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junho 19, 2016

janeiro 18, 2016

Enquanto a calma dorme

Não desarrumar as gavetas que estavam tão bem organizadas.
Não desandar a massa do bolo porque o recheio já está pronto e está muito bom.
Não deixar que as pegadas se apaguem para poder ter direção para voltar.
Não descansar demais o corpo para que ele não se acostume ao ócio.
Não deixar que a boca fique muda, porque as palavras ditas costumavam ser muito bonitas.
Não deixar a sanidade partir porque foi muito difícil trazê-la de volta.

agosto 17, 2015

Mas voltemos à nossa programação.

Fiquei com as pernas formigando por conta da ansiedade que me atacou. Como é que eu posso estar apaixonada por ninguém e ainda assim, me sentir tão fascinada?
Como é possível fechar os olhos e ter certeza de que quero me aconchegar no meio do colo de alguém que não existe, não conheço e que eu ainda não tive tempo de inventar?
No meio de uma noite dedicada a produção acadêmica me vi impedida de traduzir minhas inquietudes porque meu riso me distraiu.
E assim me asseguro de que a vida fica mais interessante quanto menor for o seu sentido.

setembro 20, 2012

Atualização

Porque eu preciso atualizar, e os meus textos andam uma boa porcaria e metade desta crônica descreve minha mente perdida todo fim de semana. A outra metade é só perfeita.



Crônica:

(Paula Pimenta)

Odeio cantadas. Flores não me seduzem. Chocolates então, nem pensar. O que me comove são palavras.
No caminho de casa, passo por uma pista de cooper onde têm barras e aparelhos de ginástica. Em qualquer hora do dia ou da noite, rapazes de se fazer inveja aos galãs globais puxam ferros, correm mais do que para tirar a mãe da forca, levantam pesos, malham até o dedão do pé. Ao lado deles, garotas soltam suspiros para cada flexão de braço, lançam exclamações para cada bíceps trabalhado, fazem votação para definir qual peitoral é o mais sarado. Deixo tudo para elas. Tais rapazes não merecem um segundo olhar meu. Para mim, músculo em excesso é inversamente proporcional à inteligência.
Fim de semana. Depois de muita insistência, aceito o convite das minhas amigas para ir dançar, mesmo sabendo que me arrependerei. Lugar dos infernos. Quente, barulhento, enfumaçado. E ainda por cima tenho que escutar aquela mesma frase: “E aí, gata, vem sempre por aqui?”. Fico na dúvida entre vomitar, sair correndo ou fingir que sou surda. Outra situação: O moço é lindo. Toca violão. Minha família gosta dele. Já estou quase convencida de que é minha alma-gêmea. E então ele me manda um cartão: “Não me canço de te olhar”. É, querido, vai ter que olhar para o outro lado. Cansada estou eu de quem não sabe escrever nem em português.
Mas por que eu sou tão viciada em palavras? Por ter crescido lendo enquanto minhas amigas brincavam de pique-esconde? Por minha primeira paixão ter sido o Cebolinha, nos gibis da Turma da Mônica? Por amar poesia desde que nasci? Não sei. O fato é que me desperta curiosidade quem sabe escrever o que pensa. Garotos que escrevem bem têm um charme diferente. Suas palavras me acariciam de tal forma, que se tornam vitais para minha sobrevivência. Se eles têm tanto cuidado com a escrita, imagine o carinho que teriam comigo… Ah, os homens que sabem escrever! Alguns conseguem ser tão sinestésicos, que chego a perceber a voz deles por entre as linhas.
Os que mais me impressionam são os que adivinham meu pensamento, mesmo sem me conhecer. É indescritível a sensação de ler um texto e me identificar totalmente com as palavras do escritor. É como se ele tivesse roubado a ideia que eu ainda não havia tido, mas que já existia em mim. Emocionante perceber, na medida em que meus olhos vão descendo por sobre o texto, que existe alguém que pensa exatamente como eu. Infelizmente, a recíproca não é verdadeira. O sexo masculino, no geral, ainda se sensibiliza mais com um corpo esculpido do que com a forma que as escritoras dão às suas frases.
No dia em que eu encontrar um que se importe mais com o que eu escrevo do que com a minha embalagem, eu me caso. Desde que a proposta seja feita por escrito. E que por trás daquelas palavras, existam óculos em vez de músculos.

junho 14, 2012

Post para encher linguiça


É, eu falando assim, diretamente. Só para quebrar o costume porque isso aqui estava mesmo abandonado e minha mente alcançou um nível de inquietação que não me permite organizar meus próprios sentimentos e transpô-los em palavras.
Alors...

