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agosto 18, 2015

Vim sem brinco

Olha, preciso conversar com você.
Não é nada sério, é só pra te dizer que essa é a última vez que eu venho. E também vou cortar contato. Qualquer que seja.
Sabe, isso está começando a ficar gostoso demais pra mim. Dá vontade de esticar o fim de semana aqui, nesse canto da cama, sentindo esse cheiro de lençol até a terça-feira, e levantar só para pegar alguma besteira na geladeira.
Está definitivamente ficando bom demais. Pra mim. E daqui a pouco se torna um hábito.
Eu até concordaria que isso é ótimo e que não faz sentido abandonar algo que está em aprimoramento, mas acontece que é uma via de mão única. É só pra mim. Então antes que me arrume problemas, estou sambando fora!
Eu sei que, por mais que você também ache um deleite esse lambuzar de divagações, gordura, açúcar, gozo e conchinha, eu sou só sexo casual. Para ocupar o tempo que sobrou nos planos.
Não, não se preocupe em negar! É isso mesmo, sim, e não tem qualquer problema nessa relação. Acho super saudável, inclusive! E de forma alguma me isso ofende. Não, enquanto for honesto.
Eu também adoro gastar minha monotonia dessa forma, e adoro saber que sou uma boa companhia. A gente funciona bem nessa coisa, né? O sexo é encaixadinho, papo pós coito flui bem... O papo pré coito também, aliás. Perdoe-me não tê-lo mencionado primeiro.
A gente realmente dá muito certo.
Mas acontece que é isso aí: tudo tem início meio e fim. E esse é o nosso. Acho que concordamos que estamos acabando muito bem.
Eu vou apagar seu número e te bloquear no Facebook, só por segurança. Não se ofenda.
Uma recaída aqui é fácil demais. É obvia, até. E eu sei que você vai me procurar quando estiver à toa numa noite de sábado. É melhor fechar todas as portas e barrar todas as possibilidades, portanto.
Então estou indo. Vou sentir sua falta de uma forma extremamente positiva, e até nostálgica. Sei que vai ter algum momento entre a meia-noite e as duas da manhã em que eu vou olhar o telefone esperando algum contato, mas no segundo seguinte vou me lembrar que ele não vai acontecer, e pego um livro qualquer para ler. Vai ficar tudo bem.
Estou indo de vez
Eu só preciso encontrar meu soutien. Ele foi muito caro e seria uma ótima desculpa para voltar.

novembro 02, 2013

Triz

A crônica é uma velha conhecida, já postada aqui antes, mas tão relevante e tão atual, que precisei expô-la de novo.


Crônica:

Triz
(Tati Bernardi)

Eu quase consegui abraçar alguém semana passada. Por um milésimo de segundo eu fechei os olhos e senti meu peito esvaziado de você. Foi realmente quase. Acho que estou andando pra frente.

Ontem ri tanto no jantar, tanto que quase fui feliz de novo. Ouvi uma história muito engraçada sobre uma diretora de criação maluca que fez os funcionários irem trabalhar de pijama. Mas aí lembrei, no meio da minha gargalhada, como eu queria contar essa história para você. E fiquei triste de novo.

Hoje uma pessoa disse que está apaixonada por mim. Quem diria? Alguém gosta de mim. E o mais louco de tudo nem é isso. O mais louco de tudo é que eu também acho que gosto dele. Quase consigo me animar com essa história, mas me animar ou gostar de alguém me lembra você. E fico triste novamente.

Eu achei que quando passasse o tempo, eu achei que quando eu finalmente te visse tão livre, tão forte e tão indiferente, eu achei que quando eu sentisse o fim, eu achei que passaria. Não passa nunca, mas quase passa todos os dias.

Chorar deixou de ser uma necessidade e virou apenas uma iminência. Sofrer deixou de ser algo maior do que eu e passou a ser um pontinho ali, no mesmo lugar, incomodando a cada segundo, me lembrando o tempo todo que aquele pontinho é um resto, um quase não pontinho.

Você, que já foi tudo e mais um pouco, é agora um quase. Um quase que não me deixa ser inteira em nada, plena em nada, tranqüila em nada, feliz em nada.

Todos os dias eu quase te ligo, eu quase consigo ser leve e te dizer: "Ei, não quer conhecer minha casa nova?" Eu quase consigo te tratar como nada. Mas aí quase desisto de tudo, quase ignoro tudo, quase consigo, sem nenhuma ansiedade, terminar o dia tendo a certeza de que é só mais um dia com um restinho de quase e que um restinho de quase, uma hora, se Deus quiser, vira nada. Mas não vira nada nunca.

Eu quase consegui te amar exatamente como você era, quase. E é justamente por eu nunca ter sido inteira pra você que meu fim de amor também não consegue ser inteiro.

Eu quase não te amo mais, eu quase não te odeio, eu quase não odeio aquela foto com aquelas garotas, eu quase não morro com a sua presença, eu quase não escrevo esse texto.

O problema é que todo o resto de mim que sobra, tirando o que quase sou, não sei quem é.

fevereiro 06, 2013

Vai abrindo

Resvalo em meio sorriso por entre os olhos da multidão.
Abram alas para mim, que hoje é dia de desfilar os meus melindres!
Vou ouvindo comentários lisonjeiros e deixando que se cheguem aos meus ouvidos. Estou bem, como se vê.
Lancem seus valores no mercado, que eu vou corando as maçãs e largando meu perfume pelo ar.
Sou grata pelo afagos no rosto. Hoje não há ninguém que não os liros e eu - e os enaltecimentos, assovios, os desejos.
Já me bastam, mas só por hoje, tudo isso. O céu ganhou novas cores.
Fiquei grande e não caibo em mim.
Estou assim, como quem pode. Me indo e me vindo de todos os cantos, toda indiscreta.
Dá licença para eu passar aqui com meu encanto, porque hoje eu estou bela.



Crônica:

Para continuar expandindo os conhecimentos literários alternativos. É longa, aviso logo.
O último shot
(Cléo Araújo)

Fazia duas semanas ela tinha um namorado novo.
Amor de pub, amor descoberto ao som de “Secret Smile” de Semisonic. Amor lindo, amor perfeito, amor de remember do final dos anos 1990.
Simplesmente qualquer coisa de tudo.

Apaixonada, descabelada e magra, como sempre quando acometida por aquela dieta de paixão, ela foi viajar. Era uma viagem marcada há tempos, antes de qualquer Secret Smile, Semisonic ou novo namorado existirem. Quase quis não ir, mas foi. Milhas aéreas. Questão de honra. Foi querendo voltar. E voltou, depois de dezoito dias contados pelo México, quando chegou a cumprimentar os passantes em Playa Del Carmen como se vizinhos fossem, preta de sol, morrendo de saudade, cheia de ideias e de pimenta.

Com a memória ainda fresca das misturas inusitadas em Tacos e Burritos, nada poderia ser mais adequado para receber os amigos e o hombre do que um animado e apimentado jantar mexicano.
E foi assim que foi.

Visitas a três supermercados para garantir os melhores ingredientes na manufatura dos pratos.
Tudo comprado e sem assistentes, ela se internou na cozinha.

Primeiro, o guacamole. O abacate estava maduro e fácil de amassar. Coentro, azeite, sal, limão. Pronto. Verde. Depois, a salsa. Pica daqui, pica dali e mais um molhinho aperitivo suculento e ardido estava pronto. O sour cream adaptado: cream cheese com gotinhas de limão. Voillá. Alface picada, cheddar desfiado. Check.

A pobre não tinha sequer começado a se arrumar quando já eram quase cinco da tarde. E ainda faltava ele: o chilly com carne.

Pica mais cebola, pica mais tomate, maceta mais alho. Os dedos não estão cheirosos, não.

Cozinha o feijão na pressão.  A cozinha, agora, é uma bagunça aterrorizante.

Refogas, pimentões, cominho, muito cominho. Nessas alturas, sua casa era quase um pedaço do México. Até o armário de roupas cheirava a comida mexicana. Greenleaf Vanilla respingado em almofadas de sachê para deixar tudo doce, tudo como ela queria ser, sempre.
A massa do taco, então, única coisa já comprada pronta, estava na assadeira, só esperando para ser esquentada, pouco antes de ser servida.
As quesadillas estavam montadas. Sim, havia quesadillas. Elas entrariam no forno quando o taco saísse.

Opa, faltava a margherita.
Tequila, limão, Countreau, Arno. Arriba, arriba, ai ai ai!

A mesa estava arrumada, perfeita. Tão, tão linda.

Deu tempo para um banho e um hidratante. Batom, deu. Rímel, não.

Os convidados chegam.
Ele chega.
Eles entram.
Ele entra.
O amor.
Lindo.
Tudo.

Todos se acomodam ao redor de sua mesa de hotel de Cancun.

O namorado se impressiona e ela ama.

Todos começam a saborear suas tortillas com guacamole, ah, o sour cream. E essa salsa? O que tem aqui? O namorado morde o tira-gosto e olha feliz, olha para ela, olha apaixonado. “Seu amor por uma tortilla”.

Ela corre para cozinha, mal participa das animadas conversas à mesa, desculpem, tenho um chilly para assistir. Todos comem e degustam a tequila ao som de Maná, antes de os pratos principais serem servidos. “Sigue llovendo, sigue llovendo al corazón...”.

Os convidados e o namorado insistem para que ela se sente um pouco. Venha, fique aqui com a gente. Não dá. Tá borbulhando. Finalmente, ela concorda. Acomoda-se à cabeceira. Antes de experimentar o guacamole, ou de comer um Doritos, ou de provar a salsa, ou de comer um amendoim, que fosse, ela resolve tomar um shotzinho de tequila.

Um só.
Um shotzinho que era, às nove da noite, o seu café da manhã.

Jose Cuervo, primeiro, pinicou os seus lábios.
Foi escorregando língua, amídalas, esôfago abaixo. Chegou à base da garganta feito um escorpião, deixando um rastro de fogo e anestesia em toda a região. A labareda tormentosa desceu violenta feito Un amor perro de Iñarritu e caiu dentro do seu estômago mais pesada e devastadoramente do que um revolucionário zapatista.

As pessoas à mesa se afastaram como que se passassem para uma dimensão paralela. O espaço-tempo se distorceu. Ela estava a léguas de distância de tudo e de todos em seu delírio tequílico.

