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maio 30, 2013

O que não faz um par de brincos na orelha direita


Passando batom. Rímel. Blush. E todas essas "feminilidades" que usamos para nos sentirmos melhores do que achamos que somos. Hoje saí armada de cosméticos e promessas de sedução e pele perfeita, e, não é por nada não, mas essa besteirada toda é muito interessante.
Sai toda acreditando-me, caminhando com fulgor até o momento em que olhei o reflexo do retrovisor de um carro, estacionado ao meu caminho, enquanto esperava apara atravessar a rua. Que curioso, o que eu vi.
Naquele reflexo estava eu.
Encontrei ali, muito além de uma máquina de fazer operações matemáticas ou digitar caracteres por segundo. Tinha gente viva ali dentro.
Então tomei meu pulso. Havia pulso aqui, dentro de mim.
Fui percebendo o trabalho de cada um dos meus órgãos e das minhas células. As trocas gasosas nos alvéolos pulmonares, os pulsos elétricos percorrendo todos os meus nervos, os poros se abrindo, minhas mitocôndrias consumindo glicose indiscriminadamente. A temperatura do corpo mudando discretamente. Os músculos da face se articulando com a surpresa das descobertas.
Tão de repente. Tanta certeza de que eu existo de verdade. Tanta coisa que estava perdida e escondida por detrás de uma cortina de razões e preocupações estupidas.
Até que ventou. E eu senti meus cabelos balançarem enquanto fechava meus olhos para deixar o mundo acarinhar minhas têmporas.
Então reacordei do meu mergulho interno e olhei em volta. Perdi o tempo de atravessar a rua. Agora, mais um minuto de espera para chegar ao meu destino.
Pára. Escuta.
Havia tanta gente também.
Gente viva como eu.
Batom. De novo.
Sorriso.
Senti o cheiro da leveza. E sorri de novo. Outra vez, de maneira furtiva.
Estou toda furtiva, tão de repente. Nem vi, e já estava existindo.
Minha dança volta acontecer. Quer ver?

Agora tenho trilha sonora nova.
Se ficar olhando vai me ver dançar.


Música:
(Eu to toda me querendo, toda me sentindo. E a música é vazia demais para dispor a letra de maneira escrita. E não acompanha bem o post. Mas ela é relevante o bastante para aparecer aqui, em algum momento. E me permitam, sou carioca! ;)



Música para ilustrar: Show das Poderosas - Mc Anitta
Mc Anitta - Show Das Poderosas by Va - www.musicasparabaixar.org on Grooveshark



junho 21, 2012

Fêmea delta


Música para acompanhar: The Ballad of Monalisa - Panic! At the Disco



Sinto muito, mas não sou a mulher que você espera. Desculpe decepcionar-te.
Nada tenho a te oferecer de habitual numa conversa macho/fêmea. Nada de voz sedutora, de jogos corporais, de flertes. Nenhum papo fingidamente desinteressado, travestido de conversa casual. Sem etilismo.
Aqui você não vai encontrar aquela conquista fácil, resultante de joguinhos de sedução baratos, que se pratica em noites de tédio.
Não. Não aqui.

Nada disso posso te oferecer. O máximo que consegue extrair de mim será minha timidez. Constante e indisfarçável.
Sou boba e fácil de seduzir, confesso. Mas não tenho receita. De repente: gostei ou não gostei! Não há regras ou manual de instruções.
Também não adianta discorrer elogios, porque não acredito neles. Não sou bonita, estou fora de forma e tenho chulé se fico muito tempo com sapato fechado sem meia. Eu não atraio visualmente, então, o máximo que vou poder te dar em retorno pelos galanteios é meu sorriso amarelo.
Ser seu tipo de mulher provavelmente seria muito mais fácil e efetivo. Mas não...

Eu falo olhando fixamente nos olhos, o que pode parecer ameaçador às vezes.
É a única forma que sei me comunicar, até que algo me faça perder a compostura e eu seja obrigada a evadir para meus pés.
Desde a mocidade tenho tanta certeza de mim, que usar meu espelho para baixar minha guarda não é possível. Tenho dedos magros, expressiva flacidez nadegueira, cabelos rebeldes e lido muito bem tudo com isso. Não me causam insegurança – ainda que não me causem satisfação.
Aquela solicitação gratuita de elogios nunca parte daqui - ou quase nunca. Eu gosto do reconhecimento pelo que conquistei e não o camuflo com falsa modéstia.

