É, Dois-Mil-et-Quinze... Você não foi fácil. A promessa era que você viria como uma avalanche, derrubando tudo aquilo de seguro em que se poderia agarrar. Não decepcionou, nem por um segundo.
O dólar subiu. A bolsa caiu.
Fui cuspida, objetificada, maltratada e culpada. Tudo de boca calada, porque é mais seguro. Quase a Geni.
E como a Geni, me pôs sempre conveniente presente. Sempre conveniente ausente. Com falta e saudade até do que não se viveu.
Faltou água.
Faltou comida.
Faltou ânimo, muitas vezes.
Faltou ar.
Foram dores e perdas constantes, e a impotência que os sucede.
Teve insolação. Teve frio. Teve chuva. Teve medo.
E teve solidão. Muita. De ouvir o vento reverberar nas paredes do peito vazio tantas vezes, que os ouvidos se acostumaram ao som.
Teve mesmo muita solidão, Dois-Mil-et-Quinze. Solidão e sono.
Mas quem diria, que neste mesmo ano, em que acordei com a certeza de não mais ser capaz de levantar da cama, eu teria a luz do sol refletindo em meus cabelos e luzindo toda a volta?
A animação que era escassa vinha aos poucos beijar meu rosto cheia de fé, e então foi só olhar com calma...
Aí foi perceber que enquanto uma mão molhava face, e a outra a enxugava com toalha macia.
E teve luta, e teve grito e teve renascimento.
Teve trabalho até o corpo exaurir.
Deu pra amar umas quantas vezes, dos olhos brilharem e a carcaça ficar boba. Deu pra gozar a falta das armas e a vulnerabilidade. Deu para apertar os laços e atar novos nós.
Teve abraço. Teve afeto. Teve riso solto. Teve jazz.
E a solidão deixou de ser sentimento pra virar companhia. E então paz. Finalmente uma paz cheia de sons.
Você, Dois-Mil-et-Quinze, de fato sacudiu o mundo e me virou do avesso. Só, mal sabia, que o avesso é o meu lado certo - sempre foi - e agora já posso ver, de novo, meu reflexo no espelho.
Mal sabia que pra cada rasteira que me passava, havia várias mãos para me segurarem. Mal sabia que aqui, do lado avesso, tem afeto em abundância. E afeto amortece quedas.
Quando você nasceu, Dois-Mil-et-Quinze, eu não imaginava tudo o que viria pela frente. Não dava para especular o quanto tudo mudaria. O quanto o hoje de agora seria tão diferente do hoje de 365 dias atrás.
Eu jamais imaginaria que a paz inerte, dura, pesada e dolorosa do Um-do-um iria em bora à francesa, e em seu lugar viria toda essa reviravolta dramática de novela mexicana em capítulos finais.
Você tentou, Dois-Mil-et-Quinze, mas eu ainda estou aqui, de pé e com fé. Não foi fácil - exatamente como prometeu - mas eu te venci.
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dezembro 31, 2015
julho 20, 2015
Dia do amigo
Em momentos de silêncio e solidão - que na verdade são quase todos desde o dia em que crescemos - chega um intenso e veloz fluxo de pensamentos, sem nenhuma temática específica, e invade a mente com dúvidas, divagações, alucinações diversas, diálogos imaginários, memórias e investigações que não tem qualquer sentido ou relevância.
Eu aqui no meu casulo de desvario, fértil para distrações, alimento-os sem dificuldade, com o melhor do meu tempo e da minha imaginação, sem me dar conta de que, na verdade, tudo não passa de um descaminho. Sábia trilha que minha perspicácia desenha para que eu me perca do mundo terreno, numa tentativa desesperada de tirar o foco daquilo tenho sempre por perto - ou por dentro.
Não que me interesse fugir de mim, ou que me desnudar me assuste de alguma forma, mas talvez porque pareça mais fácil delirar até a plena exaustão mental a penetrar no mundo interno, este sim, legitimamente confuso e complexo, remexido, remoído, destruído e reconstruído tantas vezes.