Acheguei-me para me explicar, porque estou aqui há anos e nunca dei qualquer satisfação. Supus que já passava da hora.

Primeiramente, vou ser muito honesta: não gosto do meu endereço. Mas faz parte da história deste confessionário virtual. Originalmente, em velhos tempos de Weblogger, o endereço era blog_da_dancer. Sim, é constrangedor, mas não pior do que os ponteiros de mouse e os efeitos piscantes que nós encontrávamos no brumaximos e jogávamos em nossos honradíssimos HTML’s.
E "dancer" era meu nick do ICQ, cujo número eu ainda lembro (251244522).
Aí assim, sem que eu saiba explicar o porquê, o endereço se tornou o que pode ser lido hoje na barra de busca. E ele se preservará. Por pura nostalgia e comodismo.
Em segundo lugar, sendo ainda mais franca, fiz este post para mostrar [caso ainda não tenha notado] que este blog tem páginas e que podem ser localizadas no topo do mesmo. Entretenimentos para os intervalos entre as postagens, vê?


O Confessionário: É este velho conhecido sobre o qual não vou discorrer, porque já exponho bastante o meu íntimo aqui.
A Bailarina: Num momento de narcisismo extremo que tive esta semana que acrescentei esta página ao blog. Resolvi falar de mim, na maneira mais nua que consegui me enxergar.
Os prêmios: Houve um tempo em que blogs eram populares, cotidianos e divertidos. Neste tempo, quando o universo blogueiro não se restringia a fashionistas e pseudojornalistas, existiam memes, concursos e tantas outras coisas que mantinham este mundo em movimento. Eu recebi alguns prêmios-memes ao longo destes muitos anos blogando e minha nostalgia me fez ter o ímpeto de dedicar uma página para eles.
O Aprendizado: É o depósito de lições diárias. Porque creio que toda experiência por que se passe carrega em si um ensinamento. E eu absorvo tudo, absolutamente tudo o que me é ensinado. Talvez por querer ser sempre uma pessoa melhor, ou por querer abrandar sofrimentos futuros...
Cada lição aprendida é um comentário que adicionado para ser jamais esquecido.
Mas o legal é que se trada de um espaço aberto para que você [amado leitor] compartilhe também algo que lhe fez refletir e guardar. Somos companheiros virtuais há tantos anos que acho que conhecer-nos melhor seria bem saudável.
Os Favoritos: Listei ali as minhas postagens favoritas desde que o blog foi repensado em 2008 - anterior a isso não tenho registro: um surtei e apaguei todo o histórico antecedente... Coisas da juventude...
É evidente que os textos mais recentes são os melhores. E os mais antigos nem mesmo são bons.
Precisamente por isso estão listados. Foi uma boa forma de acompanhar o desenrolar da minha vida, dos meus dramalhões, dos comentários, da quantidade de comentários, da maturidade dos leitores, da evolução literária, dos interesses... Do caminhar meu e deste blog.


Não sei mais o que escrever ou justificar. Sou acostumada aos meus dramalhões pessoais. Mas discorrer sobre as páginas era uma vontade iminente.

See ya.^^

dezembro 05, 2011

Futilidade

A verdade é que são as carroças vazias que mais fazem barulho.
E ainda existe muita gente barulhenta neste mundo. O que cansa, e muito. O excesso e o volume alto dos espetáculos pessoais invalidam qualquer auto-afirmação.
Fatos não precisam ser repetidos incessantemente para que tenham credibilidade, só precisam ser verdadeiros. Ser bom é o bastante para a divulgação do produto. Já pode abaixar o som.


 Eu busco o silêncio.
(À exceção deste local, só meu, mas que autorizo a visita periodicamente.)



Estou cansada e precisando de movimento, ar, sol e luz. 
Tento voltar em breve se houver tempo e vida em mim.


novembro 25, 2010

Bateu aquela fome?


