.
Viro história, daquelas importantes. Daquelas que lembramos com carinho. Daquelas que mudam nossa vida e nosso olhar.
Viro aprendizado.
Viro carinho.




Mas não viro amor.
E não leva muito tempo para descobrir essa confusão.



E no fim das contas eu fico aqui. Caminhei, acompanhei, impulsionei, ensinei, mudei. Mas continuo só.
Na espera de um amor que não existe.

abril 24, 2012

Foi

A verdade é que você foi feito para passar. Não para ficar aqui. E eu me iludo achando que vale a pena manter-te por perto, mas você foi criado para soprar ensinamentos no meu rosto e ir embora junto do vento. Só para eu aprender a ser mais forte, mais certa e mais eu. Porque não fosse você, seria ainda muito menina, com dúvidas sobre a vida e medo de caminhar.
Ainda bem que você veio, mas espero ansiosamente que você passe logo e me deixe seguir. Insistir em você seria como me algemar à palmatória. Autoflagelação.
Quase autopiedosa. Como quem procura um motivo para sofrer e poder lamentar a vida.
Não vale a pena guardar-te porque ficam escassas as razões pelas quais te trouxe aqui e se acentuam as razões pelas quais te quis fora. Você foi feito para passar. Para que eu enxergasse o que vale e o que não vale nada.



Texto:

Não consegui, sob hipótese alguma, descobrir a quem esta carta foi endereçada, nem qual a sua versão original. Vejam bem, a internet é um lugar confuso onde tudo está sujeito a plágio e alteração.


Trecho de carta
(Caio F. Abreu)

"Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim."

março 08, 2012

Dia Internarcional para quem?

(Pelo dia de hoje, o melhor e mais cabível texto, escolhido por votação de uma pessoa só.)



Texto:

Dispenso Esta Rosa
(Marjorie Rodrigues)

Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: "parabéns".

Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.

Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.

Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade
– da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia
de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.

A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro. Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.

Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.

Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam.
Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo?

Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões)
têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?

Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades.
Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10º lugar entre 130 países. As mulheres têm11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso
– onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.

A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou
18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor… ). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca.
Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”.

Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama.
“Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.

Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência,
estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.

Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem.
Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas.


Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir.
Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio, isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.

Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.

… Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu.

fevereiro 22, 2012

Fish eye


Céu azul muito vivo ainda, apesar de já estar em vias de despedir-se naquela preguiça pré pôr-do-Sol. O vento desfila constante, sem pressa e com êxito em levar embora o pouco calor que o sol, já fraco, consegue derramar na pele das pessoas que ocupam aquele espaço. Ondas quebram bem decididas, mas lambem o solo com a espuma correndo cansada, assim, lenta como as palavras do senhor que bebe demoradamente sua cerveja. A água traz o cheiro da maresia. E eu, com as mãos alisando a areia grossa e fofa, a cabeça recostada no travesseiro natural preparado com cuidado, o corpo muito relaxado e a mente quase perdida, observo o tempo, sem pensar que ele passa.
Por alguns minutos tudo pára. Até mesmo a tarde, se arrastando e partindo devagar rumo ao horizonte.
Durante estes calmos minutos, antecedentes ao crepúsculo, o tempo parou. Ficamos só eu e o vento me abraçando. Eu - com a cabeça mirando para o alto - observando como numa lente olho-de-peixe este céu desmedido e forte, me envolvendo com suas nuvens ralas.
O tempo realmente parou. As poucas pessoas do entorno não se movem, não há música, não há qualquer pensamento, não há nada além desta paz, deste silêncio e destas nuvens se movendo em círculos através das minhas lentes.
Por estes poucos minutos não senti pressa nem pensamentos, não refleti a vida. Eu simplesmente existi, na exata simplicidade da existência. Sou um corpo cheio de coisa alguma, que olha para o alto e tem certeza de que o mundo é redondo e que o céu o envolve. E me envolve.
Nem mesmo medito meu sossego. Está tudo pleno, parado e preguiçosamente vivo, já se despedindo. Quase bocejando um boa noite.
Quase bocejando um "até a próxima".

Até a próxima, paz. O Sol se põe e a vida tem de começar.