Devo ser o avesso daquilo que lhe atrai.
Sou um leão que brinca de ser bailarina de vez em quando. Daqueles que não se abalam por nada aparentemente.
Não estou sempre penteada, nem tenho as unhas bem feitas. Mas garanto que minhas mãos te acarinham o rosto com delicadeza que você nunca conheceu.
Enaltecimento excessivo me cansa. Não sou fêmea de pavão.
Gosto do retrato sincero. Quaisquer dos seus métodos de sedução típicos não funcionarão. Desculpe castrá-lo. Não era minha intenção. Mas pelo jeito, nasci rebelde.

Sussurros pela nuca não me eriçam, pelo contrário, me causam asco. Mas a honestidade... Essa pode me derrubar.
Eu tento a todo custo disfarçar atração e anseio. Mas se você estiver diante dos meus olhos neste momento, vai perceber bem rápido apesar do meu empenho.
Divido as contas, bebo whisky, assumo minha miopia e amo batom vermelho.

Eu sei que sou o avesso de tudo o que você já viu.
Mas também sou o que está te tirando o sono agora.

dezembro 05, 2011

Futilidade

A verdade é que são as carroças vazias que mais fazem barulho.
E ainda existe muita gente barulhenta neste mundo. O que cansa, e muito. O excesso e o volume alto dos espetáculos pessoais invalidam qualquer auto-afirmação.
Fatos não precisam ser repetidos incessantemente para que tenham credibilidade, só precisam ser verdadeiros. Ser bom é o bastante para a divulgação do produto. Já pode abaixar o som.


 Eu busco o silêncio.
(À exceção deste local, só meu, mas que autorizo a visita periodicamente.)



Estou cansada e precisando de movimento, ar, sol e luz. 
Tento voltar em breve se houver tempo e vida em mim.


novembro 25, 2010

Bateu aquela fome?


E quem disse que não é o caos que move nossas vidas?
Não, não é sobre a velha teoria do bater de asas da borboleta, nem a regra da química que diz o sistema tente ao caos e por ele próprio se estabelece a ordem.
Não. Aqui é só aquele caos diário e mínimo, que dá o ar da graça sempre que o tédio e o marasmo se instalam.
Oras, só hipertensos comem comida sem sal.

Nós queremos é molho picante!



Crônica da Semana (vou acabar mudando para "mês" ¬¬')

O Gato Sou Eu
(Fernando Sabino)

- Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.
- Continuou dormindo.
- Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.
- Que espécie de gato?
- Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.
- A que você associa essa imagem?
- Não era uma imagem: era um gato.
- Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?
- Associo a um gato.
- Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.
- Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.
- Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.
- Uma projeção do senhor?
- Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.
- Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.
- Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.
- Em quem o senhor está falando?
- Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.
- Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.
- Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.
- Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?
- Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.
- Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?
- Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.
- E eu insisto em dizer: não é.
- Sou.
- Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.
- Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…
- Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?
- É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.
- Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.
- Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.
- Já disse que o gato sou eu!
- Sou eu!
- Ponha-se para fora do meu gato!
- Ponha-se para fora daqui!
- Sou eu!
- Eu!
- Eu! Eu!
- Eu! Eu! Eu!

outubro 24, 2010

Adoro apelações baratas


Pontos finais podem, sim, substituir vírgulas, porém vírgulas não podem substituir pontos finais. A capital do Brasil não é Buenos Aires, mas já foi o Rio de Janeiro.Nem todos os nascidos no Rio e Janeiro são cariocas. Gordura não é sinônimo de bem alimentado.
Só para deixar bem explicado.

Eu não procuro pelos vivos, pois magicamente corpos caem à minha frente. Não escolhi, mas sempre acontece. Até quando não quero. E apesar dos iludidos serem mais felizes, não acho que fechar os olhos e fingir não enxergar o óbvio seja a melhor escolha - nem sequer é escolha: é covardia pura.

Apenas quem muito lê tem as palavras soltas e bem escolhidas, postas nos locais certos. A má escrita ou a escrita imatura é digna de quem ainda está preso à Heidi e ao Dicionário de Serafina - mas solicitando sempre ao Aurélio, só pra parecer poeta. Não funciona. E são os meus calos que me dão propriedade para o dizer.

Sonhos têm limites e o limite é: cresci. Isso não impede de se sonhar sonhos novos. Apenas serão sonhos alçados na realidade. Os sonhos puros ficarão para as madrugadas.

Mas de todos os seus medos, uma coisa é bem verdade: no meu corpo foram perdidas palavras e suspiros, e com ele dado muitos ensinamentos. Verdade incontestável.
Eu deixei o vento secar as palavras aqui pousadas, e de poucas ainda me recordo: o passado esqueci escrito em algum lugar e andei para frente. Muito à frente do que me encontrava. Pirraças caprichosas jamais irão me ofender e mudar alguma coisa, sobretudo, porque não condizem com nosso novo contexto econômico. Pirraças caprichosas e imaturas... Mas rendem risadas.