Tudo, tudo girou.

Trôpega, magra e semi-sã ela se levantou e correu para a penumbra do seu quarto. Caiu na cama.

Ali, se murió.

Felizmente, estava tudo pronto e tudo quente, como a namorada recente e perfeita deveria fazer, mesmo que pesando 45 quilos.


Mãos amigas (do namorado? - era impossível dizer) visitaram-na semimorta em seu quarto. Checaram sua respiração. Ela respirava. Mas não conseguia falar.
De tempos em tempos, alguém ia zelar por sua sobrevivência. De lá, da cama, ela podia ouvir as conversas animadas e a aprovação de seus pratos. Uma delícia o chilly, muito boas as quesadillas, genial esse guacamole. Mas ela teve só que dormir. Não havia mais nada que pudesse fazer.

Depois desse dia, tudo mudou. Ela nunca mais tomou tequila. Nunca mais fez margherittas. Sempre come pelo menos uma castanha de caju antes de beber qualquer tipo de álcool.

Ainda hoje, prepara jantares mexicanos.

O namoro acabou. 


Não pela noite quase perfeita, mas por aquelas imperfeições misteriosas que não se corrigem nem acrescentando todo o sal, todo o coentro ou todo o cominho que há no México.

setembro 20, 2012

Atualização

Porque eu preciso atualizar, e os meus textos andam uma boa porcaria e metade desta crônica descreve minha mente perdida todo fim de semana. A outra metade é só perfeita.



Crônica:

(Paula Pimenta)

Odeio cantadas. Flores não me seduzem. Chocolates então, nem pensar. O que me comove são palavras.
No caminho de casa, passo por uma pista de cooper onde têm barras e aparelhos de ginástica. Em qualquer hora do dia ou da noite, rapazes de se fazer inveja aos galãs globais puxam ferros, correm mais do que para tirar a mãe da forca, levantam pesos, malham até o dedão do pé. Ao lado deles, garotas soltam suspiros para cada flexão de braço, lançam exclamações para cada bíceps trabalhado, fazem votação para definir qual peitoral é o mais sarado. Deixo tudo para elas. Tais rapazes não merecem um segundo olhar meu. Para mim, músculo em excesso é inversamente proporcional à inteligência.
Fim de semana. Depois de muita insistência, aceito o convite das minhas amigas para ir dançar, mesmo sabendo que me arrependerei. Lugar dos infernos. Quente, barulhento, enfumaçado. E ainda por cima tenho que escutar aquela mesma frase: “E aí, gata, vem sempre por aqui?”. Fico na dúvida entre vomitar, sair correndo ou fingir que sou surda. Outra situação: O moço é lindo. Toca violão. Minha família gosta dele. Já estou quase convencida de que é minha alma-gêmea. E então ele me manda um cartão: “Não me canço de te olhar”. É, querido, vai ter que olhar para o outro lado. Cansada estou eu de quem não sabe escrever nem em português.
Mas por que eu sou tão viciada em palavras? Por ter crescido lendo enquanto minhas amigas brincavam de pique-esconde? Por minha primeira paixão ter sido o Cebolinha, nos gibis da Turma da Mônica? Por amar poesia desde que nasci? Não sei. O fato é que me desperta curiosidade quem sabe escrever o que pensa. Garotos que escrevem bem têm um charme diferente. Suas palavras me acariciam de tal forma, que se tornam vitais para minha sobrevivência. Se eles têm tanto cuidado com a escrita, imagine o carinho que teriam comigo… Ah, os homens que sabem escrever! Alguns conseguem ser tão sinestésicos, que chego a perceber a voz deles por entre as linhas.
Os que mais me impressionam são os que adivinham meu pensamento, mesmo sem me conhecer. É indescritível a sensação de ler um texto e me identificar totalmente com as palavras do escritor. É como se ele tivesse roubado a ideia que eu ainda não havia tido, mas que já existia em mim. Emocionante perceber, na medida em que meus olhos vão descendo por sobre o texto, que existe alguém que pensa exatamente como eu. Infelizmente, a recíproca não é verdadeira. O sexo masculino, no geral, ainda se sensibiliza mais com um corpo esculpido do que com a forma que as escritoras dão às suas frases.
No dia em que eu encontrar um que se importe mais com o que eu escrevo do que com a minha embalagem, eu me caso. Desde que a proposta seja feita por escrito. E que por trás daquelas palavras, existam óculos em vez de músculos.

novembro 07, 2011

Liberdade finalmente


Te libertei de me amar. E mais que isso, te libertei da possibilidade de perceberem quando você me amasse, caso isso fosse acontecer.
Te libertei de me querer mais do que a outra pessoa e de me deixar fazer parte da sua vida. Te libertei de ser só meu e de desejar que eu fosse só sua.
Te libertei de me apresentar aos seus amigos ou de permitir que eles me vissem.
Te libertei de me introduzir à sua família, de casar comigo. Te deixei livre de qualquer plano que pudesse vir à sua cabeça.
Você finalmente se livrou dos meus anseios, do meu riso, da minha verdade e da minha vontade de qualquer coisa.
Te libertei dos olhares repressores (?) dos outros. Se livrou da honestidade.

Vá, voe! Está livre de saber que eu existo e de ter de me descrever seus passos.
Está livre para dizer que é livre. Para inflar o peito de orgulho e ter certeza de que não há ninguém querendo estar ao seu lado agora.

Te livrei do constrangimento de estar comigo.
Agora sorria!



Crônica:

O frango ao gengibre do homem quase perfeito
(Cléo Araújo)

Eu gosto de fechar os olhos e pensar em você grelhando um filé de frango.
Sabe aquele frango, que você fazia com gengibre? Leve toque de mostarda? Delicioso, picante, nem se via que era frango? Pois é, gosto de fechar os olhos e pensar em você passando ele na chapa, dourando um lado de cada vez, fazendo aquele fumacê sensual na cozinha. É uma visão meiga, me enche de paz e me faz salivar, no melhor e menos metafórico dos sentidos.
Acho que percebi que você seria uma coisa estupidamente inesquecível num dia como esses em que se grelham peitos de frango às três da manhã. Lembra? Uma vez foi assim, refeição feliz na madrugada. Você estava sempre com um sorriso no rosto, mesmo com sono. Estava sempre disposto a preparar uma comidinha para alguém mesmo que a matéria prima estivesse congelada. Naquela época, o alguém era eu.
Você me fez ser dessas que gostam de homens que preparam coisas. Que amassam frutas para fazer caipirinhas, parafusam buchas para colocar o pendurador de toalha, instalam fios de extensão para o DVD e assam pães de canela, tudo com o mesmo appeal.
Hoje fechei os olhos e pensei em você cozinhando com aquela camiseta que eu achava curta e que você amava. Você, de camiseta curta fazendo um franguinho, e eu, disfarçando a vontade de assumir o controle do fogão e sumir com aquele trapo velho que você vestia. Fico feliz de nunca ter feito isso. Imagine, não lembrar disso, que dó?
Teve aquele tempo em que a gente ainda não se conhecia. Tempo besta, o mundo era só um lugar abandonado e sem frangos. Ninguém nunca tinha grelhado nada no meio da madrugada para mim. Ainda não havia essas memórias, eu só me lembrava de coisas pouco importantes, como miojo e sucrilhos.
Mas um dia, então, você resolveu que adorava o cheiro de baunilha da minha casa e os meus guardanapos desenhados. E você achava que aquele carinho que eu fazia na sua testa, perto das têmporas, era a sobremesa perfeita. Isso, somado à visão de você preparando a caipirinha, grelhando um frango e me ajudando com as buchas e parafusos de casa, foram as coisas que me fizeram crer que talvez nada mais significativo viesse, um dia, a perfumar de gengibre as minhas memórias. Você sabe... Nada como memórias que cheiram a gengibre...
Agora, por exemplo, são onze da noite. Você deve estar preparando alguma coisinha para alguém.
Penso na sua risada doce e vem de novo aquela certeza de que talvez você fosse o homem quase perfeito.
Não fosse aquela camiseta curta e horrorosa, talvez você fosse.
No melhor e menos metafórico dos sentidos.

agosto 23, 2011

Das pernas tortas


Dançamos alegrias fazendo de conta que a música ainda toca. Rodopiamos sem sair do lugar e quase desequilibramos e quase perdemos o eixo num rítmo arisco que gosta de fingir que é equilíbrio e gosta de fingir que é paz.
Com medo arredio a gente segue a nossa coreografia, dançando na ponta dos pés que é para não acordar o sossego. Sentindo de olhos fechados o som que não se pode ouvir, dançamos uma dança torta com as pernas bambas.

(Texto que já não é coerente com a ausência total de música e gestos que tomou conta da minha vida. Mas já estava escrito, então publiquei)



Crônica:

Tempo de Saudade
(Debora Bottcher)

Então ela sentiu saudades. Do tempo em que sua maior preocupação era chegar a tempo da escola para ver Jeanny é um Gênio e Penélope Charmosa. De quando suas lágrimas eram só porque a mãe a mandava tomar banho quando ela ainda queria brincar.

Também sentiu saudades do pai: de quando andava com ele de mãos dadas pela feira, atrapalhando na escolha das frutas; de quando ele a jogava na piscina de adultos para ensiná-la a nadar, esperando, ansioso e atento, que ela emergisse sã e salva do fundo; de quando a mãe foi embora - porque as relações podem ficar muito complicadas mesmo que uma criança não seja capaz de entender - e ele cuidou dela e dos irmãos como nenhum outro pai faria.


Sentiu saudades de quando dormia em seus braços deitada no tapete da sala vendo TV e ele a levava para a cama - seu beijo delicado depois de cobrí-la; de quando ele não chegou a tempo para a sua formatura.


Teve saudades também de quando ele caminhou ao seu lado, relutante, rumo ao altar a fim de entregá-la à união com um homem que não lhe parecia a melhor opção; e especialmente de quando ele foi buscá-la de volta, não muito tempo depois, sem fazer nenhuma pergunta.


Ela sentiu saudades de quando se vestia de odalisca, bruxa e fada para brincar o carnaval.


