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abril 22, 2016

Diálogos constantes com Moritz Stiefel

A banda marcial continua.
A bailarina da Dança na Corda Bamba persiste em seu percurso com postura primorosa e boca cheia de dentes à mostra. Virtuosa, segue os tempos bem contados em seus passos sincronizados com os compassos que não podem ser perdidos. A coreografia é obedecida rigorosamente e o espaço é recalculado segundo após segundo.
Fechar os olhos bem pintados e deixar a música guiá-la ao infinito não é possível: se desconcentrar, ela cai.
E não há rede.
Não descansa. Nem bem respira. Tudo por uma execução impecável.
Com toda a graça que se espera de uma bailarina, ela engana o público que não sabe que a moça que desliza pelos arames carrega pedregulhos dentro dos seus trajes de Colombina.
Pé ante pé, nas pontas dos dedos, devagarinho vai dançando e avançando através do fio infinito conforme o esperado. 

janeiro 18, 2016

Enquanto a calma dorme

Não desarrumar as gavetas que estavam tão bem organizadas.
Não desandar a massa do bolo porque o recheio já está pronto e está muito bom.
Não deixar que as pegadas se apaguem para poder ter direção para voltar.
Não descansar demais o corpo para que ele não se acostume ao ócio.
Não deixar que a boca fique muda, porque as palavras ditas costumavam ser muito bonitas.
Não deixar a sanidade partir porque foi muito difícil trazê-la de volta.

fevereiro 23, 2015

Animação

Acaba de dar meia-noite, e isso significa que eu acabo de concluir mais um ano de sobrevivência na terra, na vida material - ou concluirei em breve, porque não sei a que horas eu nasci. Não fossem os alertas das redes sociais, eu sequer lembraria deste detalhe, já que há tempos não vejo as horas passarem. Está tudo igual. Estou como há minutos atrás, há dias ou meses atrás, na frente do computador, trabalhando ininterruptamente para não perceber o tempo e a vida que vivem fora do meu corpo. Com os olhos cansados do sono atrasado que não será compensado por mais esta noite.
Vejo-me exatamente no mesmo lugar que a qualquer hora ou dia atrás. Em uma data arbitrária qualquer no passado. Na mesma posição enviesada. Com a mesma certeza de que não andei pra frente, e que me esforcei muito para não andar para trás. Absolutamente só, porque já não personalizo seres inanimados. Sem conquista, ou expectativa. E confiante de que deveria estar comemorando por permanecer minimamente lúcida, mas sem ânimo para qualquer estado mais intenso do que uma meditação.
Além de todos os conflitos óbvios esperados para a geração Y.
Meus sonhos eu não os tenho mais. Foram roubados há muito tempo, e eu passei a viver sem saber se quero e amo alguma coisa. E o quê. Foram roubados meus sonhos, minha vivacidade e meus movimentos no mesmo dia em que me roubaram de mim. Desde então sou carne que vaga, com uma vaga lembrança de que um dia tive muitas certezas.
A mente, às vezes, fica no rastro do corpo que se arrasta pela sobrevivência. Às vezes volta. Às vezes pensa em se esforçar mais para acompanhar o peso das pernas e do tempo. Mas no final, se rende a abraçar-se a si e dorme.
A mente dorme. A carcaça se arrasta largando os pedaços. E os olhos sem vida olham para fora esperado pelo resgate. Enquanto alertas as redes sociais avisam sobre comemorar algo que não me lembro o que era. Lembro que estou triste.
E não sei se isso passa ou vai além de um texto triste de uma pessoa que anda triste demais há tempo demais para lembrar quanto tempo tem que tudo virou do avesso.

novembro 07, 2013

Das etapas


De repente você percebe o quanto as paredes são brancas, grossas e silenciosas. O quanto o ar pode ser opressor. Um torturador delicado. Você percebe o quanto as coisas são volúveis. Você percebe a casa ficar vazia por tempo demais.
É um oco suave que entra no seu corpo através dos seus ouvidos e te percorre por inteiro, circulando junto com o seu sangue. E você o vê a todo instante desde o dia em que notou o tempo passar.
São os amigos que se mudam, os velhos que morrem, os primos e irmãos que se casam.
A sala vai esvaziando. O burburinho diminui gradativamente, significativamente. Tudo pára de fazer sentido.

Encerrar etapas não é fácil.