Texto:

Pais e filhos maridos e esposas II (Trecho)
(Fabrício Carpinejar) 

Meu maior medo é viver sozinho e não ter fé para receber um mundo diferente e não ter paz para se despedir. Meu maior medo é almoçar sozinho, jantar sozinho e me esforçar em me manter ocupado para não provocar compaixão dos garçons. Meu maior medo é ajudar as pessoas porque não sei me ajudar. Meu maior medo é desperdiçar espaço em uma cama de casal, sem acordar durante a chuva mais revolta, sem adormecer diante da chuva mais branda. Meu maior medo é a necessidade de ligar a tevê enquanto tomo banho. Meu maior medo é conversar com o rádio em engarrafamento. Meu maior medo é enfrentar um final de semana sozinho depois de ouvir os programas de meus colegas de trabalho. Meu maior medo é a segunda-feira e me calar para não parecer estranho e anti-social. Meu maior medo é escavar a noite para encontrar um par e voltar mais solteiro do que antes. Meu maior medo é não conseguir acabar uma cerveja sozinho. Meu maior medo é a indecisão ao escolher um presente para mim. Meu maior medo é a expectativa de dar certo na família, que não me deixa ao menos dar errado. Meu maior medo é escutar uma música, entender a letra e faltar uma companhia para concordar comigo. Meu maior medo é que a metade do rosto que apanho com a mão seja convencida a partir com a metade do rosto que não alcanço. Meu maior medo é escrever para não pensar.

outubro 05, 2008

Turned off

My Diary:

Hum...
Acho que vou fazer compras...
Não tenho nada em específico que queira comprar. Mas como não tenho mais nada de útil que fazer da minha vida, então vou gastar. Vou consumir até não ter mais como carregar.
De repente compro uma regatinha básica na Cantão. Branca. Já tenho 17 delas. Mas nunca é demais né?
Vou anular meu voto. Não tenho nenhuma opinião política mesmo!
Não, melhor: vou viajar pra qualquer lugar e justificar meu voto. Esse negócio de votar é realmente uma palhaçada.
Uma perda do meu Domingo.
Hum...
Desisti do vestibular.
Papai já falou que me paga uma facul qualquer aí.
Mas também nem sei se vou fazer faculdade. Meu pai vai de dar mesada até morrer mesmo. Não preciso de emprego. (E nem quero um!)
Mentira... Tem cada gatinho universitário... Vou fazer facul sim.
Mas de quê?
Estou sabendo que a galera de adm faz uns churras maneiros! Acho que vou fazer adm então!
Ah! Chega de pensar nessas coisas!
Vou comer alguma coisa e me preparar pra balada de mais tarde.
É só o que posso fazer mesmo, já que não tenho em que contribuir para o mundo.
Meu intelecto já está decrépito mesmo!



Poesia da Semana:

Desencanto
(Manuel Bandeira)

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
Eu faço versos como quem morre.

setembro 12, 2008

De quê é feita a minha cidade?

My Diary:

Somos 70% água. Sempre nos falam isso.
A substância que mais abunda na célula.
Está lá em forma de plasma (no citoplasma), mais enrijecida na periferia, e mais mole no centro (devido à alta atividade nuclear).
Agora, alguém lembra de nos dizer o que são os outros 30%?
É engraçado como sempre generalizam essa parte.
Na verdade verdadeira, somos 30% emoções, diluídos em água. Em água mesmo! E salgada! Ou você nunca experimentou o sabor de sua lágrima?
Claro que sim! Fora eu (que não tenho glândulas lacrimais) todo mundo já deixou uma lágrima rolar e morrer no fim da boca.
Voltando ao assunto, somos 30% sentimento exagerado. Raiva extraordinária, paixão incontrolável, rancor imutável, alegria indizível e tristeza profunda.
São tão exagerados que precisam ser diluídos em água, ou você explodiria.
Porém, esses 30% não estão distribuídos de forma igual. São como hormônios, que dependendo da situação, são estimulados e se multiplicam.
Um texto devidamente decorado e recitado para você pode, por exemplo, inibir sua produção de alegria indizível e superestimular a produção de raiva extraordinária. Como conseqüência, o sentimento transborda e é secretado junto com o seu solvente (parte daqueles 70% de água de você).
Não acredita? Está achando piração?
Então me diga que você nunca chorou por algum desses sentimentos?
Não negue. Há quem chore todo dia por algum ou vários deles.