De quando, nas manhãs de sábado, chamava os irmãos e invadiam o quarto dos pais jogando-se na cama para acordá-los: riso e alegria; e de quando eles se enfiavam todos, os cinco, debaixo do cobertor, juntos e seguros, o mundo inteiro cabendo naquelas quatro paredes.


Também teve saudades de quando aprendeu a ler e escrevia seus primeiros poemas num caderninho colorido que escondia nas gavetas, debaixo das roupas. Depois vieram os diários, a coleção de papéis de carta, o vício de rabiscar até em guardanapos pra não perder o fio de uma idéia.


Sentiu saudades dos disquinhos coloridos que cantavam músicas divertidas nas histórias de sapos, príncipes e princesas - tudo muito encantado. Teve saudades de seus livros de contos de fadas, que um dia foram queimados num incêndio que ninguém jamais soube como começou.


Sentiu saudades da primeira vez que foi sozinha ao cinema com os irmãos mais novos, responsável e orgulhosa.


De quando sentava-se no pátio do colégio, sob as árvores, sozinha, porque um pouco de solidão já se fazia necessário.


Teve saudades da avó, que na imensa cozinha da 'casa grande' da fazenda, remexia-se de um lado pra outro sobre o fogão à lenha e a mesa gigante de madeira, iniciando-a no seu dom para a culinária. A feijoada em família, o churrasco de domingo.


Sentiu saudades da faculdade, dos amigos perdidos, dos amores que não deram certo, das pessoas que a amaram e ela não pôde corresponder. Dos sonhos que abandonou porque, muitas vezes, a realidade com suas obrigações e prioridades é mais urgente e não há tempo a perder.


Teve saudades do primeiro apartamento em que morou sozinha depois do casamento desfeito e do pai chegando todas as manhãs com pão quentinho para o café - que ele preparava, a mesa bonita, enquanto ela tomava banho e se arrumava para trabalhar. Dele lhe beijando a testa na porta do carro e desejando
Bom dia! com seus olhos muito verdes e o sorriso sempre aberto.

Sentiu saudades de quando o acompanhava ao supermercado e esse era 'o' programa das tardes de sábado. Teve saudades também de quando ele ficou muito doente e cansado, e ela pensou que isso podia durar para sempre, contanto que pudesse mantê-lo vivo.


Ela sentiu saudades de quando dor era apenas sinônimo de tropeçar, cortar o dedo, desembaraçar os cabelos. De quando conseguia dormir sem pesadelos ao seu encalço.


Teve saudades de muita coisa - até do que nem se lembrava mais. E viu que um tanto disso pertencia a uma época em que ela ansiava por crescer.


Agora, descobriu que desejava mesmo nunca ter passado de um metro de altura...

março 23, 2011

Suor

Estou só desejo e fome de pele. Fico presa entre te invadir boca adentro ou engolir o próprio suor. E num esforço de racionalidade, guardo tudo em mim.
Me desmancho aos poucos de vontade. Agonizo e diluo nessa chuva que me despe, me atiça e em vão tenta resfriar meu corpo. - Está quente demais! A verdade é que tanto me esconder só faz inflar meus pulmões e me tornar pó, que se espalha e explora o mundo ao meu redor.
As gotas tocam minhas temporas, meu ombro, meu colo. Acariciam o meu corpo e sinto um suspiro ser lançado do meu útero e atingir o ar, muito perto das suas narinas. Me faz toda vertigem e medo.
Você quase notou.
O relógio é a fuga para esconder meus lábios já molhados. E agora vejo que se passou apenas um segundo nos seus olhos.



Crônica:

Doce vida
(Nelson Botter Jr)

O encontro estava marcado para as 15 horas, horário do recreio.
Ela de fitinha rosa nas madeixas loiras, camisa branca de botão e saia azul do uniforme escolar, lancheira do New Kids On The Block e Melissinha.
Ele com seu cabelo ruivo escorrido e penteado para o lado, óculos de aro redondo, uniforme limpinho, sardas e uma sacolinha na mão.
Quando o viu se aproximando, ficou ansiosa. Ele, por sua vez, tinha as pernas trêmulas.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto da garota, enquanto ele mal a olhava nos olhos.
Aproximou-se, cumprimentando-a timidamente com uma das mãos levantadas.
Ela estava linda. Uma bonequinha, um verdadeiro sonho com aquelas bochechas rosadas e um sorriso encantador.
- Achei que você não ia vir.
- Por quê? Que bobo...
- Ah, sei lá.
Ela ficou tímida e ele mais ainda.
- Trouxe isso pra você – ele falou, tirando de dentro da sacolinha um lanche Mirabel.
- É de chocolate? – seus olhos brilharam.
- Não... – ele titubeou – é de morango... tem problema?
Ela pensou um pouco.
- Claro que não, eu gosto de chocolate e também gosto de morango.
Ele sentiu-se aliviado e parecia caminhar nas nuvens quando a viu pegando o pacote de biscoito para guardar na lancheira.
- Obrigada.
- Se você quiser, posso te trazer um Mirabel de chocolate amanhã...
- Jura?
- Sim, juro.
- Eu quero!
- Tá bom, eu trago.
Silêncio. Constrangimento no ar pela falta de assunto.
Ele pensou, pensou e, então, encheu-se de coragem.
- Posso te dar um beijo?
Ela corou. Ficou em silêncio. Então sorriu de leve, charmosinha.
- Por que você quer me beijar?
 Ele não sabia o que dizer. Não sabia como falar que aquele beijo era um gesto de carinho, que a achava uma menina muito legal, doce, meiga... Simplesmente não sabia como dizer isso. E não disse.
- O Alexandre falou que beijou seu rosto na semana passada, então eu também queria um beijo seu...
O semblante dela se transformou. De anjinha a diaba em segundos. Com o olhar, fuzilou o garoto, que não sabia o que fazer pra reparar a bobagem.
Ainda tentou falar algo, mas as palavras não lhe vieram.
O que veio foi um tapa. No rosto. Fraco, mas forte o suficiente para disparar seu coração de garoto inocente.
Ele a viu sair em passos largos e furiosos.
Lá se foi sua menina, seu beijo e seu Mirabel.
Ao ajeitar seus óculos, começou a descobrir o quanto as mulheres são misteriosas e absurdamente tentadoras.
E tinha certeza, sabe-se lá como, mas tinha, que amanhã ela estaria ali, novamente, esperando pelo Mirabel de chocolate.

novembro 25, 2010

Bateu aquela fome?


E quem disse que não é o caos que move nossas vidas?
Não, não é sobre a velha teoria do bater de asas da borboleta, nem a regra da química que diz o sistema tente ao caos e por ele próprio se estabelece a ordem.
Não. Aqui é só aquele caos diário e mínimo, que dá o ar da graça sempre que o tédio e o marasmo se instalam.
Oras, só hipertensos comem comida sem sal.

Nós queremos é molho picante!



Crônica da Semana (vou acabar mudando para "mês" ¬¬')

O Gato Sou Eu
(Fernando Sabino)

- Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.
- Continuou dormindo.
- Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.
- Que espécie de gato?
- Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.
- A que você associa essa imagem?
- Não era uma imagem: era um gato.
- Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?
- Associo a um gato.
- Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.
- Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.
- Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.
- Uma projeção do senhor?
- Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.
- Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.
- Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.
- Em quem o senhor está falando?
- Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.
- Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.
- Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.
- Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?
- Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.
- Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?
- Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.
- E eu insisto em dizer: não é.
- Sou.
- Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.
- Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…
- Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?
- É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.
- Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.
- Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.
- Já disse que o gato sou eu!
- Sou eu!
- Ponha-se para fora do meu gato!
- Ponha-se para fora daqui!
- Sou eu!
- Eu!
- Eu! Eu!
- Eu! Eu! Eu!

outubro 24, 2010

Adoro apelações baratas


Pontos finais podem, sim, substituir vírgulas, porém vírgulas não podem substituir pontos finais. A capital do Brasil não é Buenos Aires, mas já foi o Rio de Janeiro.Nem todos os nascidos no Rio e Janeiro são cariocas. Gordura não é sinônimo de bem alimentado.
Só para deixar bem explicado.

Eu não procuro pelos vivos, pois magicamente corpos caem à minha frente. Não escolhi, mas sempre acontece. Até quando não quero. E apesar dos iludidos serem mais felizes, não acho que fechar os olhos e fingir não enxergar o óbvio seja a melhor escolha - nem sequer é escolha: é covardia pura.

Apenas quem muito lê tem as palavras soltas e bem escolhidas, postas nos locais certos. A má escrita ou a escrita imatura é digna de quem ainda está preso à Heidi e ao Dicionário de Serafina - mas solicitando sempre ao Aurélio, só pra parecer poeta. Não funciona. E são os meus calos que me dão propriedade para o dizer.

Sonhos têm limites e o limite é: cresci. Isso não impede de se sonhar sonhos novos. Apenas serão sonhos alçados na realidade. Os sonhos puros ficarão para as madrugadas.

Mas de todos os seus medos, uma coisa é bem verdade: no meu corpo foram perdidas palavras e suspiros, e com ele dado muitos ensinamentos. Verdade incontestável.
Eu deixei o vento secar as palavras aqui pousadas, e de poucas ainda me recordo: o passado esqueci escrito em algum lugar e andei para frente. Muito à frente do que me encontrava. Pirraças caprichosas jamais irão me ofender e mudar alguma coisa, sobretudo, porque não condizem com nosso novo contexto econômico. Pirraças caprichosas e imaturas... Mas rendem risadas.

Está tudo fora do contexto e situação. A vida andou e quem estagnou não fui eu. Só que você não enchergará nada disso enquanto não se curar dessa sua paixão platônica por mim. Ms.



Crônica da Semana:

O perigo do Asterisco
(Bibi da Piève)

Chego à loja da operadora de celular e peço ajuda para mudar o meu plano. A moça pergunta se, por acaso, eu teria comigo duas cópias das duas últimas faturas da minha conta telefônica. Que azar, não tenho.

- Posso estar tentando digitar os dados aqui no computador, e solicitando uma segunda via...

Três tentativas - sempre no gerúndio -, e nada. Os dados não estão conferindo. Sim, eu tenho certeza, meu número é este. Meu CPF é este. Meu nome completo, com "b" de bola. Meu endereço. Meu telefone residencial. Tudo certinho.

- Sinto muito, senhora, mas os dados não conferem.

