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novembro 02, 2013

Triz

A crônica é uma velha conhecida, já postada aqui antes, mas tão relevante e tão atual, que precisei expô-la de novo.


Crônica:

Triz
(Tati Bernardi)

Eu quase consegui abraçar alguém semana passada. Por um milésimo de segundo eu fechei os olhos e senti meu peito esvaziado de você. Foi realmente quase. Acho que estou andando pra frente.

Ontem ri tanto no jantar, tanto que quase fui feliz de novo. Ouvi uma história muito engraçada sobre uma diretora de criação maluca que fez os funcionários irem trabalhar de pijama. Mas aí lembrei, no meio da minha gargalhada, como eu queria contar essa história para você. E fiquei triste de novo.

Hoje uma pessoa disse que está apaixonada por mim. Quem diria? Alguém gosta de mim. E o mais louco de tudo nem é isso. O mais louco de tudo é que eu também acho que gosto dele. Quase consigo me animar com essa história, mas me animar ou gostar de alguém me lembra você. E fico triste novamente.

Eu achei que quando passasse o tempo, eu achei que quando eu finalmente te visse tão livre, tão forte e tão indiferente, eu achei que quando eu sentisse o fim, eu achei que passaria. Não passa nunca, mas quase passa todos os dias.

Chorar deixou de ser uma necessidade e virou apenas uma iminência. Sofrer deixou de ser algo maior do que eu e passou a ser um pontinho ali, no mesmo lugar, incomodando a cada segundo, me lembrando o tempo todo que aquele pontinho é um resto, um quase não pontinho.

Você, que já foi tudo e mais um pouco, é agora um quase. Um quase que não me deixa ser inteira em nada, plena em nada, tranqüila em nada, feliz em nada.

Todos os dias eu quase te ligo, eu quase consigo ser leve e te dizer: "Ei, não quer conhecer minha casa nova?" Eu quase consigo te tratar como nada. Mas aí quase desisto de tudo, quase ignoro tudo, quase consigo, sem nenhuma ansiedade, terminar o dia tendo a certeza de que é só mais um dia com um restinho de quase e que um restinho de quase, uma hora, se Deus quiser, vira nada. Mas não vira nada nunca.

Eu quase consegui te amar exatamente como você era, quase. E é justamente por eu nunca ter sido inteira pra você que meu fim de amor também não consegue ser inteiro.

Eu quase não te amo mais, eu quase não te odeio, eu quase não odeio aquela foto com aquelas garotas, eu quase não morro com a sua presença, eu quase não escrevo esse texto.

O problema é que todo o resto de mim que sobra, tirando o que quase sou, não sei quem é.

outubro 06, 2009

Então...

My Diary:

Não é desinteresse [a respeito do blog]. Vontade eu tenho [ainda a respeito do blog]. Mas falta tempo, inspiração e compreensão do mundo além do eu. Porque meu eu eu sei de cor, conheço e aprecio muito. Mesmo parecendo egocêntrico.
Eu sempre soube que buracos podem ser preenchidos, e de forma muito eficaz e satisfatória. Eu não sei é durante quanto tempo ele permanecerá preenchido ou suportando a grande carga que o vazio exerce sobre ele. E se isso é o suficiente.
Na verdade verdadeira, eu queria saber por que os buracos se abrem.
Eu queria saber tantas coisas e tantas coisas me perturbam que, por hora, pretendo – e tento – só não pensar nelas, ou não as perceber.
Por hora eu fico feliz de saber que eu sei quem eu sou e que sempre soube. E que sempre soube que eu gosto de ser o que eu sempre soube que sou. Mesmo com um pequeno defeitinho.



Crônica da Semana:
(Tati Bernardi porque eu a adoro, porque não tenho criatividade e porque está é fantástica e autoexplicativa.)

Berro em pé
(Tati Bernardi)