E quem disse que não é o caos que move nossas vidas?
Não, não é sobre a velha teoria do bater de asas da borboleta, nem a regra da química que diz o sistema tente ao caos e por ele próprio se estabelece a ordem.
Não. Aqui é só aquele caos diário e mínimo, que dá o ar da graça sempre que o tédio e o marasmo se instalam.
Oras, só hipertensos comem comida sem sal.

Nós queremos é molho picante!



Crônica da Semana (vou acabar mudando para "mês" ¬¬')

O Gato Sou Eu
(Fernando Sabino)

- Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.
- Continuou dormindo.
- Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.
- Que espécie de gato?
- Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.
- A que você associa essa imagem?
- Não era uma imagem: era um gato.
- Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?
- Associo a um gato.
- Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.
- Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.
- Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.
- Uma projeção do senhor?
- Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.
- Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.
- Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.
- Em quem o senhor está falando?
- Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.
- Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.
- Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.
- Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?
- Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.
- Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?
- Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.
- E eu insisto em dizer: não é.
- Sou.
- Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.
- Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…
- Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?
- É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.
- Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.
- Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.
- Já disse que o gato sou eu!
- Sou eu!
- Ponha-se para fora do meu gato!
- Ponha-se para fora daqui!
- Sou eu!
- Eu!
- Eu! Eu!
- Eu! Eu! Eu!

agosto 17, 2010

Meu savoir-faire


Com o meu sorriso eu sou uma lição de talento e muito estilo, ninguém tem como não ver o meu savoir-faire.
Sou noveau, robô, romano, grego, rococó, barroco, e pop, e pop... Ah! Eu sou pop! (Alguém me segure!!)
Caras bonitas não surgem à toa - eu me destaco sim na multidão.
Depois de feito quebraram meu molde. Com muita elegância e refinação sou uma alucinação!

Vilões criam confusões, decorem as celas das prisões: o verde combina com qualquer coisa que quiserem, viram?
Tem mais uma coisa que eu quero cantar, abram a boca e gritem sem parar:

CUIDADO!!!!!
Esse é o Maskara!


- Que demais!!! -

julho 25, 2010

Sem Titulo


Queria que as letras escapassem pelos meus lábios da mesma forma com a qual escapavam antigamente. Era fácil e solto, em palavras que rapidamente se tornavam em poesia e que subtamente me emocionavam com situações que eu conhecia de cor. O resultado massageava meu ego, e fazia da palavra escrita uma sina e um vício. E minha labuta.
Não é a falta de aflição, ou dor de qualquer forma. As dores sempre existirão, e irão comigo ao túmulo, eu creio - e de fato, desejo, pois elas temperam minha existência. O problema é o cansaço. Não há mais forças, metáforas ou palavras em mim. É como se a espora batesse e eu não tivesse voz para gritar.
Emudei-me.
Mas não queria. Quero de volta as palavras que aliviavam as angústias e faziam sorrir àqueles que a apreciavam, e a mim, ao ver este efeito.
Ter suavidade nas letras me era tão bom quanto ter na boca mel.



Crônica da Semana:
Porque agora - e como sempre - há certas - e muitas - coisinhas pequenas que me deixam imensamente feliz


Água na boca
(Cléo Araújo)

Refeição de parque temático que se preze deve ter cachorro quente e Coca Cola. De preferência uma de quinhentos mililitros. Nada se compara, no universo dos hot dogs, sandubas de carrinho e hambúrgueres de origem suspeita a uma salsicha de cachorro quente produzida nas dependências de um parque temático. O pão é deliciosamente meio murcho, mas aquele meio do murcho que é a fração perfeita para dar ao conjunto o sabor de cachorro quente de parque, que é exatamente o que se quer quando se procura comida, oras, em um parque. A Coca Cola de máquina tem aquele tanto de gás a menos na medida exata para não ficar choco. São aquelas bolhas faltantes que fazem dele um refrigerante de máquina de parque temático. Único. Dá pra sentir o gosto do gelo. A dupla se completa com umas gotas de mostarda e catchup e um prato de plástico mole, sobre uma mesa de plástico de limpeza duvidosa e uma folha de guardanapo, fina, única, usada com parcimônia para durar até o último gole e a última mordida.