Chega uma hora na nossa vida em que, fatalmente, alguma coisa não confere. Pode ser uma simples etiqueta de calça jeans.

- Tem certeza que é 44? Mas ficou tão justinha...

Pode ser o contracheque. Pode ser o sapato azul-marinho do seu marido. Pior: o próprio marido - que, no particípio, era tão amado, mas, no dia-a-dia, faltou foi gerúndio. Se é que você está me compreendendo.

De repente, somos um amontoado de números que não se entendem entre si. Ou seja, o problema dos dados é que eles quase nunca se dão. São as ironias do mundo informatizado - para as quais sempre se tem uma solução imediata, ainda que ela seja a senha para outra janela de problemas insolúveis (ao menos, por alguém com mais de 14 anos).

- A senhora pode estar ligando para o asterisco-número-tal, e solicitando a segunda via de sua conta telefônica.

- Querida, muito agradecida. Fui.

Viro as costas e vou-me embora. Quando começam com esse papo de asterisco, pode crer que é mais aborrecimento. O asterisco é o maior 171 da paróquia. Só não vê quem não quer.

Na publicidade, ele reina absoluto. Páginas inteiras com anúncios em letras garrafais seduzem até não mais poder. Lá no fundo, escondidinho, um malicioso asterisco introduz o parágrafo esclarecedor: não era bem assim. Era só para os primeiros 20 que ligassem. Cujos nomes começassem com a letra K. Cujas mães tivessem carros cujos últimos dois algarismos das placas, subtraindo-se as datas de nascimento dos... (ad infinitum).

A zona do asterisco, portanto, sempre é a mais perigosa. Um pouco por ser a parte ruim, a perna que manca. Um pouco por requerer leitura contorcionista.

E se as pessoas da nossa vida viessem com asterisco?

Homem bonito, charmoso, sensual, 30 e poucos anos, sorrindo para você no trânsito. Asterisco: casadérrimo, pai de Camila e Leonardo.

Moça de parar o trânsito, alta, morena, sexy, cabelão pela cintura, voz rouca, dando a maior bola para você na saída da boate. Asterisco: não aceita cheque.

Esposa dedicada, divertida, companheira, nunca quer discutir a relação, jamais reclama do seu futebol às quartas-feiras, e até incentiva o chopinho com o pessoal do escritório às sextas. Asterisco: vem cá, você não tem dado falta do Geraldo nesse chopinho, não?

Tem gente que se nega a enxergar o asterisco dos outros. E há quem faça de tudo para esconder o próprio. Às vezes, durante toda uma vida.

Quem nunca ouviu um caso de velório onde, de uma hora para outra, aparece uma viúva não oficial carregando três ou quatro herdeiros-surpresa? Asterisco póstumo. Muito em voga.

Isso para não falar nos asteriscos de Brasília, que só aparecem carregando os herdeiros pela mão depois que você já apertou o verde para confirmar.

Aí ficamos nós assistindo àquele show de asteriscos, espetando-se uns aos outros, tudo para concluir a sentença máxima de quem empresta mas não contabiliza, fuma mas não traga, transa mas não goza: os dados não conferem.

julho 25, 2010

Sem Titulo


Queria que as letras escapassem pelos meus lábios da mesma forma com a qual escapavam antigamente. Era fácil e solto, em palavras que rapidamente se tornavam em poesia e que subtamente me emocionavam com situações que eu conhecia de cor. O resultado massageava meu ego, e fazia da palavra escrita uma sina e um vício. E minha labuta.
Não é a falta de aflição, ou dor de qualquer forma. As dores sempre existirão, e irão comigo ao túmulo, eu creio - e de fato, desejo, pois elas temperam minha existência. O problema é o cansaço. Não há mais forças, metáforas ou palavras em mim. É como se a espora batesse e eu não tivesse voz para gritar.
Emudei-me.
Mas não queria. Quero de volta as palavras que aliviavam as angústias e faziam sorrir àqueles que a apreciavam, e a mim, ao ver este efeito.
Ter suavidade nas letras me era tão bom quanto ter na boca mel.



Crônica da Semana:
Porque agora - e como sempre - há certas - e muitas - coisinhas pequenas que me deixam imensamente feliz


Água na boca
(Cléo Araújo)

Refeição de parque temático que se preze deve ter cachorro quente e Coca Cola. De preferência uma de quinhentos mililitros. Nada se compara, no universo dos hot dogs, sandubas de carrinho e hambúrgueres de origem suspeita a uma salsicha de cachorro quente produzida nas dependências de um parque temático. O pão é deliciosamente meio murcho, mas aquele meio do murcho que é a fração perfeita para dar ao conjunto o sabor de cachorro quente de parque, que é exatamente o que se quer quando se procura comida, oras, em um parque. A Coca Cola de máquina tem aquele tanto de gás a menos na medida exata para não ficar choco. São aquelas bolhas faltantes que fazem dele um refrigerante de máquina de parque temático. Único. Dá pra sentir o gosto do gelo. A dupla se completa com umas gotas de mostarda e catchup e um prato de plástico mole, sobre uma mesa de plástico de limpeza duvidosa e uma folha de guardanapo, fina, única, usada com parcimônia para durar até o último gole e a última mordida.

Aí tem o lance da pipoca. A de saquinho, comprada do tio do carrinho, seja na saída da missa, do estádio ou do colégio, é algo que contém um dos sabores mais singulares que conheço. A reação causada entre óleo sem rótulo, lâmpada de 100 watts, milho comprado a granel e papel acinzentado garante um tipo de resultado que pipoca de microondas nenhuma consegue copiar. Que manteiga que nada! A coisa é boa em seu estado puro, cada pipoca contando a história de um amassado da panela de alumínio do tio. Fora o sereno da garagem, onde ele deixa o seu carrinho estacionado durante a noite, ah, deve ter lá o seu papel. Até os piruás são especiais, têm aquele fundo de queimado que explode na boca, deixando uma pitada de sal na ponta da língua.

E bife no almoço de domingo? Se eu fechar os olhos, quase dá para sentir o aroma da frigideira de ferro que só um belo espécime de avó sabe onde encontrar. A mistura é simples: o bife, o sal, a avó, e mais nada. Há um ritual de preparo, é claro, que certamente esconde segredos invisíveis a olho nu. Se você tiver a chance de ver uma avó fritando um bife, pare, segure o queixo e repare: a malemolência com que ela vira o bichinho na frigideira; a idade, envergadura e número de dentes do garfo de virar; o número de viradas... E a manteiga espalhada no fundo da frigideira? Qual sua marca, quanto tempo ficou fora da geladeira? Em que mercadinho foi comprada? Aí, deite os olhos sobre o jeito de espalhar o sal sobre o bife. Dos dois lados, de um lado só? Tudo é variável determinante para o desfecho dessa história. E lá vem ele, ainda crepitante, mesmo fora do fogo, com toda sua suculência, se deitar no meu prato, para sermos felizes para sempre.

De sobremesa, eu fico com o bolo coberto com chantili feito em casa, da mesma altura, diâmetro, peso e dulçor do que a Neuza fez hoje, para comemorar meu aniversário. Eu ainda não o comi, mas nem precisa, porque eu já sei.  O geladinho da nuvem branca do chantili vai chegar primeiro ao céu da boca, dando aquela amanteigada geral. Aí, o pão de ló, levinho, levinho, aerado, fofo. É só com a terceira mastigada que eu vou perceber o leite condensado que foi levemente cozido, só para ganhar uma cor de caramelo a lá doce de leite argentino. E nossa? Calma... Hum, que delícia... O que é isso aqui no meio? Ah, são crocantes inesperados, mini pedaços de castanha do Pará, delicadamente moídas e salpicadas antes que o bolo fosse fechado, encapsulado e coberto. Um gole de um espumante brut, rose, só para dar cor ao copo, vai tilintar na boca, fazendo cócegas ao reagir com o doce, fechando um momento quase poético, definitivamente saboroso.

É água na boca, parabéns para você e nada mais.

fevereiro 24, 2010

Dia Mudo

My Diary:

Onde foi exatamente que larguei o leão que sempre cavalguei?



Crônica da semana:

Um domingo, duas gastinhas - Fábula do amor e seu duplo.
(Xico Sá)

minhas duas gatinhas voltaram no mesmo dia;

a que não era gente ficou, juízo não tinha.

As duas, porém, me fizeram felizes do mesmo jeito;

cada uma me fez bater de um lado do peito.

Uma me deixou nervoso; a outra me fez mais calmo.

Quando a primeira saiu, não enxerguei a outra a um palmo.

Precavido, porém, tranquei uma delas em casa;

perder tem limite, corto-lhe as asas.

Mas a história foi bem bonita: quando descobri uma das meninas, amor à primeira vista, ela me trouxe a felina, que no futuro ajudaria a diminuir a sua própria falta.

novembro 17, 2009

Labuta

My Diary:

À mim já não basta só ser sua, preciso que seja necessariamente meu. Obviamente e unicamente meu. E que me dê o posto de sua alegria maior.
Quero ser sua cachaça, que vai curar as lamúrias de um dia demasiado longo. E que a culpa do dia longo seja a minha ausência.
Que não me ver seja um sacrilégio. E me agradar que seja eternamente pouco.
E espero taquecardia quando me olhar e por mim, poderia até quase morrer. Mas só quase.
Quero ser seu veneno e sua cura ao mesmo tempo. O suor salgado.
Que você me deseje mais do que já desejou alguém. Que me ame mais do que a si próprio e que tenha sede da minha pele.
Quero que me beba
que me trague
que me coma.
Ser amada não me sacia, eu quero é ser o seu vicio, a sua maldição, sua perdição e a melhor parte de você.
O meu nome tem de estar escapando pelos seus lábios e que pensar em um pecado contra mim, te leve ao suícidio.
Quero ser indispensável, pelo menos pra você.
Ou só pra você.
Quero embolar suas palavras, escapar pelos seus dedos, e gerar virgulas e pontos finais nas suas mãos.
Única.
Que prefira morrer a ver-me em outras bocas.
E não adianta o todo tempo que estiver contigo, pois quero que ele seja sempre insuficiente.
E que doa tanto a insuficiência, que você nunca esteja saciado de mim.