Você já superestimulou algum sentimento hoje?
Tente.
Ou não

(Post repetido... Perdoem-me. Mas adoro ele.)



Crônica da Semana:

O Homem da Escada
(Tati Bernardi)

Ele comia a professora de power yoga do 43, comia a ex-semivirgem que de tão magra a gente via os pêlos pubianos porque o osso da bacia levantava o biquíni, e comia até a Rose, mãe da Paulinha, mulher casada há 12 anos e meio e que vivia suspirando e esticando os pés de galinha no espelho do elevador.
Um belo dia, o porteiro encheu os olhos de vida e contou para a minha empregada:

“Ele comeu a Dona Silvia na escada do prédio.”

Dona Silvia não prestava nada, até cantavam pra ela da quadra lá embaixo: “Ô Siiiilvia, piraaaanha”. Coisa que os pais devem ter ensinado, porque essa música é velha demais para estar na boca de adolescentes espinhentos que batem playstation todos os dias. O fato é que o porteiro encheu muito os olhos de vida e continuou:

“Deu pra ver tudo pela câmera de segurança, ela ficou de quatro e ele mandou ver, uma, duas, três vezes.”

Não sei ao certo se a máquina sexual em forma de vizinho pagava uma caixinha para o porteiro sair pelo prédio espalhando tantos elogios ao seu desempenho, e por isso mesmo comia todo mundo, ou se aquilo era apenas uma conversa corriqueira na porta da minha cozinha, entre uma canção e outra da rádio evangélica da Maria. Só sei que comecei a gostar tanto do papo, que até sentei pra ouvir melhor.
O porteiro soltou uma imensa gargalhada, transbordou de vez uma louca vida dos seus olhos, e concluiu:

“Antes de largar a Dona Silvia lá, caída no chão, ele fez um tchauzinho pra câmera de segurança, a gente tava tudo lá, eu e os outros, e aplaudimos o Seu Flávio de pé.”

Eu não precisava ouvir mais nada, estava decidido, ia dar pra esse cara, esse cara era o cara, era o comedor, era o homem perfeito pra gente se divertir um pouco enquanto o amor não vem. Era o cara pra esquecer o romantismo e celebrar a vida mundana.
Sim, eu sou uma nova mulher, uma mulher que faz curso de astrologia, yoga, meditação, mitologia. Uma supermulher decidida a morar sozinha, decidida a ser feliz sozinha, decidida a viajar pela Europa, decidida a nunca mais ter um emprego idiota que não permita cursos divertidos, viagens e curtir a minha plena existência. Independente, espiritualizada, analisada, madura... mas, francamente: o cara mandou uma, duas, três na escada, e ainda deu tchauzinho pras câmeras? Que se dane o espírito e a evolução, meu ego precisava trepar com esse ser divino e pronto.
Usei minha tática predileta para comer um homem: um dia, como quem não quer nada, numa dessas cruzadas pelo estacionamento do prédio, contei que era escritora. Não sei explicar o que acontece, mas quando um cara descobre que eu escrevo, é mais de meio caminho andado para querer desesperadamente me conquistar.
Não sou promoter da Lotus e nem faço parte do “super insane guetto no brain mega pop star das supergatas iradas da festa do branco do Sirena”, sou apenas uma escritora que senta a bunda flácida de frente pro laptop e escreve a porra do dia todo. Mas eles não estão nem aí, eles querem comer minhas personagens, minhas putarias, minhas neuroses, a fotinho que sai na coluna da VIP, minhas fãs do Orkut, minhas estranhices, o glamour da literatura, sei lá... “Uma loirinha jeitosinha e ainda sabe escrever mais de um parágrafo sem falar ‘tipo assim, irado’? Desse tipo ainda não experimentei.”
Não deu outra, no mesmo dia, provavelmente após ele ter lido alguma coisa minha (claro que dei todas as pistas), chegou um longo e-mail com mil elogios à minha sensibilidade e um amável convite para ir jantar no dia seguinte.
Topei e corri para o armário: o homem que deu uma, duas, três na escada e ainda deu tchauzinho para a câmera merecia a produção mais sexy do mundo.
Achei estranho quando flores chegaram pela manhã e mais estranho ainda quando ele abriu a porta do carro para mim. Mas tudo bem, daqui a pouco o macho animalesco ia surgir e me comer em cima do capô, atrás da igreja ou no banheiro do restaurante. Aquilo tudo era figuração para prorrogar o clímax e torná-lo ainda mais feroz.
Fez questão de pedir um vinho chique de uma uva sul-africana chique e ainda pediu que acendessem as velinhas da nossa mesa. Segurou minhas mãos, brilhou os olhos e falou cheio de ternura:

“Ontem você me fez chorar.”