E então que hoje mais uma vez fiz esforço para não descaminhar: quando quase me perdi, agarrei um fio de sanidade e respirei fundo para mergulhar no lugar que conheço como eu, e vi que meu universo - confuso, complexo, remexido, remoído, destruído e reconstruído tantas vezes - estava (quase) em paz. As divagações estavam todas lá, como sempre, me libertando das limitações humanas. Mas os espaços antes vazios, estavam repletos por afeto, vindo de todas as direções, daqueles que se arriscaram a mergulhar junto comigo. Os responsáveis pela minha tranquilidade ao olhar para as paredes silenciosas da minha casa vazia e não me sentir só. E poder apenas divagar minhas verdades e delírios.
Descobri (e redescubro, com frequência) que tenho dentro de mim pacientes construtores de graça e riso, que cuidam da minha sanidade e a quem posso reconhecer em pequenos detalhes dos meus gestos. A quem me dou desmedidamente, porque os tenho desmedidamente. A quem sou grata pelo afeto que tive, sobretudo, por não merecê-lo. E a quem devo uma medalha de honra ao mérito, por conseguir lidar com tanto descaminho e ainda rir disso.
Eu aqui no meu casulo de desvario, fértil para distrações, alimento-os sem dificuldade, com o melhor do meu tempo e da minha imaginação, sem me dar conta de que, na verdade, tudo não passa de um descaminho. Sábia trilha que minha perspicácia desenha para que eu me perca do mundo terreno, numa tentativa desesperada de tirar o foco daquilo tenho sempre por perto - ou por dentro.
Não que me interesse fugir de mim, ou que me desnudar me assuste de alguma forma, mas talvez porque pareça mais fácil delirar até a plena exaustão mental a penetrar no mundo interno, este sim, legitimamente confuso e complexo, remexido, remoído, destruído e reconstruído tantas vezes.
E então que hoje mais uma vez fiz esforço para não descaminhar: quando quase me perdi, agarrei um fio de sanidade e respirei fundo para mergulhar no lugar que conheço como eu, e vi que meu universo - confuso, complexo, remexido, remoído, destruído e reconstruído tantas vezes - estava (quase) em paz. As divagações estavam todas lá, como sempre, me libertando das limitações humanas. Mas os espaços antes vazios, estavam repletos por afeto, vindo de todas as direções, daqueles que se arriscaram a mergulhar junto comigo. Os responsáveis pela minha tranquilidade ao olhar para as paredes silenciosas da minha casa vazia e não me sentir só. E poder apenas divagar minhas verdades e delírios.
Descobri (e redescubro, com frequência) que tenho dentro de mim pacientes construtores de graça e riso, que cuidam da minha sanidade e a quem posso reconhecer em pequenos detalhes dos meus gestos. A quem me dou desmedidamente, porque os tenho desmedidamente. A quem sou grata pelo afeto que tive, sobretudo, por não merecê-lo. E a quem devo uma medalha de honra ao mérito, por conseguir lidar com tanto descaminho e ainda rir disso.
março 27, 2015
Do despertar
Desamarrei o laço que prendia meus cabelos e permiti que o vento os embaraçasse com liberdade. Pude sentir, um a um, os músculos do cocuruto relaxarem ao se livrarem da força das mechas de cabelo tensionadas ao limite.
Deixei os fios escorregarem soltos pelo meu rosto enquanto desenhavam caracóis no ar, sem que minhas mãos censurassem aqueles que, por ventura, colavam nos meus lábios.
A cabeça virou uma dança. Havia movimento e agitação em toda a volta, para todos os lados, seguindo o vento que não tinha direção definida. Parecia comemoração pela liberdade, até então, tolhida.
Ao mesmo tempo, meu olfato apurou. Aspirou o ar vivo e dançante e percebeu, com prazer, que meus cabelos são perfumados como camomila.