Férias antes dos doze anos era coisa de criança, poderia ser incrível ou um fiasco, a depender da programação dos pais, do tempo, das brincadeiras propostas, dos velhos amigos do prédio ou dos novos da praia, fazenda ou o que fosse.
Férias aos doze não dependia mais de pai e mãe e muito menos do tempo lá fora. Eu já tinha um projeto de seio (dois, no caso) e minha saliva tinha engrossado justamente porque eu não comia mais só o que era molhado e mastigado pelos cuidados de quem cuida. O mundo seco me martelava e incendiava o tempo todo e haja liquido próprio pra continuar viva. Foi assim que na última aula do último dia útil do mês de junho, minutos antes do sinal que separava uma classe de setenta e dois alunos das primeiras férias adultas de suas vidas, chegou pra mim um bilhetinho que dizia “quando tocar o sinal é pra berrar e ficar de pé”. Eu olhei para trás e uma infinidade de garotos topetudos e garotas com brincos gigantes rasgando suas orelhas confirmaram o combinado com bochechas rosadas e olhos safados. Eu finalmente era um deles e combinei comigo que gritaria o mais alto que pudesse, pularia o mais alto que pudesse e ainda esmurraria o topo do céu o mais forte possível, como fazem os que vencem alguma coisa depois de muitos anos de sofrimento, semi desistências e vômitos de madrugada.
Faltavam quatro minutos e eu olhava pra trás, agradecida até não poder mais por ter sido chamada a pertencer. Eu, aos doze anos, prestes a devorar a vida como se doze anos fosse ser muito velha e muito terminal e muito tanto que não pudesse ser mais nada, não estava tão sozinha assim no mundo, eu tinha enfim amigos que berrariam comigo, de pé, a chegada de alguma coisa que eu não sabia bem o que era mas que tinha a ver com meus peitos pequenos e meu coração batendo com arritmia de valsa bem no meio das minhas pernas.
“Crescer não precisava doer tanto”, eu lembro que pensei ao sentir, pela primeira vez, que cada canto do mundo podia trazer o perfume da minha mãe. Ainda que o cheiro desse perfume de mãe não fosse o da minha. Crescer pode ser gritar quando não se aguenta e pode ser pular quando não se aguenta e pode ser com amigos já que, enfim, é de não se aguentar mesmo. Eu só perderia a virgindade dez anos depois daquele dia, eu só beijaria na boca dois anos depois daquele dia, eu só me masturbaria pela primeira vez três anos depois daquele dia. Mas aquele dia, lembro bem, eu coloquei meu cabelo atrás da orelha e senti, com o tom da voz mental menos infantil, que a vida podia vir que eu tava pronta e a mataria no peito. Eu não teria dor de barriga. Que venham as férias.
E foi então que o sinal soou e eu berrei, de pé, com os braços muito esticados para o alto. Completamente sozinha. Seguida por caretas, dedos apontados e pelos sons de risos descontrolados, palmas e uivos de todo mundo.
Essa é minha última lembrança antes de me sentir envelhecendo. Como uma criança que comemora sozinha. Como uma louca que não aguenta isso tudo que é tão bom e terrível e não disfarça mandando bilhete anônimo e nem se escondendo em grupos de risos e chacotas. E assim se seguiram todos os meus dias, até aqui. É sempre pra essa cena que volto, quando tenho a impressão muito convincente de que sinto os sinais que tocam com muito mais dor e grito e alegria que as pessoas que ficam na espreita dos que ansiosamente não suportam muito não ser puros.
Na hora eu quis morrer de vergonha, ódio e medo, mas hoje eu vejo que desde o começo eu sabia da maldade mas preferi, como troca justa com o que minha história ainda tinha pra me contar, dar uma chance, até o fim, para que o mundo pudesse me amar do tamanho que a gente ama o mundo aos doze anos.

novembro 15, 2008

Carta ao Sr. Godofredo Pinto

My Diary:

Não sei como vão as coisas aí na Lopes Trovão, caro Senhor Prefeito, mas posso informar ao senhor, como vão as coisas em todo o resto da cidade.
O sistema de trânsito está caótico. E não posso justificar isso como resultado do crescimento da cidade. Talvez um aumento da população... Mas tenho melhores justificativas.
Suponho que o caos do trânsito seja devido ao grande número de veículos privados que são usados no dia-dia.
E suponho ainda, que o grande número de veículos usados seja tão grande porque as pessoas evitam usar os meios de transporte públicos.
E direi ao senhor, o motivo do mesmo.
Não sei como são as coisas aí na Lopes Trovão, mas em todo o resto da cidade, tomar um ônibus é um risco à própria segurança. Talvez devido à falta de policiamento desta cidade, ou pela ineficiência da mesma. Talvez os dois. Não estou certa...
Mas o número de assaltos em ônibus está cada dia maior. E digo isso, caro senhor prefeito, porque talvez as coisas aí na Lopes Trovão sejam diferentes, e o senhor não esteja ciente da situação.
De repente, como as distâncias em nossa cidade são curtas, as pessoas poderiam se deslocar a pé. Principalmente, aquelas que tem o privilégio de morar ou trabalhar na orla da Baía da Guanabara. Apreciariam a linda vista do Pão de Açúcar e do Cristo Redentor. Mas sabe senhor prefeito, diferente do que provavelmente acontece aí na Lopes Trovão, nós não podemos caminhar tranqüilamente pelas ruas apreciando a paisagem. Primeiro, porque aos poucos (na verdade, aos muitos) as paisagens estão sendo substituídas por favelas, e depois, porque caminhar nas ruas da nossa cidade (aquela que antigamente era conhecida como cidade sorriso) é também um risco à própria segurança. O número de assaltos, e à mão armada, está enorme.
Talvez o senhor não tenha percebido... Mas fazer um corredor viário, arrancando mais de 130 árvores não é uma solução para o caótico sistema viário de Niterói (o nome da nossa cidade). Também não é solução para os graves problemas de saneamento que a cidade enfrenta. Tampouco, solução para a questão da crescente violência aqui.
Mas talvez seja por falta de conhecimento. Por isso vim através desta carta mostrar ao senhor a situação de nossa cidade. Porque talvez, as coisas aí na Lopes Trovão sejam bem diferentes.