Crônica da Semana:

Um dia de Merda
(Luis Fernando Veríssimo)

Aeroporto Santos Dumont, 15:30.


Senti um pequeno mal-estar causado por uma cólica intestinal, mas nada que uma urinada ou uma barrigada não aliviasse. Mas, atrasado para chegar ao ônibus que me levaria para o Galeão, de onde partiria o vôo para Miami, resolvi segurar as pontas. Afinal de contas são só uns 15 minutos de busão.
Chegando lá, tenho tempo de sobra para dar aquela mijadinha esperta, tranqüilo, o avião só sairía às 16:30'.

Entrando no ônibus, sem sanitários. Senti a primeira contração e tomei consciência de que minha gravidez fecal chegara ao nono mês e que faria um parto de cócoras assim que entrasse no banheiro do aeroporto.
Virei para o meu amigo que me acompanhava e, sutil falei:

'Cara, mal posso esperar para chegar na merda do aeroporto porque preciso largar um barro.'

Nesse momento, senti um urubu beliscando minha cueca, mas botei a força de vontade para trabalhar e segurei a onda...
O ônibus nem tinha começado a andar quando, para meu desespero, uma voz disse pelo alto falante:

'Senhoras e senhores, nossa viagem entre os dois aeroportos levará em torno de 1 hora, devido a obras na pista.'

Aí o urubu ficou maluco querendo sair a qualquer custo. Fiz um esforço hercúleo para segurar o trem merda que estava para chegar na estação anus a qualquer momento.
Suava em bicas. Meu amigo percebeu e, como bom amigo que era, aproveitou para tirar um sarro.
O alívio provisório veio em forma de bolhas estomacais, indicando que pelo menos por enquanto as coisas tinham se acomodado. Tentava me distrair vendo TV, mas só conseguia pensar em um banheiro, não com uma privada, mas com um vaso sanitário tão branco e tão limpo que alguém poderia botar seu almoço nele. E o papel higiênico então: branco e macio, com textura e perfume e, ops, senti um volume almofadado entre meu traseiro e o assento do ônibus e percebi, consternado, que havia cagado.
Um cocô sólido e comprido, daqueles que dão orgulho de pai ao seu autor. Daqueles que dá vontade de ligar pros amigos e parentes e convidá-los a apreciar na privada. Tão perfeita obra, dava pra expor em uma bienal.
Mas sem dúvida, a situação tava tensa. Olhei para o meu amigo, procurando um pouco de piedade e confessei sério:

'Cara, caguei!'

Quando meu amigo parou de rir, uns cinco minutos depois, aconselhou-me a relaxar, pois agora estava tudo sob controle.

'Que se dane, me limpo no aeroporto, pensei. Pior que isso não fico'.

Mal o ônibus entrou em movimento, a cólica recomeçou forte. Arregalei os olhos, segurei-me na cadeira, mas não pude evitar e, sem muita cerimônia ou anunciação, veio a segunda leva de merda.
Desta vez, como uma pasta morna. Foi merda para tudo que é lado, borrando, esquentando e melando a bunda, cueca, barra da camisa, pernas, panturrilha, calças, meias e pés.
E mais uma cólica anunciando mais merda, agora líqüida, das que queimam o fiofó do freguês ao sair rumo a liberdade.
E depois um peido tipo bufa, que eu nem tentei segurar. Afinal de contas, o que era um peidinho para quem já estava todo cagado...?
Já o peido seguinte, foi do tipo que pesa. E me caguei pela quarta vez.
Lembrei de um amigo que certa vez estava com tanta caganeira que resolveu botar modess na cueca, mas colocou as linhas adesivas viradas para cima e quando foi tirá-lo levou metade dos pêlos do rabo junto.
Mas era tarde demais para tal artifício absorvente. Tinha menstruado tanta merda que nem uma bomba de cisterna poderia me ajudar a limpar a sujeirada.
Finalmente cheguei ao aeroporto e saindo apressado com passos curtinhos, supliquei ao meu amigo que apanhasse minha mala no bagageiro do ônibus e a levasse ao sanitário do aeroporto para que eu pudesse trocar de roupas.
Corri ao banheiro e entrando de boxe em boxe, constatei falta de papel higiênico em todos os cinco.
Olhei para cima e blasfemei:

'Agora chega, né?'

Entrei no último, sem papel mesmo, e tirei a roupa toda para analisar minha situação (que concluí como sendo o fundo do poço) e esperar pela minha salvação, com roupas limpinhas e cheirosinhas e com ela uma lufada de dignidade no meu dia.
Meu amigo entrou no banheiro com pressa, tinha feito o 'check-in' e ia correndo tentar segurar o vôo.
Jogou por cima do boxe o cartão de embarque e uma maleta de mão e saiu antes de qualquer protesto de minha parte.

'Ele tinha despachado a mala com roupas'.

Na mala de mão só tinha um pulôver de gola 'V'. A temperatura em Miami era de aproximadamente 35 graus.
Desesperado comecei a analisar quais de minhas roupas seriam, de algum modo, aproveitáveis. Minha cueca, joguei no lixo. A camisa era história. As calças estavam deploráveis e, assim como minhas meias, mudaram de cor tingidas pela merda. Meus sapatos estavam nota 3, numa escala de 1a 10.
Teria que improvisar. A invenção é mãe da necessidade, então transformei uma simples privada em uma magnífica máquina de lavar.
Virei a calça do lado avesso, segurei-a pela barra, e mergulhei a parte atingida na água. Comecei a dar descarga até que o grosso da merda se desprendeu. Estava pronto para embarcar.
Saí do banheiro e atravessei o aeroporto em direção ao portão de embarque trajando sapatos sem meias, as calças do lado avesso e molhadas da cintura ao joelho (não exatamente limpas) e o pulôver gola 'V', sem camisa.
Mas caminhava com a dignidade de um lorde.
Embarquei no avião, onde todos os passageiros estavam esperando o 'RAPAZ QUE ESTAVA NO BANHEIRO' e atravessei todo o corredor até o meu assento, ao lado do meu amigo que sorria.
A aeromoça aproximou-se e perguntou se precisava de algo.
Eu cheguei a pensar em pedir 120 toalhinhas perfumadas para disfarçar o cheiro de fossa transbordante e uma gilete para cortar os pulsos, mas decidi não pedir:

'Nada, obrigado.'

Eu só queria esquecer este dia de merda. Um dia de merda...

Luis Fernando Veríssimo (verídico).

outubro 06, 2009

Então...

My Diary:

Não é desinteresse [a respeito do blog]. Vontade eu tenho [ainda a respeito do blog]. Mas falta tempo, inspiração e compreensão do mundo além do eu. Porque meu eu eu sei de cor, conheço e aprecio muito. Mesmo parecendo egocêntrico.
Eu sempre soube que buracos podem ser preenchidos, e de forma muito eficaz e satisfatória. Eu não sei é durante quanto tempo ele permanecerá preenchido ou suportando a grande carga que o vazio exerce sobre ele. E se isso é o suficiente.
Na verdade verdadeira, eu queria saber por que os buracos se abrem.
Eu queria saber tantas coisas e tantas coisas me perturbam que, por hora, pretendo – e tento – só não pensar nelas, ou não as perceber.
Por hora eu fico feliz de saber que eu sei quem eu sou e que sempre soube. E que sempre soube que eu gosto de ser o que eu sempre soube que sou. Mesmo com um pequeno defeitinho.



Crônica da Semana:
(Tati Bernardi porque eu a adoro, porque não tenho criatividade e porque está é fantástica e autoexplicativa.)

Berro em pé
(Tati Bernardi)

Férias antes dos doze anos era coisa de criança, poderia ser incrível ou um fiasco, a depender da programação dos pais, do tempo, das brincadeiras propostas, dos velhos amigos do prédio ou dos novos da praia, fazenda ou o que fosse.
Férias aos doze não dependia mais de pai e mãe e muito menos do tempo lá fora. Eu já tinha um projeto de seio (dois, no caso) e minha saliva tinha engrossado justamente porque eu não comia mais só o que era molhado e mastigado pelos cuidados de quem cuida. O mundo seco me martelava e incendiava o tempo todo e haja liquido próprio pra continuar viva. Foi assim que na última aula do último dia útil do mês de junho, minutos antes do sinal que separava uma classe de setenta e dois alunos das primeiras férias adultas de suas vidas, chegou pra mim um bilhetinho que dizia “quando tocar o sinal é pra berrar e ficar de pé”. Eu olhei para trás e uma infinidade de garotos topetudos e garotas com brincos gigantes rasgando suas orelhas confirmaram o combinado com bochechas rosadas e olhos safados. Eu finalmente era um deles e combinei comigo que gritaria o mais alto que pudesse, pularia o mais alto que pudesse e ainda esmurraria o topo do céu o mais forte possível, como fazem os que vencem alguma coisa depois de muitos anos de sofrimento, semi desistências e vômitos de madrugada.
Faltavam quatro minutos e eu olhava pra trás, agradecida até não poder mais por ter sido chamada a pertencer. Eu, aos doze anos, prestes a devorar a vida como se doze anos fosse ser muito velha e muito terminal e muito tanto que não pudesse ser mais nada, não estava tão sozinha assim no mundo, eu tinha enfim amigos que berrariam comigo, de pé, a chegada de alguma coisa que eu não sabia bem o que era mas que tinha a ver com meus peitos pequenos e meu coração batendo com arritmia de valsa bem no meio das minhas pernas.
“Crescer não precisava doer tanto”, eu lembro que pensei ao sentir, pela primeira vez, que cada canto do mundo podia trazer o perfume da minha mãe. Ainda que o cheiro desse perfume de mãe não fosse o da minha. Crescer pode ser gritar quando não se aguenta e pode ser pular quando não se aguenta e pode ser com amigos já que, enfim, é de não se aguentar mesmo. Eu só perderia a virgindade dez anos depois daquele dia, eu só beijaria na boca dois anos depois daquele dia, eu só me masturbaria pela primeira vez três anos depois daquele dia. Mas aquele dia, lembro bem, eu coloquei meu cabelo atrás da orelha e senti, com o tom da voz mental menos infantil, que a vida podia vir que eu tava pronta e a mataria no peito. Eu não teria dor de barriga. Que venham as férias.
E foi então que o sinal soou e eu berrei, de pé, com os braços muito esticados para o alto. Completamente sozinha. Seguida por caretas, dedos apontados e pelos sons de risos descontrolados, palmas e uivos de todo mundo.
Essa é minha última lembrança antes de me sentir envelhecendo. Como uma criança que comemora sozinha. Como uma louca que não aguenta isso tudo que é tão bom e terrível e não disfarça mandando bilhete anônimo e nem se escondendo em grupos de risos e chacotas. E assim se seguiram todos os meus dias, até aqui. É sempre pra essa cena que volto, quando tenho a impressão muito convincente de que sinto os sinais que tocam com muito mais dor e grito e alegria que as pessoas que ficam na espreita dos que ansiosamente não suportam muito não ser puros.
Na hora eu quis morrer de vergonha, ódio e medo, mas hoje eu vejo que desde o começo eu sabia da maldade mas preferi, como troca justa com o que minha história ainda tinha pra me contar, dar uma chance, até o fim, para que o mundo pudesse me amar do tamanho que a gente ama o mundo aos doze anos.

julho 21, 2009

Perdendo

My Diary:

Eu ando pelo mundo perdendo gente, chorando ao telefone, engolindo o sistema e acabando só. E só consigo ter um blog porque ele não lê, não pensa, não fala, não nada. Se não ia acabar o perdendo também.
Não agüento mais a minha sina de ser só e assim ser sempre. De perder quando acho que tenho tudo.
Não quero perder mais nada nem ninguém.