Agora eu estava envolvida pelas pétalas brancas que caíam das flores que tinha presas ao couro, que desfilavam rodopios e perfumavam tudo em volta. E cada vez que tocavam meu rosto a pele ficava serena e receptiva, como se recebesse uma massagem.
Devagar, todos os pelos arrepiavam e se levantavam desenhando trilhas através dos poros, desde os pés até a nuca.
E então os ouvidos puderam ouvir os sussurros de tudo o que havia ali: o chiado dos cabelos que o vento bagunçava, o som dos pelos se erguendo, o barulho das pálpebras fechando e abrindo. O sangue circulando.
Uma festa de sensações movia meu corpo num mundo de descobertas de pequenos detalhes adormecidos. Ali vi, pela última vez, vinte centímetros de cetim vermelho em fita, dançando no ar, em direção ao infinito.
Deixei os fios escorregarem soltos pelo meu rosto enquanto desenhavam caracóis no ar, sem que minhas mãos censurassem aqueles que, por ventura, colavam nos meus lábios.
A cabeça virou uma dança. Havia movimento e agitação em toda a volta, para todos os lados, seguindo o vento que não tinha direção definida. Parecia comemoração pela liberdade, até então, tolhida.
Ao mesmo tempo, meu olfato apurou. Aspirou o ar vivo e dançante e percebeu, com prazer, que meus cabelos são perfumados como camomila.
Agora eu estava envolvida pelas pétalas brancas que caíam das flores que tinha presas ao couro, que desfilavam rodopios e perfumavam tudo em volta. E cada vez que tocavam meu rosto a pele ficava serena e receptiva, como se recebesse uma massagem.
Devagar, todos os pelos arrepiavam e se levantavam desenhando trilhas através dos poros, desde os pés até a nuca.
E então os ouvidos puderam ouvir os sussurros de tudo o que havia ali: o chiado dos cabelos que o vento bagunçava, o som dos pelos se erguendo, o barulho das pálpebras fechando e abrindo. O sangue circulando.
Uma festa de sensações movia meu corpo num mundo de descobertas de pequenos detalhes adormecidos. Ali vi, pela última vez, vinte centímetros de cetim vermelho em fita, dançando no ar, em direção ao infinito.
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maio 30, 2013
O que não faz um par de brincos na orelha direita
Passando batom. Rímel. Blush. E todas essas "feminilidades" que usamos para nos sentirmos melhores do que achamos que somos. Hoje saí armada de cosméticos e promessas de sedução e pele perfeita, e, não é por nada não, mas essa besteirada toda é muito interessante.
Sai toda acreditando-me, caminhando com fulgor até o momento em que olhei o reflexo do retrovisor de um carro, estacionado ao meu caminho, enquanto esperava apara atravessar a rua. Que curioso, o que eu vi.
Naquele reflexo estava eu.
Encontrei ali, muito além de uma máquina de fazer operações matemáticas ou digitar caracteres por segundo. Tinha gente viva ali dentro.
Então tomei meu pulso. Havia pulso aqui, dentro de mim.
Fui percebendo o trabalho de cada um dos meus órgãos e das minhas células. As trocas gasosas nos alvéolos pulmonares, os pulsos elétricos percorrendo todos os meus nervos, os poros se abrindo, minhas mitocôndrias consumindo glicose indiscriminadamente. A temperatura do corpo mudando discretamente. Os músculos da face se articulando com a surpresa das descobertas.
Tão de repente. Tanta certeza de que eu existo de verdade. Tanta coisa que estava perdida e escondida por detrás de uma cortina de razões e preocupações estupidas.
Até que ventou. E eu senti meus cabelos balançarem enquanto fechava meus olhos para deixar o mundo acarinhar minhas têmporas.
Então reacordei do meu mergulho interno e olhei em volta. Perdi o tempo de atravessar a rua. Agora, mais um minuto de espera para chegar ao meu destino.