Crônica da Semana:

O que as mulheres fazem quando vão ao banheiro. Dos seus namorados.
(Tati Bernardi)

Ter camisinha na gaveta é normal, afinal, ele tinha uma vida antes de me conhecer. São oito camisinhas ao todo, se até a próxima sexta continuarem sendo oito, é porque ele não usou nenhuma com outra mulher. Comigo não precisa porque fizemos os exames e eu estou tomando pílula. Pelo no barbeador é normal, anormal seria um barbeador limpo, porque quem limpa gilete é mulher, depois de emprestar sem o namorado saber para deixar o desenho da piriquita bonitinho antes de ir para o quarto. Bom, se a gilete está suja, nenhuma piriquita designer passou por aqui.
Na portinha do espelho não tem espaço para outra escova de dente, o que significa que há muito tempo ele não divide tamanha intimidade com alguém, ou não sabe dividir espaço. Isso é bom ou ruim? Bom, de qualquer forma, eu estou aqui para mudá-lo. E vou comprar um porta-escovas que caibam duas escovas. Aliás, vou comprar uma escova nova para ele, essa aqui tá muito velha. Quantas vezes será que ele já escovou os dentes neste escova depois de transar com outra mulher? Eu odeio essa escova.
Clarice sente a primeira pontada no intestino: o melhor laxante do mundo era vasculhar o banheiro do namorado.
O misto de medo de ser descoberta com medo de descobrir alguma coisa lhe dava cólicas horríveis, o que não era um grande problema já que ela estava no lugar certo para isso.
Enquanto senta no vaso, Clarice aproveita para levantar a tampinha da lixeira, espiar embaixo do carpete e olhar calmamente para os cremes de cabelo no chão do box do chuveiro.
Cremes para cabelo? Mas o seu namorado da semana era quase careca, para que aqueles cremes?
Ué, ela pensa lendo o rótulo do creme e disposta a atirá-lo na parede em poucos minutos: o que o danado faz com creme para amansar os cachos se ele não tem o equivalente na cabeça nem para uma franja?
Clarice parte diretamente para o ralo, este velho amigo das mulheres. Se o ralo tiver um cabelo que precise ser amansado, é ela que vai precisar de remédio para se amansar.
Não, sem chances. De quatro espiando aquele ralo era muita humilhação. Clarice respira fundo, fecha os olhos, conta até três e busca o telefone.
Fernanda atende do outro lado e depois de chamar a amiga de louca, neurótica e mandá-la "sair desta vida", confessa que já fuçou no cesto de roupas sujas de um ex namorado, e para a sua surpresa: achou uma calcinha.
Silêncio no telefone.
Clarice, com o coração e um princípio de vômito na boca, só consegue gemer e desejar desligar o telefone o mais rápido possível, para poder voltar à busca.
–Aonde será que fica o cesto de roupas sujas deste sem vergonha?
–Espera, deixa eu concluir a história. Sabe de quem era a calcinha?
–Da empregada, da secretária, da estagiária, da Gisele, dele mesmo?
–Da mãe dele. A mãe dele era coroa cocota filha, usava umas calcinhas mais sexys do que a minha!
–E você não ficou com ciúmes?
–Da mãe dele. Ok, desligue este telefone agora e procure ajuda psiquiátrica.
E foi exatamente o que ela fez. Desligou o telefone e ligou para sua amiga Ane, que sempre filosofava tanto em cima de suas psicoses que fazia Clarice se sentir importante por ser maluca.
–Sim, claro que é normal você estar neste exato momento vomitando o café da manhã, com piriri e dor de cabeça porque ele tem um creme para cabelos cacheados no boxe do banheiro.
Anormal é você ter se esquecido que ele mora com a filha, que tem longos cabelos cacheados, não?

novembro 01, 2008

Estrela D'alva

My Diary:

Alguém pode me dizer onde estou?
Estou geograficamente perdida. E não há pontos cardeais que me ajudem.
Nenhum sol nascente, ou estrela no céu.
Minha noção de latitude e longitude também se perderam pelo espaço.



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Fugindo ao tema agora...
Obrigada Juh! Adorei o reconhecimento!!

Prêmio Dardos
Com o Prêmio Dardos se reconhece os valores que cada blogueiro mostra cada dia em seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc, que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras.



Regras:
1 - Aceitar exibir a imagem.
2 - Linkar o blog do qual recebeu o prêmio.
3 - Escolher 15 blogs para entregar o Prêmio Dardos

Aqui estão. Alguns nem sabem que eu existo. Mas são bons.



Crônica da Semana:

Se você quisesse saber
(Tati Bernardi)