Está tudo fora do contexto e situação. A vida andou e quem estagnou não fui eu. Só que você não enchergará nada disso enquanto não se curar dessa sua paixão platônica por mim. Ms.



Crônica da Semana:

O perigo do Asterisco
(Bibi da Piève)

Chego à loja da operadora de celular e peço ajuda para mudar o meu plano. A moça pergunta se, por acaso, eu teria comigo duas cópias das duas últimas faturas da minha conta telefônica. Que azar, não tenho.

- Posso estar tentando digitar os dados aqui no computador, e solicitando uma segunda via...

Três tentativas - sempre no gerúndio -, e nada. Os dados não estão conferindo. Sim, eu tenho certeza, meu número é este. Meu CPF é este. Meu nome completo, com "b" de bola. Meu endereço. Meu telefone residencial. Tudo certinho.

- Sinto muito, senhora, mas os dados não conferem.

Chega uma hora na nossa vida em que, fatalmente, alguma coisa não confere. Pode ser uma simples etiqueta de calça jeans.

- Tem certeza que é 44? Mas ficou tão justinha...

Pode ser o contracheque. Pode ser o sapato azul-marinho do seu marido. Pior: o próprio marido - que, no particípio, era tão amado, mas, no dia-a-dia, faltou foi gerúndio. Se é que você está me compreendendo.

De repente, somos um amontoado de números que não se entendem entre si. Ou seja, o problema dos dados é que eles quase nunca se dão. São as ironias do mundo informatizado - para as quais sempre se tem uma solução imediata, ainda que ela seja a senha para outra janela de problemas insolúveis (ao menos, por alguém com mais de 14 anos).

- A senhora pode estar ligando para o asterisco-número-tal, e solicitando a segunda via de sua conta telefônica.

- Querida, muito agradecida. Fui.

Viro as costas e vou-me embora. Quando começam com esse papo de asterisco, pode crer que é mais aborrecimento. O asterisco é o maior 171 da paróquia. Só não vê quem não quer.

Na publicidade, ele reina absoluto. Páginas inteiras com anúncios em letras garrafais seduzem até não mais poder. Lá no fundo, escondidinho, um malicioso asterisco introduz o parágrafo esclarecedor: não era bem assim. Era só para os primeiros 20 que ligassem. Cujos nomes começassem com a letra K. Cujas mães tivessem carros cujos últimos dois algarismos das placas, subtraindo-se as datas de nascimento dos... (ad infinitum).

A zona do asterisco, portanto, sempre é a mais perigosa. Um pouco por ser a parte ruim, a perna que manca. Um pouco por requerer leitura contorcionista.

E se as pessoas da nossa vida viessem com asterisco?

Homem bonito, charmoso, sensual, 30 e poucos anos, sorrindo para você no trânsito. Asterisco: casadérrimo, pai de Camila e Leonardo.

Moça de parar o trânsito, alta, morena, sexy, cabelão pela cintura, voz rouca, dando a maior bola para você na saída da boate. Asterisco: não aceita cheque.

Esposa dedicada, divertida, companheira, nunca quer discutir a relação, jamais reclama do seu futebol às quartas-feiras, e até incentiva o chopinho com o pessoal do escritório às sextas. Asterisco: vem cá, você não tem dado falta do Geraldo nesse chopinho, não?

Tem gente que se nega a enxergar o asterisco dos outros. E há quem faça de tudo para esconder o próprio. Às vezes, durante toda uma vida.

Quem nunca ouviu um caso de velório onde, de uma hora para outra, aparece uma viúva não oficial carregando três ou quatro herdeiros-surpresa? Asterisco póstumo. Muito em voga.

Isso para não falar nos asteriscos de Brasília, que só aparecem carregando os herdeiros pela mão depois que você já apertou o verde para confirmar.

Aí ficamos nós assistindo àquele show de asteriscos, espetando-se uns aos outros, tudo para concluir a sentença máxima de quem empresta mas não contabiliza, fuma mas não traga, transa mas não goza: os dados não conferem.

agosto 17, 2010

Meu savoir-faire


Com o meu sorriso eu sou uma lição de talento e muito estilo, ninguém tem como não ver o meu savoir-faire.
Sou noveau, robô, romano, grego, rococó, barroco, e pop, e pop... Ah! Eu sou pop! (Alguém me segure!!)
Caras bonitas não surgem à toa - eu me destaco sim na multidão.
Depois de feito quebraram meu molde. Com muita elegância e refinação sou uma alucinação!