Aí tem o lance da pipoca. A de saquinho, comprada do tio do carrinho, seja na saída da missa, do estádio ou do colégio, é algo que contém um dos sabores mais singulares que conheço. A reação causada entre óleo sem rótulo, lâmpada de 100 watts, milho comprado a granel e papel acinzentado garante um tipo de resultado que pipoca de microondas nenhuma consegue copiar. Que manteiga que nada! A coisa é boa em seu estado puro, cada pipoca contando a história de um amassado da panela de alumínio do tio. Fora o sereno da garagem, onde ele deixa o seu carrinho estacionado durante a noite, ah, deve ter lá o seu papel. Até os piruás são especiais, têm aquele fundo de queimado que explode na boca, deixando uma pitada de sal na ponta da língua.

E bife no almoço de domingo? Se eu fechar os olhos, quase dá para sentir o aroma da frigideira de ferro que só um belo espécime de avó sabe onde encontrar. A mistura é simples: o bife, o sal, a avó, e mais nada. Há um ritual de preparo, é claro, que certamente esconde segredos invisíveis a olho nu. Se você tiver a chance de ver uma avó fritando um bife, pare, segure o queixo e repare: a malemolência com que ela vira o bichinho na frigideira; a idade, envergadura e número de dentes do garfo de virar; o número de viradas... E a manteiga espalhada no fundo da frigideira? Qual sua marca, quanto tempo ficou fora da geladeira? Em que mercadinho foi comprada? Aí, deite os olhos sobre o jeito de espalhar o sal sobre o bife. Dos dois lados, de um lado só? Tudo é variável determinante para o desfecho dessa história. E lá vem ele, ainda crepitante, mesmo fora do fogo, com toda sua suculência, se deitar no meu prato, para sermos felizes para sempre.

De sobremesa, eu fico com o bolo coberto com chantili feito em casa, da mesma altura, diâmetro, peso e dulçor do que a Neuza fez hoje, para comemorar meu aniversário. Eu ainda não o comi, mas nem precisa, porque eu já sei.  O geladinho da nuvem branca do chantili vai chegar primeiro ao céu da boca, dando aquela amanteigada geral. Aí, o pão de ló, levinho, levinho, aerado, fofo. É só com a terceira mastigada que eu vou perceber o leite condensado que foi levemente cozido, só para ganhar uma cor de caramelo a lá doce de leite argentino. E nossa? Calma... Hum, que delícia... O que é isso aqui no meio? Ah, são crocantes inesperados, mini pedaços de castanha do Pará, delicadamente moídas e salpicadas antes que o bolo fosse fechado, encapsulado e coberto. Um gole de um espumante brut, rose, só para dar cor ao copo, vai tilintar na boca, fazendo cócegas ao reagir com o doce, fechando um momento quase poético, definitivamente saboroso.

É água na boca, parabéns para você e nada mais.

fevereiro 24, 2010

Dia Mudo

My Diary:

Onde foi exatamente que larguei o leão que sempre cavalguei?



Crônica da semana:

Um domingo, duas gastinhas - Fábula do amor e seu duplo.
(Xico Sá)

minhas duas gatinhas voltaram no mesmo dia;

a que não era gente ficou, juízo não tinha.

As duas, porém, me fizeram felizes do mesmo jeito;

cada uma me fez bater de um lado do peito.

Uma me deixou nervoso; a outra me fez mais calmo.

Quando a primeira saiu, não enxerguei a outra a um palmo.

Precavido, porém, tranquei uma delas em casa;

perder tem limite, corto-lhe as asas.

Mas a história foi bem bonita: quando descobri uma das meninas, amor à primeira vista, ela me trouxe a felina, que no futuro ajudaria a diminuir a sua própria falta.

outubro 06, 2009

Então...

My Diary:

Não é desinteresse [a respeito do blog]. Vontade eu tenho [ainda a respeito do blog]. Mas falta tempo, inspiração e compreensão do mundo além do eu. Porque meu eu eu sei de cor, conheço e aprecio muito. Mesmo parecendo egocêntrico.
Eu sempre soube que buracos podem ser preenchidos, e de forma muito eficaz e satisfatória. Eu não sei é durante quanto tempo ele permanecerá preenchido ou suportando a grande carga que o vazio exerce sobre ele. E se isso é o suficiente.
Na verdade verdadeira, eu queria saber por que os buracos se abrem.
Eu queria saber tantas coisas e tantas coisas me perturbam que, por hora, pretendo – e tento – só não pensar nelas, ou não as perceber.
Por hora eu fico feliz de saber que eu sei quem eu sou e que sempre soube. E que sempre soube que eu gosto de ser o que eu sempre soube que sou. Mesmo com um pequeno defeitinho.