Eu tenho vontade de te contar tantas coisas. Mas você não sabe como dói e como é solitário ser gente. Gente tem mais é que guardar esses absurdos. Ontem, por exemplo, eu estava no avião, indo pra tal da palestra que eu te contei que tinha em Porto Alegre, e o medo voltou. Sabe o que eu fiz? Peguei um caderninho que sempre levo comigo e anotei tudo o que o medo queria me dizer. Fiquei besta de ver que se ele queria me dizer alguma coisa, ele não era exatamente eu. Era só o medo. Olhei o Rivotril que minha mãe colocou na minha bolsa e aquilo não me pareceu nenhuma solução. Eram apenas duas coisinhas brancas e pequenas num recortinho de embalagem. Duas coisinhas que jamais terão o tamanho de tudo isso que tem aqui dentro. Eu senti meus pés tão fortes e meu rosto tão corado. Eu gostei de mim e da vida como não gostava há muito tempo. A vida soprou no meu ouvido para eu parar com essa coisa de não me dar comida e não me dar confiança. E isso é idiota mas quis muito que você fosse o único a saber.
Queria te contar, também, que na hora da palestra me deu tanto medo de desmaiar no meio da fala que tomei dois copos inteiros de guaraná. Mas na hora mesmo, de falar, eu lembrei de você me dizendo que ansiar ou sentir assim a vida pode fazer as palavras assumirem um poder mais mágico e, acho que porque gostei do que você falou ou simplesmente porque gosto de você, consegui não tremer o microfone e até fiz algumas pessoas rirem de alguma piada. Foi bom. Gostei da vida de novo. E de mim. E nossa. Só Deus, aquele que você não acredita que existe, sabe o quanto eu quis te contar tudo isso.
Você não imagina como dói e como é solitário ser gente. Você nem sonha. Gente não pode ligar pro moço que conhece há dias e perguntar que raio ele ta fazendo que não liga, não pergunta, não continua apertando o play. Gente não pode fazer isso. Mas então que merda eu sou se gente não pode fazer isso? Sou menos ou mais que gente? Eu só queria que você soubesse que hoje ouvi a tal da música da Nina Simone que diz que o baby Just cares for me e fiquei rindo que nem besta. Uma senhora achou graça. Um homem bocejou. Uma criança cabeçuda além da conta se escondeu. O mundo sabe do que é essa minha cara, mas nem por isso está preocupado em me dar os pêsames ou os parabéns. Gostar de alguém, de novo, deveria ser algo como um enterro ou um nascimento. Mas gente acha só que é mais uma perda de tempo. E eu, que sei lá que merda sou, queria muito que não fosse.
Queria te contar que descobri porque te tratei mal da última vez. É que o raio da blusa cinza furada te deixa tão bonito e eu tenho mania de chorar quando acho alguma coisa muito bonita. E pra não chorar eu trato mal. A vida me emociona o tempo todo mas se eu ficasse chorando, quem ia pagar minhas contas e quem ia me querer cheia de olheiras? Então eu corro. Me dá de novo a vontade de ir embora. Eu to sempre indo embora mas aí vai um super clichê...: é de tanto que eu só queria ficar. E queria que você não achasse que sou sempre louca, ainda que eu seja.
Queria te dizer que foi mesmo ridículo quando você disse que gostava da sua aula de francês porque era mais divertida do que qualquer outra coisa e eu comparei isso com minha aula de personal de musculação. Agora me diz como eu posso falar tanta besteira só por causa de uma blusa cinza? Isso não é engraçado? Seria engraçado, se ser gente não fosse tão trágico e dizer essas coisas tão absurdo. Ser gente é um saco, um porre, uma coisa entravada no peito. Mas o que eu queria mesmo te dizer é que, só porque talvez você queira saber, nem gente mais eu ando conseguindo ser.

setembro 12, 2008

De quê é feita a minha cidade?

My Diary:

Somos 70% água. Sempre nos falam isso.
A substância que mais abunda na célula.
Está lá em forma de plasma (no citoplasma), mais enrijecida na periferia, e mais mole no centro (devido à alta atividade nuclear).
Agora, alguém lembra de nos dizer o que são os outros 30%?
É engraçado como sempre generalizam essa parte.
Na verdade verdadeira, somos 30% emoções, diluídos em água. Em água mesmo! E salgada! Ou você nunca experimentou o sabor de sua lágrima?
Claro que sim! Fora eu (que não tenho glândulas lacrimais) todo mundo já deixou uma lágrima rolar e morrer no fim da boca.
Voltando ao assunto, somos 30% sentimento exagerado. Raiva extraordinária, paixão incontrolável, rancor imutável, alegria indizível e tristeza profunda.
São tão exagerados que precisam ser diluídos em água, ou você explodiria.
Porém, esses 30% não estão distribuídos de forma igual. São como hormônios, que dependendo da situação, são estimulados e se multiplicam.
Um texto devidamente decorado e recitado para você pode, por exemplo, inibir sua produção de alegria indizível e superestimular a produção de raiva extraordinária. Como conseqüência, o sentimento transborda e é secretado junto com o seu solvente (parte daqueles 70% de água de você).
Não acredita? Está achando piração?
Então me diga que você nunca chorou por algum desses sentimentos?
Não negue. Há quem chore todo dia por algum ou vários deles.

Você já superestimulou algum sentimento hoje?
Tente.
Ou não

(Post repetido... Perdoem-me. Mas adoro ele.)



Crônica da Semana:

O Homem da Escada
(Tati Bernardi)

Ele comia a professora de power yoga do 43, comia a ex-semivirgem que de tão magra a gente via os pêlos pubianos porque o osso da bacia levantava o biquíni, e comia até a Rose, mãe da Paulinha, mulher casada há 12 anos e meio e que vivia suspirando e esticando os pés de galinha no espelho do elevador.
Um belo dia, o porteiro encheu os olhos de vida e contou para a minha empregada:

“Ele comeu a Dona Silvia na escada do prédio.”

Dona Silvia não prestava nada, até cantavam pra ela da quadra lá embaixo: “Ô Siiiilvia, piraaaanha”. Coisa que os pais devem ter ensinado, porque essa música é velha demais para estar na boca de adolescentes espinhentos que batem playstation todos os dias. O fato é que o porteiro encheu muito os olhos de vida e continuou:

“Deu pra ver tudo pela câmera de segurança, ela ficou de quatro e ele mandou ver, uma, duas, três vezes.”

Não sei ao certo se a máquina sexual em forma de vizinho pagava uma caixinha para o porteiro sair pelo prédio espalhando tantos elogios ao seu desempenho, e por isso mesmo comia todo mundo, ou se aquilo era apenas uma conversa corriqueira na porta da minha cozinha, entre uma canção e outra da rádio evangélica da Maria. Só sei que comecei a gostar tanto do papo, que até sentei pra ouvir melhor.
O porteiro soltou uma imensa gargalhada, transbordou de vez uma louca vida dos seus olhos, e concluiu:

“Antes de largar a Dona Silvia lá, caída no chão, ele fez um tchauzinho pra câmera de segurança, a gente tava tudo lá, eu e os outros, e aplaudimos o Seu Flávio de pé.”