Pára. Escuta.
Havia tanta gente também.
Gente viva como eu.
Batom. De novo.
Sorriso.
Senti o cheiro da leveza. E sorri de novo. Outra vez, de maneira furtiva.
Estou toda furtiva, tão de repente. Nem vi, e já estava existindo.
Minha dança volta acontecer. Quer ver?
Agora tenho trilha sonora nova.
Se ficar olhando vai me ver dançar.
Música:
(Eu to toda me querendo, toda me sentindo. E a música é vazia demais para dispor a letra de maneira escrita. E não acompanha bem o post. Mas ela é relevante o bastante para aparecer aqui, em algum momento. E me permitam, sou carioca! ;)
Música para ilustrar: Show das Poderosas - Mc Anitta
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fevereiro 06, 2013
Vai abrindo
Resvalo em meio sorriso por entre os olhos da multidão.
Abram alas para mim, que hoje é dia de desfilar os meus melindres!
Vou ouvindo comentários lisonjeiros e deixando que se cheguem aos meus ouvidos. Estou bem, como se vê.
Lancem seus valores no mercado, que eu vou corando as maçãs e largando meu perfume pelo ar.
Sou grata pelo afagos no rosto. Hoje não há ninguém que não os liros e eu - e os enaltecimentos, assovios, os desejos.
Já me bastam, mas só por hoje, tudo isso. O céu ganhou novas cores.
Fiquei grande e não caibo em mim.
Estou assim, como quem pode. Me indo e me vindo de todos os cantos, toda indiscreta.
Dá licença para eu passar aqui com meu encanto, porque hoje eu estou bela.
Crônica:
Para continuar expandindo os conhecimentos literários alternativos. É longa, aviso logo.
O último shot
(Cléo Araújo)
Fazia duas semanas ela tinha um namorado novo.
Amor de pub, amor descoberto ao som de “Secret Smile” de Semisonic. Amor lindo, amor perfeito, amor de remember do final dos anos 1990.
Simplesmente qualquer coisa de tudo.
Apaixonada, descabelada e magra, como sempre quando acometida por aquela dieta de paixão, ela foi viajar. Era uma viagem marcada há tempos, antes de qualquer Secret Smile, Semisonic ou novo namorado existirem. Quase quis não ir, mas foi. Milhas aéreas. Questão de honra. Foi querendo voltar. E voltou, depois de dezoito dias contados pelo México, quando chegou a cumprimentar os passantes em Playa Del Carmen como se vizinhos fossem, preta de sol, morrendo de saudade, cheia de ideias e de pimenta.
Com a memória ainda fresca das misturas inusitadas em Tacos e Burritos, nada poderia ser mais adequado para receber os amigos e o hombre do que um animado e apimentado jantar mexicano.
E foi assim que foi.
Visitas a três supermercados para garantir os melhores ingredientes na manufatura dos pratos.
Tudo comprado e sem assistentes, ela se internou na cozinha.
Primeiro, o guacamole. O abacate estava maduro e fácil de amassar. Coentro, azeite, sal, limão. Pronto. Verde. Depois, a salsa. Pica daqui, pica dali e mais um molhinho aperitivo suculento e ardido estava pronto. O sour cream adaptado: cream cheese com gotinhas de limão. Voillá. Alface picada, cheddar desfiado. Check.
A pobre não tinha sequer começado a se arrumar quando já eram quase cinco da tarde. E ainda faltava ele: o chilly com carne.
Pica mais cebola, pica mais tomate, maceta mais alho. Os dedos não estão cheirosos, não.
Cozinha o feijão na pressão. A cozinha, agora, é uma bagunça aterrorizante.
Refogas, pimentões, cominho, muito cominho. Nessas alturas, sua casa era quase um pedaço do México. Até o armário de roupas cheirava a comida mexicana. Greenleaf Vanilla respingado em almofadas de sachê para deixar tudo doce, tudo como ela queria ser, sempre.