Não, não, ele só pode ter confundido o verbo, provavelmente quis dizer: você me fez gozar, me fez ficar louco, me fez ter que dar uma, duas, três no banho, me fez qualquer coisa mais animadinha... mas chorar?
Ele continuou:

“Sabe, não agüento mais essas conquistas vazias pelo mundo a fora, o sexo sem alma, a falta de companhia inteligente para uma vida.”

Mas justo na minha vez? Poxa, a professora de yoga tinha gritado tanto na sauna que deu pra ouvir até no quarto andar seus mantras. Depois ele desvirginou a modelete ossuda que vivia pagando de gatinha na piscina e até eu queria pegar, depois quebrou o galho da Rose que via o mesmo pinto mole há mais de doze anos, e fechou com chave de ouro comendo a Silvia tal qual uma cadela. Justo na minha vez ele ia querer filminho do Hugh Grant embaixo do edredom? O que eu tinha feito para merecer tamanho desprezo?

“Olha, eu vi em você o que eu sempre procurei em uma mulher: profundidade.”

Então, amigo, isso mesmo, profundidade, não vai querer conhecer a minha profundidade agora embaixo da mesa?
Ele passou a noite toda olhando nos meus olhos, sem desviar sequer um segundo para meu decote. Contou da separação dos pais, da dificuldade de engravidar da irmã (aproveitando para deixar claro que ele está louco para ser pai) e do quanto amava os cachorrinhos, a natureza e o amor.
Quando finalmente chegamos juntos ao elevador do nosso prédio, ele apertou seu andar e o meu, matando de vez qualquer esperança minha de ser devorada loucamente naquela noite. Se despediu com cara de bobo e ainda mandou uma mensagem de texto pelo celular quando eu já estava frustradamente deitada na minha cama:

“Foi uma das melhores noites da minha vida.”

Dormi mais uma vez me sentindo usada pelos homens.

agosto 23, 2008

Estereótipos

My Diary:

Todas as patricinhas usam Melissa.
Todo surfista tem mania de meteorologista e gosta de olhar as estrelas
Todo intelectual gosta de mostrar que é intelectual.
Todo mundo que fuma maconha acredita em duendes.
Todo estereótipo é estereotipado.
Todo artista é liberal.
Todas as mulheres são feministas (pelo menos um pouco, assumam!)
Todo político se corrompe.
Todo surfista é maconheiro (aí se encaixa na questão dos duendes, hehe)
Roqueiro usa All Star.
*New-roqueiro que quer mostrar isso pra todo mundo, principalmente.
Toda moda é manipulação.
Todo emo é pseudo-depressivo.
Toda equação matemática tem contestação.
Todos os pré-vestibulandos dormem pouco.
Guitarrista gosta de Jimi Hendriks
Toda patricinha escuta Fergie.
Todo punk é anarquista (ou finge ser).
Todo mundo generaliza.
Todo mundo condena quem generaliza.
Toda pessoa triste é nostálgica.
Toda bailarina tem amigo gay.
Toda Drag Queen tem pênis (???).
Todo mundo que condena estereótipo, tenta ser diferente.

Será que eu não sou um estereótipo também? (Dãããã)
Mas juro que faço tudo de forma mais natural possível! :)

Bom fim de Semana!



Crônica da Semana:

Triz
(Tati Bernardi)

Eu quase consegui abraçar alguém semana passada. Por um milésimo de segundo eu fechei os olhos e senti meu peito esvaziado de você. Foi realmente quase. Acho que estou andando pra frente.

Ontem ri tanto no jantar, tanto que quase fui feliz de novo. Ouvi uma história muito engraçada sobre uma diretora de criação maluca que fez os funcionários irem trabalhar de pijama. Mas aí lembrei, no meio da minha gargalhada, como eu queria contar essa história para você. E fiquei triste de novo.