Eu não precisava ouvir mais nada, estava decidido, ia dar pra esse cara, esse cara era o cara, era o comedor, era o homem perfeito pra gente se divertir um pouco enquanto o amor não vem. Era o cara pra esquecer o romantismo e celebrar a vida mundana.
Sim, eu sou uma nova mulher, uma mulher que faz curso de astrologia, yoga, meditação, mitologia. Uma supermulher decidida a morar sozinha, decidida a ser feliz sozinha, decidida a viajar pela Europa, decidida a nunca mais ter um emprego idiota que não permita cursos divertidos, viagens e curtir a minha plena existência. Independente, espiritualizada, analisada, madura... mas, francamente: o cara mandou uma, duas, três na escada, e ainda deu tchauzinho pras câmeras? Que se dane o espírito e a evolução, meu ego precisava trepar com esse ser divino e pronto.
Usei minha tática predileta para comer um homem: um dia, como quem não quer nada, numa dessas cruzadas pelo estacionamento do prédio, contei que era escritora. Não sei explicar o que acontece, mas quando um cara descobre que eu escrevo, é mais de meio caminho andado para querer desesperadamente me conquistar.
Não sou promoter da Lotus e nem faço parte do “super insane guetto no brain mega pop star das supergatas iradas da festa do branco do Sirena”, sou apenas uma escritora que senta a bunda flácida de frente pro laptop e escreve a porra do dia todo. Mas eles não estão nem aí, eles querem comer minhas personagens, minhas putarias, minhas neuroses, a fotinho que sai na coluna da VIP, minhas fãs do Orkut, minhas estranhices, o glamour da literatura, sei lá... “Uma loirinha jeitosinha e ainda sabe escrever mais de um parágrafo sem falar ‘tipo assim, irado’? Desse tipo ainda não experimentei.”
Não deu outra, no mesmo dia, provavelmente após ele ter lido alguma coisa minha (claro que dei todas as pistas), chegou um longo e-mail com mil elogios à minha sensibilidade e um amável convite para ir jantar no dia seguinte.
Topei e corri para o armário: o homem que deu uma, duas, três na escada e ainda deu tchauzinho para a câmera merecia a produção mais sexy do mundo.
Achei estranho quando flores chegaram pela manhã e mais estranho ainda quando ele abriu a porta do carro para mim. Mas tudo bem, daqui a pouco o macho animalesco ia surgir e me comer em cima do capô, atrás da igreja ou no banheiro do restaurante. Aquilo tudo era figuração para prorrogar o clímax e torná-lo ainda mais feroz.
Fez questão de pedir um vinho chique de uma uva sul-africana chique e ainda pediu que acendessem as velinhas da nossa mesa. Segurou minhas mãos, brilhou os olhos e falou cheio de ternura:

“Ontem você me fez chorar.”

Não, não, ele só pode ter confundido o verbo, provavelmente quis dizer: você me fez gozar, me fez ficar louco, me fez ter que dar uma, duas, três no banho, me fez qualquer coisa mais animadinha... mas chorar?
Ele continuou:

“Sabe, não agüento mais essas conquistas vazias pelo mundo a fora, o sexo sem alma, a falta de companhia inteligente para uma vida.”

Mas justo na minha vez? Poxa, a professora de yoga tinha gritado tanto na sauna que deu pra ouvir até no quarto andar seus mantras. Depois ele desvirginou a modelete ossuda que vivia pagando de gatinha na piscina e até eu queria pegar, depois quebrou o galho da Rose que via o mesmo pinto mole há mais de doze anos, e fechou com chave de ouro comendo a Silvia tal qual uma cadela. Justo na minha vez ele ia querer filminho do Hugh Grant embaixo do edredom? O que eu tinha feito para merecer tamanho desprezo?

“Olha, eu vi em você o que eu sempre procurei em uma mulher: profundidade.”

Então, amigo, isso mesmo, profundidade, não vai querer conhecer a minha profundidade agora embaixo da mesa?
Ele passou a noite toda olhando nos meus olhos, sem desviar sequer um segundo para meu decote. Contou da separação dos pais, da dificuldade de engravidar da irmã (aproveitando para deixar claro que ele está louco para ser pai) e do quanto amava os cachorrinhos, a natureza e o amor.
Quando finalmente chegamos juntos ao elevador do nosso prédio, ele apertou seu andar e o meu, matando de vez qualquer esperança minha de ser devorada loucamente naquela noite. Se despediu com cara de bobo e ainda mandou uma mensagem de texto pelo celular quando eu já estava frustradamente deitada na minha cama:

“Foi uma das melhores noites da minha vida.”

Dormi mais uma vez me sentindo usada pelos homens.

agosto 23, 2008

Estereótipos

My Diary:

Todas as patricinhas usam Melissa.
Todo surfista tem mania de meteorologista e gosta de olhar as estrelas
Todo intelectual gosta de mostrar que é intelectual.
Todo mundo que fuma maconha acredita em duendes.
Todo estereótipo é estereotipado.
Todo artista é liberal.
Todas as mulheres são feministas (pelo menos um pouco, assumam!)
Todo político se corrompe.
Todo surfista é maconheiro (aí se encaixa na questão dos duendes, hehe)
Roqueiro usa All Star.
*New-roqueiro que quer mostrar isso pra todo mundo, principalmente.
Toda moda é manipulação.
Todo emo é pseudo-depressivo.
Toda equação matemática tem contestação.
Todos os pré-vestibulandos dormem pouco.
Guitarrista gosta de Jimi Hendriks
Toda patricinha escuta Fergie.
Todo punk é anarquista (ou finge ser).
Todo mundo generaliza.
Todo mundo condena quem generaliza.
Toda pessoa triste é nostálgica.
Toda bailarina tem amigo gay.
Toda Drag Queen tem pênis (???).
Todo mundo que condena estereótipo, tenta ser diferente.