Maldito destino.
Quero uma vida boa.

E friso que perdi também a capacidade de escrever qualquer coisa. Falta-me só perder a lucidez.



Crônica da Semana:

Amigo Distante
(Albir José da Silva)

Há uns amigos com quem estamos sempre quites. Ou, quando estamos devendo, é por pouco tempo. Logo pagamos uma visita, um telefonema, um presente de aniversário. Caminhamos em paralelo, nunca nos afastamos ou nos chocamos com eles. Para esses ligamos no dia do amigo ou pedimos desculpas depois por não ter ligado. Com eles vamos às festas, aos bares, ao trabalho, à escola, ficamos tristes ou alegres conforme eles estejam.

Outros deixaram de ser amigos. Chocaram-se conosco. Desses dizemos que não eram realmente amigos, porque amigos não fazem isso. Que não mereciam nossa amizade. Que gastamos tempo e afeto com eles. Que não souberam honrar a amizade. A esses não procuramos e evitamos encontrar. Chegamos a prevenir outros amigos: - cuidado com ele. Como somos boas pessoas, não lhes queremos mal, mas não nos interessam mais. Não há o que contabilizar da amizade, a não ser algumas mágoas. Viramos a página e estamos em paz.

Mas há um terceiro tipo de amigo, com quem nunca nos chocamos, que também não caminha conosco. Não houve qualquer conflito, mas os passos se distanciaram por imposição do terreno e até hoje não entendemos direito o que aconteceu. Quando vimos que estávamos nos afastando, ainda acenamos como se já fôssemos nos encontrar, retomar as paralelas e continuar a vida. Fomos ficando distantes mesmo com planos de reaproximação. Não sentíamos tanto a ausência porque voltaríamos a andar lado a lado como sempre.

Os dias viraram meses e os meses, anos. A distância e o tempo foram aumentando e a vida nos empurrando por caminhos divergentes. Começou a ficar incômodo pensar naquele amigo. Uma culpa por não ter vencido as distâncias e os silêncios e resgatado a amizade que com certeza permanece intacta. Amizade de irmão eleito, que dividia o lanche e a casa; que emprestava a roupa e os pais. Amizade de saber que teria se o outro tivesse, ou que a falta não doeria tanto porque seria compartilhada. A vida separou. Ficou a nostalgia que insufla ternura no peito em que ficou um espaço. Espaço que tem dono. Volte ou não volte o amigo, o lugar está lá.

maio 17, 2009

Me enfeita num beijo

My Diary:

Agora tudo vai se apagando e se tornando negro e a pele arrepia com o frio que vem da janela entreaberta e chuva fina que é trazida pelo uivo constante do vento traz imagens para o meu quarto.
Turvas e em cores quentes. Quentes - tão quentes - que se derretem e se misturam. E se separam. E se desenham e se apagam.
E o ar deste lugar vai ficando escasso e denso. Úmido. Quente como as cores que não param de se fundir.
E agora eu é que me derreto. A começar pelos meus olhos que escorrem em preto até no canto da minha boca com o gosto daquela salina. E todo o rosto branco e cálido que tive se torna verde.
Um mergulho num mar límpido e verde, de onde eu não quero sair jamais.
Me afogo e me salvo. Milhões de vezes em segundos até voltar à terra firme.
Nas minhas mãos, tenho a alma e o coração que já não cabiam no corpo disforme e que tenho que segurar firme para que não me escape e se misture à confusão de formas que eu tenho na minha frente.
Tudo se apaga novamente e, num último instinto, inspiro aquele ar pesado.
Mas sem alma eu não respiro.
Não tenho ar.
Não tenho ar.
Não tenho...
E depois de segundos desacordada, o sol atinge duas esmeraldas que cegam a minha visão.
Tudo luz verde ao meu redor.
E agora estou salva. Com minha alma e coração de volta ao peito. A respiração regular. E eu toda não mais disforme.
Eu toda.



Crônica da Semana

Vou não vou
(Nelson Botter Jr.)

- te devoraria tal caetano a leonardo di caprio
- isso é música, é?
- é, mas também é o que eu sinto quando cruzo olhares contigo
- obrigada, mas não quero não
- é, eu sei
- mas nem esquenta, caê, tem mais quinhentas por aí que seriam o seu leonardo di caprio num estalar de dedos
- é, eu sei
- então...
- ...
- ai, menino, tudo menos silêncio, acho desesperador, constrangedor, sei lá
- não tenho nada pra dizer, além do que já disse
- ah, sabe o que é... espero que você entenda, é que não me envolvo com garotos solteiros
- hein?
- não me envolvo com garotos solteiros
- mas quem falou em envolvimento?
- ah, que fosse uma noite e nada mais, pra mim já é um tipo de envolvimento, sabe... sou reservadona, sensível, moro no alto da torre do castelo, qualquer pele com pele já é um tipo de violação pra mim, quer dizer, envolvimento, coisa sagrada, sabe, eu sou assim, fazer o quê? espero que você entenda
- é, você sempre espera que eu entenda
- isso
- mas mesmo que role um carinho, qual o problema? não quer dizer que vai ficar apaixonadona e que vai sofrer por minha causa, é só uma amizade que rola algo a mais, uns beijinhos de vez em quando, um sexo gostoso...
- hahaha, garoto convencido, se liga, apaixonada eu? mesmo se eu sentisse alguma coisinha a mais de especial por você não desceria do salto, você nunca saberia, nem uma dica sequer, sou clássica, e essa coisa de amizade com sexo não rola, são princípios da minha vovó, tradição é tradição, sublimo com sorvete e seriados na tv a cabo
- e qual o problema de demonstrar algum afeto, baixar um pouco a guarda?
- eu não, vai que você me convence...
- se tem medo de ser convencida é porque quer que role, só não tem coragem... não?
- ihh, quer saber, você faz muitas perguntas, me irrita, me atrapalha... tinha de ser solteiro, né? quando bati o olho na sua mão e não vi aliança já sabia que era confusão à vista
- mas o que você tem contra solteiros?
- ué, não gosto de sofrer não
- sofrer?
- isso, a possibilidade de compromisso me arrepia, sabe, eu sou assim mesmo, prefiro homens casados ou que namoram, eles sabem os limites, não ficam atrás de você esperando algo a mais, querem ir direto ao ponto e fim de papo, solteiros não, procuram relacionamento, uma nova mãe, eu tô fora, já tenho um hamster que me consome muita atenção, cruzes!
- mas sou um solteiro diferente, ajo feito casado ou compromissado, fico na minha, nem vou querer algo mais sério depois, a amizade continua normal, apenas a cumplicidade aumenta
- não vai mesmo querer algo mais sério depois?
- não!
- e por que não? você não me acha bonita o suficiente? não sou boa o suficiente pra ser sua namorada?
- eu não disse isso
- então disse o quê? acha que sou bobinha? que não entendo nas entrelinhas? tudo bem, tudo bem, eu consigo superar... seu grosso
- mas você mesma disse que...
- não precisa ficar se explicando, tudo bem, eu sou assim mesmo, espero que você entenda
- eu realmente não estou entendendo mais nada
- pois é, homens, todos iguais, nunca entendem nada, depois nós é que somos complicadas
- olha aqui pra mim, pára de chorar, por favor, vai
- tá tudo bem, vou ficar bem
- eu não quis dizer aquilo que... que disse
- me leva pra casa?
- mas...
- eu sabia que você seria dor de cabeça na certa
- tô quieto
- você tem chocolate aí?
- chocolate???
- é, cacau, açúcar...
- eu tô aqui falando sério e você com esse papo de doce?
- ai ai ai, vamos embora, vai
- ...
- vamos, cafa
- hmm...
- esse seu olhar me mata, menino
- esquece o certo e o errado, vamos aproveitar enquanto existe vida
- dramático
- sou
- xavequeiro
- sou
- charmoso
- sou?
- tentador
- sou?
- ai ai
- quê?
- vamos, meu caetaninho, vamos
- pra onde?
- demorou...
- hmmm
- é, caê, menino abusado, vamos
- pois não, madame di caprio, e vamos pra minha ou pra sua casa?
- melhor pra sua, né... se formos pra minha acho que meu marido não vai gostar

março 19, 2009

Hibernando

My Diary:

Deu, caros amigos.
Este blog foi pro saco, pro beleléu, pro espaço, e é enterrado temporariamente. Não por falta de neuroses e confissões, pois estas sempre existirão - o que é óbvio para alguém que nasceu com o raro talento de engolir as palavras - mas por pura falta de capacidade de transformar transtornos em caracteres.
Se os últimos posts estavam longe de ser algo aceitável, agora, meus escritos chegaram no máximo da discrepância literária.
Daqui a pouco acabo com o meu "eu lírico", que há muito anda ofendido comigo e está me dando um "gelo".
Enfim, este é o fim temporário. Até que minha mente seja (talvez) capaz de escrever algo que preste novamente.Ou não.
Se não conseugir, eu apelo pra outra coisa.