Vilões criam confusões, decorem as celas das prisões: o verde combina com qualquer coisa que quiserem, viram?
Tem mais uma coisa que eu quero cantar, abram a boca e gritem sem parar:

CUIDADO!!!!!
Esse é o Maskara!


- Que demais!!! -

dezembro 27, 2009

Post do "Cai o Pano"



A partir de agora, a palavra "eu" vai aparecer muitas vezes na minha vida. E neste blog. O tanto de "eu"s que tinha por aqui não era o suficiente.
Tudo porque já basta de ser outros ou dos outros e me doar sempre sem saber se ainda aguento o peso sobre meus pés.
Aguentar eu descobri que aguento. Mas só porque aguento não quer dizer que acho bom. Agora, meu mundo vai girar em torno do meu umbigo. E isso não é colocar a mim em destaque no universo, mas me colocar como primeira pessoa do meu singular espaço. Afinal, eu que tenho que ser a protagonista da minha vida.
Eu vai estar em evidência. Eu vai pedir passagem. Eu perguntará para eu mesma quando acordar "está tudo bem?" E eu me responderei com sinceridade porque eu está realmente querendo saber como eu me sinto.
Eu não é a pessoa mais perfeita do universo, mas é a que mais tenta acertar e a que mais me importa agora e sempre.

A vida dos figurantes não é mais papel meu. Até porque, descobri que figurantes não adimiram o papel prinipal: eles querem tê-lo.

Cancei de ser descartada, desnecessária e obsoleta. Não há mais espaços para coadjuvanets na minha história e eu serei autosuficiente.



Não há crônica ou poesia. Nem a velha crônica do Henrique Sklo sobre reveillon. Nem o velho post de reveillon. Não estou afim de desejar nada a ninguém. Ninguém me lê ou interpreta. Não há reciprocidade e tão pouco afeto. Até minha saudade está se apagando. Mas torço pra não estar me tornando amargurada demais. Pois ainda nem fiz 21.
O que há por aqui hoje são desculpas pela ausência (aos poucos leitores) e esperança de, pela primeita vez, ter um ano de "Feliz para sempre". Pelo menos em um ano da minha vida. Neste ano.

Tá... As pessoas que passam por aqui merecem um Feliz ano Novo. =)
Boas entradas! *risadinha infame* (lembrando da crônica do Sklo.)

outubro 06, 2009

Então...

My Diary:

Não é desinteresse [a respeito do blog]. Vontade eu tenho [ainda a respeito do blog]. Mas falta tempo, inspiração e compreensão do mundo além do eu. Porque meu eu eu sei de cor, conheço e aprecio muito. Mesmo parecendo egocêntrico.
Eu sempre soube que buracos podem ser preenchidos, e de forma muito eficaz e satisfatória. Eu não sei é durante quanto tempo ele permanecerá preenchido ou suportando a grande carga que o vazio exerce sobre ele. E se isso é o suficiente.
Na verdade verdadeira, eu queria saber por que os buracos se abrem.
Eu queria saber tantas coisas e tantas coisas me perturbam que, por hora, pretendo – e tento – só não pensar nelas, ou não as perceber.
Por hora eu fico feliz de saber que eu sei quem eu sou e que sempre soube. E que sempre soube que eu gosto de ser o que eu sempre soube que sou. Mesmo com um pequeno defeitinho.



Crônica da Semana:
(Tati Bernardi porque eu a adoro, porque não tenho criatividade e porque está é fantástica e autoexplicativa.)

Berro em pé
(Tati Bernardi)