Será que eu não sou um estereótipo também? (Dãããã)
Mas juro que faço tudo de forma mais natural possível! :)

Bom fim de Semana!



Crônica da Semana:

Triz
(Tati Bernardi)

Eu quase consegui abraçar alguém semana passada. Por um milésimo de segundo eu fechei os olhos e senti meu peito esvaziado de você. Foi realmente quase. Acho que estou andando pra frente.

Ontem ri tanto no jantar, tanto que quase fui feliz de novo. Ouvi uma história muito engraçada sobre uma diretora de criação maluca que fez os funcionários irem trabalhar de pijama. Mas aí lembrei, no meio da minha gargalhada, como eu queria contar essa história para você. E fiquei triste de novo.

Hoje uma pessoa disse que está apaixonada por mim. Quem diria? Alguém gosta de mim. E o mais louco de tudo nem é isso. O mais louco de tudo é que eu também acho que gosto dele. Quase consigo me animar com essa história, mas me animar ou gostar de alguém me lembra você. E fico triste novamente.

Eu achei que quando passasse o tempo, eu achei que quando eu finalmente te visse tão livre, tão forte e tão indiferente, eu achei que quando eu sentisse o fim, eu achei que passaria. Não passa nunca, mas quase passa todos os dias.

Chorar deixou de ser uma necessidade e virou apenas uma iminência. Sofrer deixou de ser algo maior do que eu e passou a ser um pontinho ali, no mesmo lugar, incomodando a cada segundo, me lembrando o tempo todo que aquele pontinho é um resto, um quase não pontinho.

Você, que já foi tudo e mais um pouco, é agora um quase. Um quase que não me deixa ser inteira em nada, plena em nada, tranqüila em nada, feliz em nada.

Todos os dias eu quase te ligo, eu quase consigo ser leve e te dizer: "Ei, não quer conhecer minha casa nova?" Eu quase consigo te tratar como nada. Mas aí quase desisto de tudo, quase ignoro tudo, quase consigo, sem nenhuma ansiedade, terminar o dia tendo a certeza de que é só mais um dia com um restinho de quase e que um restinho de quase, uma hora, se Deus quiser, vira nada. Mas não vira nada nunca.

Eu quase consegui te amar exatamente como você era, quase. E é justamente por eu nunca ter sido inteira pra você que meu fim de amor também não consegue ser inteiro.

Eu quase não te amo mais, eu quase não te odeio, eu quase não odeio aquela foto com aquelas garotas, eu quase não morro com a sua presença, eu quase não escrevo esse texto.

O problema é que todo o resto de mim que sobra, tirando o que quase sou, não sei quem é.

junho 08, 2008

Voltando do hiatus...

(no Weblogger - o falecido - domingo, 8 de junho de 2008)

My Diary:

Não acredito em mudanças repentinas.
Mudanças sempre existem, mas não acontecem da noite para o dia. Mudanças acontecem de forma gradual.
Quem muda repentinamente só pode estar tentando aparecer para alguém, ou finalmente revelando sua real personalidade que vivia oculta num falso moralismo, ou em uma outra falsa personalidade que existia sei lá para quê.
Não entendo a dificuldade que as pessoas têm de serem autênticas.
Por que é que todos devem seguir as massas e estar sempre tentando mostrar alguma coisa para alguém. Por que é que tanta gente usa máscaras?
Fingir ser alguém igual a todo mundo;
Fingir ser alguém que é diferente;
Fingir ser um super moralista porque não tem coragem de assumir que é o oposto;
Fingir ser um moderninho liberal porque não tem coragem de assumir que é moralista;
Fingir ser culto;
Fingir ser ignorante;
Fingir que finge...
Peraí! Somos todos particulares... Temos DNAs diferentes, cores diferentes, doenças diferentes, pensamentos diferentes...
E invariavelmente, todos apreciam o diferente.
Discorda? Pense bem...
É uma realidade. Alguns fingem que desaprovam o diferente... Mas na verdade, sempre são atraídos por ele.
E normalmente, quem finge desaprovar o diferente, é aquele que é igual. E veja bem, que eu não estou contestando o igual... Ser igual também é personalidade... Mas quando esse igual é autentico, não quando ele tenta agradar para se misturar à massas.

Todo mundo gosta de conhecer lugares diferentes, para ver paisagens diferentes e culturas diferentes.
Nossa sociedade, na verdade verdadeira, aprecia o singular. Só não tem coragem de assumir isso.

Vamos lá!
Viva a autenticidade!

Desculpem o abandono do blog...
Sei sei... Estou fora há muito tempo...
Mas também, estava meio sem estímulo.