Enquanto isso, as palavras... Leva-as o vento. [Título deum livro que eu nunca li. E nem quis]


Crônica da Semana:

Mulher Pelada
(Antônio Prata)

Toda sexta-feira ele chegava, num FIAT bege, para buscar a mim e a minha irmã. Pequenininhos, nos encaixávamos nos programas do pai separado e boêmio. Adorávamos: nos bares em que nos levava, éramos paparicados por mulheres bonitas e cheirosas, que riam alto e usavam roupas engraçadas. (Só muito mais tarde fui descobrir que a esse tipo de mulheres dá-se o nome de atrizes). Pedíamos coca, fanta e sprite e misturávamos tudo. Meu pai nos deixava comer pastéis, batatas-fritas, frango à passarinho e todo tipo de besteira, mandando por água abaixo, em minutos, toda a educação nutricional que minha mãe havia imposto durante a semana, com muito esforço, brócolis, sorrisos e papaias.
Nos períodos em que meu pai tinha alguma peça em cartaz, íamos ao teatro todo fim de semana. Lá pelos meus cinco anos, estreou a peça Besame Mucho. Era encenada no teatro Cultura Artística. Fica ali perto da Augusta, em meio a várias casas de strip e outros estabelecimentos cheios de neons e mistério, que eu olhava fascinado. Chegava a sentir uma certa pena do meu pai: o teatro dele me parecia o ponto mais desanimado de toda a rua, ofuscado por fachadas de castelos medievais, onde portas espelhadas davam para corredores esfumaçados e coloridos.
Perguntei o que eram aqueles lugares e meu pai disse que eram bares. Mas por que eram tão diferentes dos outros, em que comíamos frango a passarinho com Guara-cola? Meu pai explicou-me que naqueles bares havia mulheres peladas. Como?! Por que?! Do alto de minha meia década de existência, ?mulher pelada? evocava a imagem de minha mãe ou irmã entrando ou saindo do banho, de toca na cabeça e toalha na mão. Não conseguia imaginar muito bem que razão levaria mulheres nuas a comer pastéis. Meu pai seguiu a explicação, deixando-me ainda mais confuso: homens que não tinham namorada pagavam para ver aquelas mulheres peladas. Imaginei uns caras tristes, barba por fazer, a preencher palavras-cruzadas e bebericar um chope, enquanto mães e irmãs nuas iam e vinham de chuveiros inexistentes. A coisa não fazia o menor sentido. Pedi para irmos a um daqueles bares. Meu pai explicou que era proibido para crianças. Pela primeira vez, alguma coisa pareceu-me lógica. Devia ser para evitar que víssemos aqueles homens tristes e sozinhos, perdidos entre neons e tocas de banho.
Só vinte anos depois atravessei um daqueles corredores. As mulheres eram bem diferentes do que havia imaginado no meio de minha infância, mas os homens estavam lá, exatamente como eu os havia pintado.

fevereiro 12, 2009

Webcam

My Diary:

Só mesmo você que pode me fazer sorrir em código binário.
Sempre foi você quem segurou a minha mão.
E sempre será você a pessoa que mais cuida de mim.
O único que consegue embalar meu sono.
Só mesmo você me permite um sono calmo.
Andei percebendo meu perfume. E ele tem o cheiro da sua cama e do seu cabelo.
E eu notei, que a freqüência daquela brisa boa, é a mesma da sua voz.
Só mesmo você pra conseguir esfriar meus dias tempestuosos. Só mesmo.
E eu sei, bem decorado, que na verdade é só você que me assopra os ouvidos. Trás a chuva e a segurança.
Com você tenho a minha monotonia e a manhã mais linda.
E o caminhar mais gracioso.
A praia mais gostosa.
E a cama mais aconchegante.
É sempre você que pode me arrancar uma lágrima e ainda assim, conseguir que eu não me importe.
E sempre será você a pessoa que mais cuida de mim.
É seu, o toque mais veludo e o olhar mais cetim.
Está nas suas mãos o meu hálito de hortelã.
Nos seus pés, a oleosidade da minha pele.
E em você, estou eu toda.

Se assim é... Se não há você, eu também não be?



Crônica da Semana:

Bar ruim é lindo, bicho
(Antônio Prata)

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins.
Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem).
No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando resolver aí 500 anos de história.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar "amigos" do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.
"Ô Betão, traz mais uma pra gente", eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a bares ruins,que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os pratos tradicionais de nossa cozinha.
Se bem que nós, meio intelectuais, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.
A gente gosta do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil.
Assim como não é qualquer bar ruim.
Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne de sol, a gente bate uma punheta ali mesmo.
Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.
Porque a gente acha que o bar ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse.
O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas.
Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó.
Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV.
Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider.
Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico.
E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.
Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem.
Os que entendem percebem qual é a nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam em 50% o preço de tudo.
Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato.
Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae.
Aí eles se fodem, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão brasileira, tão raiz.
Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil!
Ainda mais porque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelo Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gateau pelos quatro cantos do globo.
Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o nordeste é muito mais autêntico que o sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é mais assim Câmara Cascudo, saca?).
- Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

dezembro 31, 2008

Cai o pano mais uma vez

My Diary:

É o último dia do ano e eu imaginei que teria mais palavras para o dia de hoje.
Mas está bom assim. Significa que não tenho nada me atormentando neste momento.
Está bom, porque vou poder virar o ano descansada emocionalmente.
Não sou supersticiosa, nem tenho um lado espiritual expressivo que me faça pensar que eu devo ter pensamentos positivos e pular (não sei quantas) ondas. Mas eu, de verdade, queria ter alguém para fazer tudo isso comigo hoje.
Porque em meio a tanto caos emocional que me ocorreu este ano, terminarei ele só.
Mas sinceramente, o que me faz falta agora - e vai fazer mais falta ainda mais tarde - não é um companheiro.
Vai ser o anjo que me acompanhou durante muitos anos da minha vida e que, invariavelmente, lembrarei dele a cada Réveillon que viverei.
E acho que este meu anjo sabe que festejar isso sem ele, nunca será a mesma coisa.
Este rosto é uma das lembranças mais lindas que eu posso ter na minha vida. E comemorar a virada vendo o sorriso mais sincero que existiu, era a coisa mais linda e gratificante que o ano poderia ter.
Ai mundo.
Eu quero é um amigo comigo hoje. Pra me fazer esquecer das coisas deste mundo cão.
Para me abraçar e me fazer sorrir com espontaneidade tamanha, que seja estranha até mesmo para mim.
Quero estar repleta de gente animada...
Ah! Eu quero sim.
Ai mundo.
O meu anjo não está aqui.
Uma pena isso eu não poder mudar.
O que eu quero de verdade, é que o ano que vem seja muito melhor do que o ano que se arrastou por 2008.
Emocionalmente tão movimentando, que me impediu de percebê-lo. Quando eu vi, já era o fim.
Eu nem senti o ano chegar.
Quero que o ano que vem seja infinitamente melhor. Porque só existir cansou. Eu quero viver.

Quando eu pulei ondas desejando passar no vestibular funcionou. De repente eu tento superstições de fim de ano mais uma vez.



Cônica da Semana:

Dúvidas sobre o Réveillon
(Henrique Szklo)

Por que nesta época do ano todo mundo diz pra você ter boas entradas e depois dá uma risadinha nojenta?

Médico também passa o Réveillon de branco?

Por que Réveillon se escreve Réveillon?

Como é que as pessoas fazem para pular as sete ondinhas no Havaí?

A gente deve comemorar no horário normal ou no horário de verão?

Papai Noel comemora o ano novo?

Por que não escrevemos reveiôm?

Por que os australianos estão sempre comemorando o ano novo antes de todo mundo?

Na região francesa de Champagne você pode comemorar o Réveillon com cidra?

Meia-noite em ponto é o final do ano velho ou começo do novo?

Passar o Réveillon fazendo sexo é garantia de boas entradas?

Os canhotos precisam começar o ano com o pé direito ou com o esquerdo?

Bombeiros também soltam fogos?

Os negócios só vão começar a melhorar depois do carnaval ou no segundo semestre?

Por que no dia 2 de janeiro todas as nossas esperanças já foram por água abaixo?

O que Iemanjá faz com tanta flor?

Dá azar pular as ondas no mar morto?

O Réveillon em Hollywood tem fogos de verdade ou são efeitos especiais?

Quem passa o final de ano completamente bêbado entra com o pé direito na jaca?

Se nos anos anteriores os adivinhos erraram quase todas as previsões, por que é que fazem tudo de novo?

Se todo ano é a mesma merda, por que a gente acredita que este agora vai ser legal?

Se a gente não desejar nada na virada do ano não vai acontecer nada com a gente nos 365 dias seguintes?

Quem está dentro de um avião na passagem de ano pode soltar fogos?

Se no Réveillon a pessoa estiver num parque aquático e pular sete ondinhas artificiais, os seus desejos não serão atendidos?

Desejar que uma pessoa que não tem o pé direito come&çar o ano com o pé direito é um cumprimento ou uma ofensa?

Começar o ano fazendo piadas de mau gosto é um mau agouro?

dezembro 13, 2008

Números, apenas.

My Diary:

Il me semble que je n'ai pas importance à vous.
Il me semble que vous me faut plus que je vous faut.
Ce que je peux voir, c'est que je ne suis rien à vous. Moi, je suis seulement une pièce d'un de vos jouets.
Bien sûr... Je m'en vais.
Rencontrez quelq'un aussi interessée que moi.
Ou, restez sans personne.
Ça n'est pas un problème à vous, monsieur.



Crônica da Semana:

Quantos Idiomas Você Fala?
(Sandra Paes)

Parece uma pergunta comum feita na seleção de candidatos a emprego. Parece, mas se olharmos bem de perto, pode não ser.

Entre diversas propagandas pra eficientes cursos de inglês, difundidas por toda parte, me deparo com uma outra bem sutil: a propaganda da mais nova língua planetária. Onde quer que se vá, especialmente no ocidente, depara-se com um novo idioma instituído e adotado por toda a mídia: o economês.