Férias antes dos doze anos era coisa de criança, poderia ser incrível ou um fiasco, a depender da programação dos pais, do tempo, das brincadeiras propostas, dos velhos amigos do prédio ou dos novos da praia, fazenda ou o que fosse.
Férias aos doze não dependia mais de pai e mãe e muito menos do tempo lá fora. Eu já tinha um projeto de seio (dois, no caso) e minha saliva tinha engrossado justamente porque eu não comia mais só o que era molhado e mastigado pelos cuidados de quem cuida. O mundo seco me martelava e incendiava o tempo todo e haja liquido próprio pra continuar viva. Foi assim que na última aula do último dia útil do mês de junho, minutos antes do sinal que separava uma classe de setenta e dois alunos das primeiras férias adultas de suas vidas, chegou pra mim um bilhetinho que dizia “quando tocar o sinal é pra berrar e ficar de pé”. Eu olhei para trás e uma infinidade de garotos topetudos e garotas com brincos gigantes rasgando suas orelhas confirmaram o combinado com bochechas rosadas e olhos safados. Eu finalmente era um deles e combinei comigo que gritaria o mais alto que pudesse, pularia o mais alto que pudesse e ainda esmurraria o topo do céu o mais forte possível, como fazem os que vencem alguma coisa depois de muitos anos de sofrimento, semi desistências e vômitos de madrugada.
Faltavam quatro minutos e eu olhava pra trás, agradecida até não poder mais por ter sido chamada a pertencer. Eu, aos doze anos, prestes a devorar a vida como se doze anos fosse ser muito velha e muito terminal e muito tanto que não pudesse ser mais nada, não estava tão sozinha assim no mundo, eu tinha enfim amigos que berrariam comigo, de pé, a chegada de alguma coisa que eu não sabia bem o que era mas que tinha a ver com meus peitos pequenos e meu coração batendo com arritmia de valsa bem no meio das minhas pernas.
“Crescer não precisava doer tanto”, eu lembro que pensei ao sentir, pela primeira vez, que cada canto do mundo podia trazer o perfume da minha mãe. Ainda que o cheiro desse perfume de mãe não fosse o da minha. Crescer pode ser gritar quando não se aguenta e pode ser pular quando não se aguenta e pode ser com amigos já que, enfim, é de não se aguentar mesmo. Eu só perderia a virgindade dez anos depois daquele dia, eu só beijaria na boca dois anos depois daquele dia, eu só me masturbaria pela primeira vez três anos depois daquele dia. Mas aquele dia, lembro bem, eu coloquei meu cabelo atrás da orelha e senti, com o tom da voz mental menos infantil, que a vida podia vir que eu tava pronta e a mataria no peito. Eu não teria dor de barriga. Que venham as férias.
E foi então que o sinal soou e eu berrei, de pé, com os braços muito esticados para o alto. Completamente sozinha. Seguida por caretas, dedos apontados e pelos sons de risos descontrolados, palmas e uivos de todo mundo.
Essa é minha última lembrança antes de me sentir envelhecendo. Como uma criança que comemora sozinha. Como uma louca que não aguenta isso tudo que é tão bom e terrível e não disfarça mandando bilhete anônimo e nem se escondendo em grupos de risos e chacotas. E assim se seguiram todos os meus dias, até aqui. É sempre pra essa cena que volto, quando tenho a impressão muito convincente de que sinto os sinais que tocam com muito mais dor e grito e alegria que as pessoas que ficam na espreita dos que ansiosamente não suportam muito não ser puros.
Na hora eu quis morrer de vergonha, ódio e medo, mas hoje eu vejo que desde o começo eu sabia da maldade mas preferi, como troca justa com o que minha história ainda tinha pra me contar, dar uma chance, até o fim, para que o mundo pudesse me amar do tamanho que a gente ama o mundo aos doze anos.

fevereiro 26, 2009

Já devia ter postado antes...

My Diary:

Sou um cavalo xucro, que não aceita rédeas.
Sou como uma tempestade devastadora.
Não se me pode deter... E nem sequer evitar meus desastres.
Não tenho fios presos às minhas mãos e pés... Não sou um marionete manipulável.
Tenho alma e vida própria.
Ganhei no sopro de vida que Deus me deu.
E depois disso, sou eu quem desenvolvo meu caminhar.
E o meu caminho escolho eu.
Sou tempestuosa e indomável.
E ameaçadora que você nem sabe.
Não tenho alavancas, nem roubo as sombras de ninguém.
Os calos nas minhas mãos mostram que escalei só e com dificuldade.
Eu sou a Lua adorada que não pertence a ninguém.
E a melancolia do pôr-do-Sol que muitos querem apagar.
Mas não adiantam os desejos... Só vou embora quando eu cismar.
Eu sou o vendaval e o cão sem dono.
E sou vacinada contra a dor.
Nunca procurei Oz. E nem acredito em anedotas.
Eu controlo minha cabeça.
E no meu coração, mando eu!



Poesia da Semana:

Ausência
(Vinicius de Moraes)

Eu deixarei que morra em mim o desejo
de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa
de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa
como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque
em meu ser está tudo terminado.
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar uma gota de orvalho
nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
como uma nódoa do passado.
Eu deixarei ... tu irás e encostarás
a tua face em outra face

Teus dedos enlaçarão outros dedos
e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei a minha face
na face da noite e ouvi a tua fala amorosa

Porque meus dedos enlaçaram os dedos
da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência
do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só
como os veleiros nos portos silenciosos

Mas eu te possuirei mais que ninguém
porque poderei partir
E todas as lamentações do mar,
do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente,
a tua voz serenizada.