Humor da Semana:

O que as mulheres fazem quando vão ao banheiro.
Dos seus namorados.
(Tati Bernardi)

Ter camisinha na gaveta é normal, afinal, ele tinha uma vida antes de me conhecer. São oito camisinhas ao todo, se até a próxima sexta continuarem sendo oito, é porque ele não usou nenhuma com outra mulher. Comigo não precisa porque fizemos os exames e eu estou tomando pílula. Pelo no barbeador é normal, anormal seria um barbeador limpo, porque quem limpa gilete é mulher, depois de emprestar sem o namorado saber para deixar o desenho da piriquita bonitinho antes de ir para o quarto. Bom, se a gilete está suja, nenhuma piriquita designer passou por aqui.
Na portinha do espelho não tem espaço para outra escova de dente, o que significa que há muito tempo ele não divide tamanha intimidade com alguém, ou não sabe dividir espaço. Isso é bom ou ruim? Bom, de qualquer forma, eu estou aqui para mudá-lo. E vou comprar um porta-escovas que caibam duas escovas. Aliás, vou comprar uma escova nova para ele, essa aqui tá muito velha. Quantas vezes será que ele já escovou os dentes neste escova depois de transar com outra mulher? Eu odeio essa escova.
Clarice sente a primeira pontada no intestino: o melhor laxante do mundo era vasculhar o banheiro do namorado.
O misto de medo de ser descoberta com medo de descobrir alguma coisa lhe dava cólicas horríveis, o que não era um grande problema já que ela estava no lugar certo para isso.
Enquanto senta no vaso, Clarice aproveita para levantar a tampinha da lixeira, espiar embaixo do carpete e olhar calmamente para os cremes de cabelo no chão do box do chuveiro.
Cremes para cabelo? Mas o seu namorado da semana era quase careca, para que aqueles cremes?
Ué, ela pensa lendo o rótulo do creme e disposta a atirá-lo na parede em poucos minutos: o que o danado faz com creme para amansar os cachos se ele não tem o equivalente na cabeça nem para uma franja?
Clarice parte diretamente para o ralo, este velho amigo das mulheres. Se o ralo tiver um cabelo que precise ser amansado, é ela que vai precisar de remédio para se amansar.
Não, sem chances. De quatro espiando aquele ralo era muita humilhação. Clarice respira fundo, fecha os olhos, conta até três e busca o telefone.
Fernanda atende do outro lado e depois de chamar a amiga de louca, neurótica e mandá-la "sair desta vida", confessa que já fuçou no cesto de roupas sujas de um ex namorado, e para a sua surpresa: achou uma calcinha.
Silêncio no telefone.
Clarice, com o coração e um princípio de vômito na boca, só consegue gemer e desejar desligar o telefone o mais rápido possível, para poder voltar à busca.
Aonde será que fica o cesto de roupas sujas deste sem vergonha?
Espera, deixa eu concluir a história. Sabe de quem era a calcinha?
Da empregada, da secretária, da estagiária, da Gisele, dele mesmo?
Da mãe dele. A mãe dele era coroa cocota filha, usava umas calcinhas mais sexys do que as minhas!
E você não ficou com ciúmes?
Da mãe dele. Ok, desligue este telefone agora e procure ajuda psiquiátrica.
E foi exatamente o que ela fez. Desligou o telefone e ligou para sua amiga Ane, que sempre filosofava tanto em cima de suas psicoses que fazia Clarice se sentir importante por ser maluca.
Sim, claro que é normal você estar neste exato momento vomitando o café da manhã, com piriri e dor de cabeça porque ele tem um creme para cabelos cacheados no boxe do banheiro.
Anormal é você ter se esquecido que ele mora com a filha, que tem longos cabelos cacheados, não?

outubro 20, 2007

Meio a meio

(no Weblogger - o falecido - sábado, 20 de outubro de 2007)


My Diary:

É... Tem muito tempo... E é muito bom, mas... parece que não é tudo!
Satisfaz parte (grande parte) das minhas necessidades.... Mas de confusa que sou, nem tu, nem isso é capaz de me completar...
Um dia hei de me sentir plena, mas sei que este dia está distante.
Sei, leitores, não estão entendendo nada... Devaneios...
Se estou bem? Estou, claro.
Estou no mínimo feliz. Uma semana boa tive, enfim... Nenhum receio... Só descobertas.
E vivo feliz... Estou gostando e vivendo e explodindo de fato!
Ah.. Adoro esta boa companhia!
Leitores meus do coração... bom ter vocês para compartilharem comigo toas as minhas alucinações.
Tudo bem... Acho que estou meio entorpecida!
Boa semana para todos!



Humor da Semana:

O homem da escada
(Tati Bernardi)

Ele comia a professora de power yoga do 43, comia a ex-semivirgem que de tão magra a gente via os pêlos pubianos porque o osso da bacia levantava o biquíni, e comia até a Rose, mãe da Paulinha, mulher casada há 12 anos e meio e que vivia suspirando e esticando os pés de galinha no espelho do elevador.
Um belo dia, o porteiro encheu os olhos de vida e contou para a minha empregada:

“Ele comeu a Dona Silvia na escada do prédio.”

Dona Silvia não prestava nada, até cantavam pra ela da quadra lá embaixo: “Ô Siiiilvia, piraaaanha”. Coisa que os pais devem ter ensinado, porque essa música é velha demais para estar na boca de adolescentes espinhentos que batem playstation todos os dias. O fato é que o porteiro encheu muito os olhos de vida e continuou:

“Deu pra ver tudo pela câmera de segurança, ela ficou de quatro e ele mandou ver, uma, duas, três vezes.”