Hoje uma pessoa disse que está apaixonada por mim. Quem diria? Alguém gosta de mim. E o mais louco de tudo nem é isso. O mais louco de tudo é que eu também acho que gosto dele. Quase consigo me animar com essa história, mas me animar ou gostar de alguém me lembra você. E fico triste novamente.

Eu achei que quando passasse o tempo, eu achei que quando eu finalmente te visse tão livre, tão forte e tão indiferente, eu achei que quando eu sentisse o fim, eu achei que passaria. Não passa nunca, mas quase passa todos os dias.

Chorar deixou de ser uma necessidade e virou apenas uma iminência. Sofrer deixou de ser algo maior do que eu e passou a ser um pontinho ali, no mesmo lugar, incomodando a cada segundo, me lembrando o tempo todo que aquele pontinho é um resto, um quase não pontinho.

Você, que já foi tudo e mais um pouco, é agora um quase. Um quase que não me deixa ser inteira em nada, plena em nada, tranqüila em nada, feliz em nada.

Todos os dias eu quase te ligo, eu quase consigo ser leve e te dizer: "Ei, não quer conhecer minha casa nova?" Eu quase consigo te tratar como nada. Mas aí quase desisto de tudo, quase ignoro tudo, quase consigo, sem nenhuma ansiedade, terminar o dia tendo a certeza de que é só mais um dia com um restinho de quase e que um restinho de quase, uma hora, se Deus quiser, vira nada. Mas não vira nada nunca.

Eu quase consegui te amar exatamente como você era, quase. E é justamente por eu nunca ter sido inteira pra você que meu fim de amor também não consegue ser inteiro.

Eu quase não te amo mais, eu quase não te odeio, eu quase não odeio aquela foto com aquelas garotas, eu quase não morro com a sua presença, eu quase não escrevo esse texto.

O problema é que todo o resto de mim que sobra, tirando o que quase sou, não sei quem é.

junho 14, 2008

Filosofias

(no Weblogger - o falecido - sábado, 14 de junho de 2008)

My Diary:

Essa vida moribunda e orkutiana, além de nos fazer sentir inúteis e dependentes de internet, faz com que nós paremos para filosofar a cerca de questões absurdas, ou pelo menos, desnecessárias.
Aí me deparo com aquela perguntinha que vem no profile: "Primeiro encontro ideal".
O primeiro fato que me incomoda sobre essa parte da descrição internetiana da nossa vida, é a incapacidade que as pessoas têm de interpretar esta questão.
Oras! O Orkut não está querendo saber se você já teve um encontro ideal, como acaba sendo a resposta de todo mundo. Mas sim, o que você considera ideal como primeiro encontro.
A segunda coisa que me intriga, é como respondê-la. Simplesmente porque a nossa cultura brasileira/atirada/carnavalesca/luxuriosa não faz com que tenhamos muitos "encontros", mas que tenhamos muitas "saídas" onde possivelmente vamos encontrar alguém interessante/bonito para nos levar à lascívia depois de uma hora de conversa (no máximo). Aí, se esses dois se encontrarem de novo, já não será um primeiro encontro. Tampouco terá peso de encontro...
Agora, no caso de REALMENTE haver um encontro, como seria o primeiro encontro ideal?
Afinal... Como algo pode ser ideal?
Como se faz para que algo seja perfeito?
Nesta parte daremos milhares de concepções de perfeição e utopias sobre a vida. Falaremos sobre muitas coisas que desejaríamos e que facilmente poderia se transformar numa novela, ou num livro de Érico Veríssimo.
Mas no fim das contas, quando acharmos aquele encontro que pareceu ideal, que nunca esqueceremos, veremos que nada houve de toda aquela idealização inicial.
Confuso, né?
À meu ver... O ideal é aquele que deixa com vontade de bis...

Bom fim de semana.



Poesia da Semana:

No elevador do filho de Deus
(Elisa Lucinda)

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
Que eu já tô ficando craque em ressurreição.
Bobeou eu tô morrendo
Na minha extrema pulsão
Na minha extrema-unção
Na minha extrema menção de acordar viva todo dia
Há dores que sinceramente eu não resolvo, sinceramente sucumbo
Há nós que não dissolvo e me torno moribundo de doer daquele corte do haver sangramento e forte
que vem no mesmo malote das coisas queridas
Vem dentro dos amores>
dentro das perdas de coisas antes possuídas, dentro das alegrias havidas
(...)