Seu tempo livre é só seu. O diploma está em sua posse agora. O seu currículo cresceu. Agora inclui o tempo que passa depressa demais e a percepção de que não foi usado tanto quanto deveria.
O relógio já superou o correr tradicional. As horas se tornaram almas apressadas e a maior parte delas é acompanhada da solidão, das obrigações e de certo desconforto. Do trabalho que não é exatamente o que você queria, mas que dá graças por existir. Labutar lutando contra os minutos tictaqueados - entre uma xícara de café e outra, até a redenção de voltar para seu ninho de isolamento – é, agora, o que preenche sua rotina.

Daqueles amigos de todo dia, ficaram dois, que se tornam visita quinzenal. Se der sorte. Se tudo der certo. Se não chover. E a casa... A casa fica vazia demais. Tempo demais.

A casa perde o sentido.

A cidade toda perde o sentido, mas você continua lutando nela (contra ela) porque voltar faria ainda menos sentido. Embora, um pouco de calor familiar pareça sempre muito conveniente.

A refeição é para um. A comida é industrializada demais, silenciosa e apressada. Pressa sem razão. Pressa do hábito. O hábito de saber que os dias são curtos.
E tão brusca quanto sempre, a noite chega com o silencio da cidade grande: cheia de sons. Só a luz azulada do monitor existe além da sua própria presença, e ela invade despudoradamente os espaços livres do seu quarto. E nunca se desliga. É sua ilusão de estar vivo. É a hora do sorriso tímido sincero. Tímido mas sincero, finalmente. É a sua companhia.

Você sabe que cresceu, mas, aparentemente, o mundo cresceu mais ainda, mais forte e te engoliu. E Sobrou tanto espaço em volta, que a casa ficou vazia demais.

setembro 09, 2013

Janela


Ela encostou o ouvido no meio do peito e ouviu o oceano, o uivo do vento e o som de tudo o mais que não havia ali. O silêncio contido naquele imenso espaço vazio foi o que restou da vida de dissabores. Dos retalhos de si mesma.

O som da concha guardada no tórax trazia consigo aquilo queria esquecer: o que não deu certo, o que não começou, as perdas, os enganos, as entregas. Sobretudo, as cretinas entregas. Às cegas. A outros vastos corações perdidos e vazios, espalhados pelas ruas por onde caminhou.

Então começa toda uma reflexão masoquista das feridas que abriram deixando os sentimentos escorrerem até sumirem. Ela as toca, as evidencia, rasga os buracos com navalha, como se isso lhe trouxesse de volta a animação que lhe escapou. Na tentativa insana de achar, na carne exposta, algum gozo, alguma razão para redescobrir a vida. Qualquer coisa que lhe faça recomeçar. Mas tudo continua sendo oceano. E vento uivando.

Todo o vento que lhe secou suas lágrimas. Mas nem por isso levou as dores para longe de si.
Esperou, em vão, a ansiedade passar. Esperou a tristeza passar. Por fim, esperou pelo pranto. Vão. Varreu-se a empatia.

Pousou mais uma vez o ouvido no peito, tentando encontrar paz em meio ao silêncio. Não havia. Estranhamente, não há, em todo aquele repouso, qualquer sintoma de paz.
Então desistiu. Estava cansada demais para continuar se dilacerando a procura de algo bom. Tomou um qualquer anestésico e foi dormir sua quase inércia.

agosto 27, 2013

Pra quê?


Música para acompanhar: Tempo Perdido - Legião Urbana
Tempo Perdido by Legião Urbana on Grooveshark


Desde a hora em que eu acordei estou procurando algo além dos caracteres espalhados pela world wide web, mas não sei mais existir fora da luz azulada do monitor. São muito anos assim, perdida e inerte, e já não sei mais procurar caminhos ou entretenimento. Acabo caracozando, procurando gastar as horas nas redes sociais, sem perceber o tempo passar, como se o dia fosse um qualquer coisa de torturante e ruim, que você torce para que acabe logo.
Me ver agora é como despertar de um sonho, quando a realidade e a fantasia estão ainda misturadas e confusas, é são necessários vários minutos esfregando os olhos antes distingui-las e levantar da cama.

Aí que eu acordei, mas ainda não pus os pés no chão. Esqueci como caminhar. Esqueci como viver sem limites e sem amarras. Me parece que gostava das podas. Eu sabia quem eu era, o que devia fazer, quais eram minhas funções. Quais eram os meus limites.
Então de repente eu tenho de me descobrir nos mais profundos detalhes.

O que eu gosto de comer?
O que eu gosto de fazer?
Quem sou eu?
Pra quê eu sirvo?

Pra quem eu sirvo?