Não sei ao certo se a máquina sexual em forma de vizinho pagava uma caixinha para o porteiro sair pelo prédio espalhando tantos elogios ao seu desempenho, e por isso mesmo comia todo mundo, ou se aquilo era apenas uma conversa corriqueira na porta da minha cozinha, entre uma canção e outra da rádio evangélica da Maria. Só sei que comecei a gostar tanto do papo, que até sentei pra ouvir melhor.
O porteiro soltou uma imensa gargalhada, transbordou de vez uma louca vida dos seus olhos, e concluiu:

“Antes de largar a Dona Silvia lá, caída no chão, ele fez um tchauzinho pra câmera de segurança, a gente tava tudo lá, eu e os outros, e aplaudimos o Seu Flávio de pé.”

Eu não precisava ouvir mais nada, estava decidido, ia dar pra esse cara, esse cara era o cara, era o comedor, era o homem perfeito pra gente se divertir um pouco enquanto o amor não vem. Era o cara pra esquecer o romantismo e celebrar a vida mundana.
Sim, eu sou uma nova mulher, uma mulher que faz curso de astrologia, yoga, meditação, mitologia. Uma supermulher decidida a morar sozinha, decidida a ser feliz sozinha, decidida a viajar pela Europa, decidida a nunca mais ter um emprego idiota que não permita cursos divertidos, viagens e curtir a minha plena existência. Independente, espiritualizada, analisada, madura... mas, francamente: o cara mandou uma, duas, três na escada, e ainda deu tchauzinho pras câmeras? Que se dane o espírito e a evolução, meu ego precisava trepar com esse ser divino e pronto.
Usei minha tática predileta para comer um homem: um dia, como quem não quer nada, numa dessas cruzadas pelo estacionamento do prédio, contei que era escritora. Não sei explicar o que acontece, mas quando um cara descobre que eu escrevo, é mais de meio caminho andado para querer desesperadamente me conquistar.
Não sou promoter da Lotus e nem faço parte do “super insane guetto no brain mega pop star das supergatas iradas da festa do branco do Sirena”, sou apenas uma escritora que senta a bunda flácida de frente pro laptop e escreve a porra do dia todo. Mas eles não estão nem aí, eles querem comer minhas personagens, minhas putarias, minhas neuroses, a fotinho que sai na coluna da VIP, minhas fãs do Orkut, minhas estranhices, o glamour da literatura, sei lá... “Uma loirinha jeitosinha e ainda sabe escrever mais de um parágrafo sem falar ‘tipo assim, irado’? Desse tipo ainda não experimentei.”
Não deu outra, no mesmo dia, provavelmente após ele ter lido alguma coisa minha (claro que dei todas as pistas), chegou um longo e-mail com mil elogios à minha sensibilidade e um amável convite para ir jantar no dia seguinte.
Topei e corri para o armário: o homem que deu uma, duas, três na escada e ainda deu tchauzinho para a câmera merecia a produção mais sexy do mundo.
Achei estranho quando flores chegaram pela manhã e mais estranho ainda quando ele abriu a porta do carro para mim. Mas tudo bem, daqui a pouco o macho animalesco ia surgir e me comer em cima do capô, atrás da igreja ou no banheiro do restaurante. Aquilo tudo era figuração para prorrogar o clímax e torná-lo ainda mais feroz.
Fez questão de pedir um vinho chique de uma uva sul-africana chique e ainda pediu que acendessem as velinhas da nossa mesa. Segurou minhas mãos, brilhou os olhos e falou cheio de ternura:

“Ontem você me fez chorar.”

Não, não, ele só pode ter confundido o verbo, provavelmente quis dizer: você me fez gozar, me fez ficar louco, me fez ter que dar uma, duas, três no banho, me fez qualquer coisa mais animadinha... mas chorar?
Ele continuou:

“Sabe, não agüento mais essas conquistas vazias pelo mundo a fora, o sexo sem alma, a falta de companhia inteligente para uma vida.”

Mas justo na minha vez? Poxa, a professora de yoga tinha gritado tanto na sauna que deu pra ouvir até no quarto andar seus mantras. Depois ele desvirginou a modelete ossuda que vivia pagando de gatinha na piscina e até eu queria pegar, depois quebrou o galho da Rose que via o mesmo pinto mole há mais de doze anos, e fechou com chave de ouro comendo a Silvia tal qual uma cadela. Justo na minha vez ele ia querer filminho do Hugh Grant embaixo do edredom? O que eu tinha feito para merecer tamanho desprezo?

“Olha, eu vi em você o que eu sempre procurei em uma mulher: profundidade.”

Então, amigo, isso mesmo, profundidade, não vai querer conhecer a minha profundidade agora embaixo da mesa?
Ele passou a noite toda olhando nos meus olhos, sem desviar sequer um segundo para meu decote. Contou da separação dos pais, da dificuldade de engravidar da irmã (aproveitando para deixar claro que ele está louco para ser pai) e do quanto amava os cachorrinhos, a natureza e o amor.
Quando finalmente chegamos juntos ao elevador do nosso prédio, ele apertou seu andar e o meu, matando de vez qualquer esperança minha de ser devorada loucamente naquela noite. Se despediu com cara de bobo e ainda mandou uma mensagem de texto pelo celular quando eu já estava frustradamente deitada na minha cama:

“Foi uma das melhores noites da minha vida.”

Dormi mais uma vez me sentindo usada pelos homens.