Crônica da Semana:
(Tati Bernardi porque eu a adoro, porque não tenho criatividade e porque está é fantástica e autoexplicativa.)

Berro em pé
(Tati Bernardi)

Férias antes dos doze anos era coisa de criança, poderia ser incrível ou um fiasco, a depender da programação dos pais, do tempo, das brincadeiras propostas, dos velhos amigos do prédio ou dos novos da praia, fazenda ou o que fosse.
Férias aos doze não dependia mais de pai e mãe e muito menos do tempo lá fora. Eu já tinha um projeto de seio (dois, no caso) e minha saliva tinha engrossado justamente porque eu não comia mais só o que era molhado e mastigado pelos cuidados de quem cuida. O mundo seco me martelava e incendiava o tempo todo e haja liquido próprio pra continuar viva. Foi assim que na última aula do último dia útil do mês de junho, minutos antes do sinal que separava uma classe de setenta e dois alunos das primeiras férias adultas de suas vidas, chegou pra mim um bilhetinho que dizia “quando tocar o sinal é pra berrar e ficar de pé”. Eu olhei para trás e uma infinidade de garotos topetudos e garotas com brincos gigantes rasgando suas orelhas confirmaram o combinado com bochechas rosadas e olhos safados. Eu finalmente era um deles e combinei comigo que gritaria o mais alto que pudesse, pularia o mais alto que pudesse e ainda esmurraria o topo do céu o mais forte possível, como fazem os que vencem alguma coisa depois de muitos anos de sofrimento, semi desistências e vômitos de madrugada.
Faltavam quatro minutos e eu olhava pra trás, agradecida até não poder mais por ter sido chamada a pertencer. Eu, aos doze anos, prestes a devorar a vida como se doze anos fosse ser muito velha e muito terminal e muito tanto que não pudesse ser mais nada, não estava tão sozinha assim no mundo, eu tinha enfim amigos que berrariam comigo, de pé, a chegada de alguma coisa que eu não sabia bem o que era mas que tinha a ver com meus peitos pequenos e meu coração batendo com arritmia de valsa bem no meio das minhas pernas.
“Crescer não precisava doer tanto”, eu lembro que pensei ao sentir, pela primeira vez, que cada canto do mundo podia trazer o perfume da minha mãe. Ainda que o cheiro desse perfume de mãe não fosse o da minha. Crescer pode ser gritar quando não se aguenta e pode ser pular quando não se aguenta e pode ser com amigos já que, enfim, é de não se aguentar mesmo. Eu só perderia a virgindade dez anos depois daquele dia, eu só beijaria na boca dois anos depois daquele dia, eu só me masturbaria pela primeira vez três anos depois daquele dia. Mas aquele dia, lembro bem, eu coloquei meu cabelo atrás da orelha e senti, com o tom da voz mental menos infantil, que a vida podia vir que eu tava pronta e a mataria no peito. Eu não teria dor de barriga. Que venham as férias.
E foi então que o sinal soou e eu berrei, de pé, com os braços muito esticados para o alto. Completamente sozinha. Seguida por caretas, dedos apontados e pelos sons de risos descontrolados, palmas e uivos de todo mundo.
Essa é minha última lembrança antes de me sentir envelhecendo. Como uma criança que comemora sozinha. Como uma louca que não aguenta isso tudo que é tão bom e terrível e não disfarça mandando bilhete anônimo e nem se escondendo em grupos de risos e chacotas. E assim se seguiram todos os meus dias, até aqui. É sempre pra essa cena que volto, quando tenho a impressão muito convincente de que sinto os sinais que tocam com muito mais dor e grito e alegria que as pessoas que ficam na espreita dos que ansiosamente não suportam muito não ser puros.
Na hora eu quis morrer de vergonha, ódio e medo, mas hoje eu vejo que desde o começo eu sabia da maldade mas preferi, como troca justa com o que minha história ainda tinha pra me contar, dar uma chance, até o fim, para que o mundo pudesse me amar do tamanho que a gente ama o mundo aos doze anos.

março 19, 2009

Hibernando

My Diary:

Deu, caros amigos.
Este blog foi pro saco, pro beleléu, pro espaço, e é enterrado temporariamente. Não por falta de neuroses e confissões, pois estas sempre existirão - o que é óbvio para alguém que nasceu com o raro talento de engolir as palavras - mas por pura falta de capacidade de transformar transtornos em caracteres.
Se os últimos posts estavam longe de ser algo aceitável, agora, meus escritos chegaram no máximo da discrepância literária.
Daqui a pouco acabo com o meu "eu lírico", que há muito anda ofendido comigo e está me dando um "gelo".
Enfim, este é o fim temporário. Até que minha mente seja (talvez) capaz de escrever algo que preste novamente.Ou não.
Se não conseugir, eu apelo pra outra coisa.

Enquanto isso, as palavras... Leva-as o vento. [Título deum livro que eu nunca li. E nem quis]


Crônica da Semana:

Mulher Pelada
(Antônio Prata)

Toda sexta-feira ele chegava, num FIAT bege, para buscar a mim e a minha irmã. Pequenininhos, nos encaixávamos nos programas do pai separado e boêmio. Adorávamos: nos bares em que nos levava, éramos paparicados por mulheres bonitas e cheirosas, que riam alto e usavam roupas engraçadas. (Só muito mais tarde fui descobrir que a esse tipo de mulheres dá-se o nome de atrizes). Pedíamos coca, fanta e sprite e misturávamos tudo. Meu pai nos deixava comer pastéis, batatas-fritas, frango à passarinho e todo tipo de besteira, mandando por água abaixo, em minutos, toda a educação nutricional que minha mãe havia imposto durante a semana, com muito esforço, brócolis, sorrisos e papaias.
Nos períodos em que meu pai tinha alguma peça em cartaz, íamos ao teatro todo fim de semana. Lá pelos meus cinco anos, estreou a peça Besame Mucho. Era encenada no teatro Cultura Artística. Fica ali perto da Augusta, em meio a várias casas de strip e outros estabelecimentos cheios de neons e mistério, que eu olhava fascinado. Chegava a sentir uma certa pena do meu pai: o teatro dele me parecia o ponto mais desanimado de toda a rua, ofuscado por fachadas de castelos medievais, onde portas espelhadas davam para corredores esfumaçados e coloridos.
Perguntei o que eram aqueles lugares e meu pai disse que eram bares. Mas por que eram tão diferentes dos outros, em que comíamos frango a passarinho com Guara-cola? Meu pai explicou-me que naqueles bares havia mulheres peladas. Como?! Por que?! Do alto de minha meia década de existência, ?mulher pelada? evocava a imagem de minha mãe ou irmã entrando ou saindo do banho, de toca na cabeça e toalha na mão. Não conseguia imaginar muito bem que razão levaria mulheres nuas a comer pastéis. Meu pai seguiu a explicação, deixando-me ainda mais confuso: homens que não tinham namorada pagavam para ver aquelas mulheres peladas. Imaginei uns caras tristes, barba por fazer, a preencher palavras-cruzadas e bebericar um chope, enquanto mães e irmãs nuas iam e vinham de chuveiros inexistentes. A coisa não fazia o menor sentido. Pedi para irmos a um daqueles bares. Meu pai explicou que era proibido para crianças. Pela primeira vez, alguma coisa pareceu-me lógica. Devia ser para evitar que víssemos aqueles homens tristes e sozinhos, perdidos entre neons e tocas de banho.
Só vinte anos depois atravessei um daqueles corredores. As mulheres eram bem diferentes do que havia imaginado no meio de minha infância, mas os homens estavam lá, exatamente como eu os havia pintado.

setembro 20, 2008

Reticências

My Diary:

O risco maior de quando não se tem assunto. O risco maior de quando não se tem inspiração. O perigo de não se saber o que se quer. O que acontece quando seu blog fica sem conteúdo:
A inércia.


(...)


Stop. A vida parou!


(...)


Que medo de tudo ficar parado.
Horrível essa tal de Inércia.
Ela se apega quando chega.
E o que se faz?
Dorme. E espera que a inércia acorde.
Vamos esperar o sonho despertar, pra agir de novo.
Quem sabe, em uma semana, já se tenha algo para se escrever neste blog?

Perdoem-me...



Poesia da Semana:

(Carlos Drummond de Andrade)

stop
a vida parou
ou foi o automóvel?