E tudo não passa de perguntas sem resposta, que amplificam significativamente a sensação vazia que me acomete. Descubro que difícil também é não ter alguém que te responda tudo, mesmo que você já conheça todas as respostas.
É realmente estranho e custoso caminhar sozinha. Sobretudo, quando não se é treinada para isso. Sobretudo quando você tem de começar depois de cansada e enrugada.

Pra que eu sirvo?

No fim das contas, acho que só queria encontrar uma qualidade em mim, para ter um ponto de partida para o recomeço da existência solo. Um foco próprio para direcionar os próximos passos e um sorriso de orgulho de si.

janeiro 06, 2012

Fome de dor

Têm aqueles dias que você abre os olhos e está pronto para experimentar paz e plenitude desmedidas. Ou sentimento algum.
Não é o dia de hoje.

Já me doei tanto, já invalidei tanto a própria vontade, que cheguei a acreditar que não possuía alma e fui não mais que um corpo vagando a espera da extenuação. Arranquei o coração do peito à faca. Na coragem e sangue frio. Já me entreguei tanto que peguei minhas próprias compaixões e as engoli.
Despi-me de mim mesma para dar significado a outras vidas. Nesses dias deixei de ser cor e luz, para ser só mais um corpo sem vida.

Mas agora os sentimentos não cabem no peito.
Estremeço-me de agonia, ansiedade e fúria. Eu quero rasgar e arrancar minhas roupas e me arremessar na água fria. Gritar mesmo sem voz, toda a minha agonia até sentir inflamar a garganta e o cansaço tomar todo o corpo.Chorar e rir tanto, sofrer tanto, sentir tanto até esvaziar e ficar estirada no chão pela exaustão. Faltam-me abraços e mordidas. Falta eu dilacerar minha face com as próprias unhas. Falta conseguir expressar esta angústia de não ser capaz de dizer quantos sentimentos existem dentro de mim.
Tenho ao mesmo tempo amor e lamúria. E uma vontade irreprimível de chorar um mar inteiro de lágrimas sem razão.
Não sinto absolutamente nada, senão esta necessidade de mostrar que sou capaz de sentir de novo. De comer meu corpo e comer qualquer outro corpo e sentir as têmporas descerem através minha garganta e suspirar o tenso ar do alívio após fartar minha vontade

dezembro 19, 2011

Agora nada

Agora acabou. E eu fiquei esperando o que acontece depois, como quem assiste aos créditos finais. Com um silencio crescendo ao meu redor e a perfeita sensação de nada estava acontecendo.
Até perceber que tenho que começar a escrever para que haja história a ser contada.
Silêncio mais uma vez.
Então olho para a janela... Provavelmente ainda na esperaça de que haja algo depois do fim, mas não há.
Não há gente, não há som, nem nada para acontecer sem que eu tenha de tomar o primeiro passo.
Mas há chuva.
Então vou começar por aí. Abrir a janela e sentir a chuva. Deixar ela lavar e levar de mim tudo isso que não existe, e trazer nem que seja o frio.
Com licença, vou lá escrever uma história.



Poesia:

Mas há a vida
(Clarice Lispector)

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

fevereiro 24, 2010

Dia Mudo

My Diary:

Onde foi exatamente que larguei o leão que sempre cavalguei?



Crônica da semana:

Um domingo, duas gastinhas - Fábula do amor e seu duplo.
(Xico Sá)

minhas duas gatinhas voltaram no mesmo dia;

a que não era gente ficou, juízo não tinha.

As duas, porém, me fizeram felizes do mesmo jeito;

cada uma me fez bater de um lado do peito.

Uma me deixou nervoso; a outra me fez mais calmo.

Quando a primeira saiu, não enxerguei a outra a um palmo.

Precavido, porém, tranquei uma delas em casa;

perder tem limite, corto-lhe as asas.

Mas a história foi bem bonita: quando descobri uma das meninas, amor à primeira vista, ela me trouxe a felina, que no futuro ajudaria a diminuir a sua própria falta.

setembro 20, 2008

Reticências

My Diary:

O risco maior de quando não se tem assunto. O risco maior de quando não se tem inspiração. O perigo de não se saber o que se quer. O que acontece quando seu blog fica sem conteúdo:
A inércia.


(...)


Stop. A vida parou!


(...)


Que medo de tudo ficar parado.
Horrível essa tal de Inércia.
Ela se apega quando chega.
E o que se faz?
Dorme. E espera que a inércia acorde.
Vamos esperar o sonho despertar, pra agir de novo.
Quem sabe, em uma semana, já se tenha algo para se escrever neste blog?

Perdoem-me...



Poesia da Semana:

(Carlos Drummond de Andrade)

stop
a vida parou
ou foi o automóvel?