Só se fala em números, em cifras, em gastos, investimentos, em produtividade, em salários, em poupança, em juros, prejuízos, regras mutantes do pode e não pode. Regras pouco claras sobre o controle de sua vida, de seus movimentos, de seu poder de viver até em nome da sua qualidade de vida.

Me pergunto quando foi que começou essa ditadura numérica e toda essa avalanche de sinais sempre articulados em função de onde vai o dinheiro e do jeito que querem que você assimile isso.

E toda a população tem que aprender de uma forma ou de outra a acompanhar o modismo dessa nova língua. E todo mundo controla a “vida” dos outros pelos significados dessa língua.

Você fala economês? Mais ou menos? Pois presta atenção. Se quando sair vai conversar sobre uma liquidação, especular sobre o preço de uma passagem pra viajar nas férias, soltar vez por outra que vai dar pra aproveitar a chance de reformar a casa, ou que esta pensando se vai dar para fazer um lift pro verão, você está matriculada no curso médio do economês.

Se você se pega fiscalizando a nota fiscal das compras do mercado pra medir se gastou mais do que o mês passado, está praticando um dever de casa na prática do idioma. E o que é mais indicador do seu nível de prática: se você justifica quase tudo em sua qualidade de viver usando argumentos citando a “crise” internacional, você foi promovida na escola existencial dos falantes dessa língua.

Eu tenho tido dores de cabeça. Tive que ouvir de uma amiga que seria preciso fazer um diagnostico pra arranjar o tratamento adequado. Mais uma jargão, de outra língua derivada do economês - o cuidado com a saúde, ou melhor, com os sintomas de doenças que nem sempre fazem parte de um quadro fixo da OMS - Organização Mundial de Saúde. Até isso!

Se sua cabeça vive ocupada com cálculos numéricos, tantos por cento disso, tantos por cento daquilo e sem dar dízima periódica, apenas números redondos ou vermelhos, o cérebro começa a dar um sinal de pane.

Quem vive debaixo da ditadura da manutenção do salário, com o medo de perder o emprego por conta da ameaça da crise internacional - essa nova peste que abala o mundo, segundo os doutores do economês -, você está debaixo de outras ameaças. Todas mexendo com a segurança existencial. Ter ou não onde dormir, ter ou não condições de andar de carro, ter ou não condições de sustentar energia pra manutenção do emprego e do salário. E sem esses, fica ameaçado o casamento, o natal, o ano novo, as tão esperadas férias e até, quem sabe, a chance de ter um filho.

A ditadura do economês é a mais avassaladora forca terrorista no mundo. Corrompe de dentro pra fora, mina a auto confiança, retira o poder de respirar e dormir em paz. E a mídia não poupa seu ouvido com todos os discursos falados nesse idioma. Todo rebuscado de estatísticas e dialetos próprios pra testar mesmo seu poder de compreensão e de submissão a essa doença crônica.

Sim, porque pra mim, e isso pode ser pessoal, basta olhar para a poluição de todas as cidades, com excesso de carros em todos os lugares, e num simples piscar de olhos, constatar a inviabilidade de uma sociedade como um todo. Primeira mostra que não faço parte do grupo que conjuga esse dialeto. Não faço parte do grupo que acredita e pensa que está tudo cuidado, por conta de jargões sobre primeiro mundo, desenvolvimento, produtividade, crescimento econômico - sem olhar todos os desastres naturais ou não, decorrentes da cata de impostos pra se produzir mais poluição e mais insegurança e violência.

Não conjugo o verbo consumir. E sou cobrada de forma direta e indireta por isso.
Se não se tem carteira assinada, declaração de Imposto de Renda, conta bancária, crediários em dia, casa própria ou em planos de ser adquirida, carro na porta ou no consórcio, prestações em dia, sonhos de consumo e inserção no mercado consumidor com possível garantia de êxito, você está seriamente doente e condenado ao isolamento. Você tem que saber economês pra sobreviver numa sociedade que só fala esse idioma, senão, seu analfabetismo lhe condena. Viver no ostracismo ou na exclusão social real tornou-se a mais seria ameaça plantada por esse império.

Você tem que fazer parte do contexto dos apavorados pela crise internacional, tem que sentar nos lugares e falar sobre isso, exaurir o espírito do medo que assola a todos e se incluir no projeto de cidadania também imposto. Está na hora de participar de mais esse programa, os poupadores de energia, os conversores de colaboração pra manutenção dos poderes políticos vigentes e tudo em nome do crescimento econômico, do PIB, resultado das linhas de produção, dos índices de consumo e de circulação de mercadorias, não importa se importantes, bio degradáveis, essenciais ou não.

Enquanto isso a vida passa e você ficando mais escravo do que nunca. Já conferiu seus números pra saber se sim ou se não? Como não? Se você não tem CPF, CEP, ID, CC, ISS, PIS, PASEP, FGTS, INPS, SUS, SS, CM, RG, CEL, você não existe! E como alguém pode viver se não existe? Como alguém pode estar incluso em uma cidadania se existir equivale a possuir todos esses códigos?

Estou querendo descobrir e viver sem eles, e não quero falar economês - já ouço demais, leio demais, mas daí só falar essa língua, está muito difícil. E nenhum médico vai me perguntar no consultório quantos idiomas eu falo, apenas pra saber se estou sofrendo de dificuldade crônica de fazer parte da tribo que fala, e conjuga essa língua - a mais falada em todo planeta. E não pensar em economês tem me dado muita dor de cabeça. Literalmente. Espero encontrar a cura.

novembro 29, 2008

Quimera

My Diary:

Hoje eu acordei cedo, antes do Sol lembrar que era dia, e por incrível que pareça, eu não estava com sono.
Não comi, tinha pressa demais para pensar em sentir fome, mas isso nem teve relevância.
Tentei fechar os olhos mas a radiação os incomodava, e eu nem ligava para isso. Gastei horas trancafiada, sem ar, sem luz. Sem o som do planeta, e mesmo assim, eu nem percebi.
Saí de noite e voltei à noite. Saí de um cubo e entrei em outro. Fiz uma obrigação, e quando pensei estar livre, entrei em outra, que consumiu o resto do dia que me restou.
Vi poucos rostos e poucos sorrisos.
Senti poucos perfumes.
Mas hoje, nada disso me incomodou. Porque finalmente, depois de muito tempo, eu pude dormir.



Crônica da Semana:

Amigo com H
(Cléo Araújo)

Ele é do tipo que não compartilha emoções à toa.
Não conta intimidades, a menos que haja um propósito muito claro para tanto. Ou que eu fique pressionando até ele espanar.
Prático, direto, sem dramas e sem entrelinhas.
Seguro, sorridente e estável.
Fofinho, maldoso e crítico.
É assim, um belo exemplar de amigo com H.
Se você é moça e tem um, saiba que se trata este de privilégio de poucas.
Não, não vale aquele, que se faz de amigo, mas que no fundo quer mais é te comer. Não vale ninguém, aliás, com sentimentos outros que não a indulgente e altruísta fraternidade. Não ria rapaz. Esse tipo de amizade existe sim.
Falo aqui do amigo puro, legítimo. Aquele, em cujo elogio ou crítica você sempre pode acreditar porque nunca, jamais ele vai querer copiar o seu corte de cabelo.
Também, pudera.
Você foi a única (entre mulheres, homens, peixes-beta e cães) que topou assistir com ele os seis episódios de Guerras nas Estrelas numa única maratona, que começou às seis da tarde e acabou às sete da manhã. Não à toa, o amigo com H gosta tanto de você. Gosta a ponto de dizer que você é tão legal, mas tão legal, que mais pessoas no mundo precisariam saber disso. E um elogio dele faz de você uma pessoa mais segura e mais feliz.
Um amigo com H que se preze estica a festa de casamento de amigos em comum numa boate gay só porque você achou que essa seria a maneira mais divertida de se encerrar a noite. Ele não só entra no clima, dizendo que a noite ainda era longa quando já se via o sol nascer, como curte a valer o inferninho GLS, mesmo se tratando este de um amigo com H macho pra caralho. O amigo gay, aliás, também é um baita, senão o maior, dos amigos com H.
Um amigo com H dirige para você na estrada e costuma ser inimigo declarado do seu novo namorado. Mas no fundo ele adora o cara. Só implica com ele porque te conhece muito, e provavelmente mais do que esse “fulano” que chegou agora e te deixou com essa cara de boba-alegre.
Você e seu amigo com H dividem um quarto de hotel. Mas só se precisarem, porque ele ronca. E ele vê você toda desarrumada, como nenhum outro homem a viu antes - a não ser seu pai e seu cabeleireiro. Ele dá até a dica de uma pomada para essa espinha nojenta que você exibe no queixo. Zomba da sua chapinha, do seu pijama de vaquinhas coloridas e da sua placa para não ranger os dentes. Mas você nem fica brava porque se lembra: ele a levantou no ombro no show do U2 durante cinco músicas seguidas, sem reclamar. E ainda cantou “The time of my life” num dueto com você no karaokê. Mesmo sem saber a letra.
O amigo com H, no entanto, às vezes te faz chorar. Culpa daquela sinceridade dolorida, que você ama tanto. Mas, mesmo que ele lhe tire algumas lágrimas de vez em quando – quando questiona seu trabalho, sua infelicidade nos relacionamentos com os homens ou seu temperamento amargo - não admite que outro homem o faça. Ah, rapá, se prepare porque aí ele vira bicho!
O amigo com H pára de fumar para te encorajar a fazer o mesmo. Mas como você não consegue, ele acende uma cigarrilha na noite de ano novo, só para você não se sentir tão por fora. Se não fosse ele, aliás, além de por fora, você não teria música nenhuma no seu Ipod. É ele quem te passa todas, de Jesus and Mary Chain a Roxette.
Amigo com H pede cola e passa cola, bate a assopra, segura na mão e manda você se foder.
E o melhor de tudo é que ele não vai descobrir que quer se casar com você no dia em que ficar noiva. E que você não vai dar um escândalo na igreja no dia do casamento dele.
Embora alguns cochichem “certeza que ela já deu para ele” e outros apostem que ele já te comeu, vocês sabem que a idéia de serem um “casal” é tão ridícula quanto aquela camiseta do Homer Simpson que ele usa de final de semana.
E vocês riem.
Como de hábito, um do outro.
E juntos, do resto do mundo.