A massa do taco, então, única coisa já comprada pronta, estava na assadeira, só esperando para ser esquentada, pouco antes de ser servida.
As quesadillas estavam montadas. Sim, havia quesadillas. Elas entrariam no forno quando o taco saísse.
Opa, faltava a margherita.
Tequila, limão, Countreau, Arno. Arriba, arriba, ai ai ai!
A mesa estava arrumada, perfeita. Tão, tão linda.
Deu tempo para um banho e um hidratante. Batom, deu. Rímel, não.
Os convidados chegam.
Ele chega.
Eles entram.
Ele entra.
O amor.
Lindo.
Tudo.
Todos se acomodam ao redor de sua mesa de hotel de Cancun.
O namorado se impressiona e ela ama.
Todos começam a saborear suas tortillas com guacamole, ah, o sour cream. E essa salsa? O que tem aqui? O namorado morde o tira-gosto e olha feliz, olha para ela, olha apaixonado. “Seu amor por uma tortilla”.
Ela corre para cozinha, mal participa das animadas conversas à mesa, desculpem, tenho um chilly para assistir. Todos comem e degustam a tequila ao som de Maná, antes de os pratos principais serem servidos. “Sigue llovendo, sigue llovendo al corazón...”.
Os convidados e o namorado insistem para que ela se sente um pouco. Venha, fique aqui com a gente. Não dá. Tá borbulhando. Finalmente, ela concorda. Acomoda-se à cabeceira. Antes de experimentar o guacamole, ou de comer um Doritos, ou de provar a salsa, ou de comer um amendoim, que fosse, ela resolve tomar um shotzinho de tequila.
Um só.
Um shotzinho que era, às nove da noite, o seu café da manhã.
Jose Cuervo, primeiro, pinicou os seus lábios.
Foi escorregando língua, amídalas, esôfago abaixo. Chegou à base da garganta feito um escorpião, deixando um rastro de fogo e anestesia em toda a região. A labareda tormentosa desceu violenta feito Un amor perro de Iñarritu e caiu dentro do seu estômago mais pesada e devastadoramente do que um revolucionário zapatista.
As pessoas à mesa se afastaram como que se passassem para uma dimensão paralela. O espaço-tempo se distorceu. Ela estava a léguas de distância de tudo e de todos em seu delírio tequílico.
Tudo, tudo girou.
Trôpega, magra e semi-sã ela se levantou e correu para a penumbra do seu quarto. Caiu na cama.
Ali, se murió.
Felizmente, estava tudo pronto e tudo quente, como a namorada recente e perfeita deveria fazer, mesmo que pesando 45 quilos.
Mãos amigas (do namorado? - era impossível dizer) visitaram-na semimorta em seu quarto. Checaram sua respiração. Ela respirava. Mas não conseguia falar.
De tempos em tempos, alguém ia zelar por sua sobrevivência. De lá, da cama, ela podia ouvir as conversas animadas e a aprovação de seus pratos. Uma delícia o chilly, muito boas as quesadillas, genial esse guacamole. Mas ela teve só que dormir. Não havia mais nada que pudesse fazer.
Depois desse dia, tudo mudou. Ela nunca mais tomou tequila. Nunca mais fez margherittas. Sempre come pelo menos uma castanha de caju antes de beber qualquer tipo de álcool.
Ainda hoje, prepara jantares mexicanos.
O namoro acabou.
Não pela noite quase perfeita, mas por aquelas imperfeições misteriosas que não se corrigem nem acrescentando todo o sal, todo o coentro ou todo o cominho que há no México.
Abram alas para mim, que hoje é dia de desfilar os meus melindres!
Vou ouvindo comentários lisonjeiros e deixando que se cheguem aos meus ouvidos. Estou bem, como se vê.
Lancem seus valores no mercado, que eu vou corando as maçãs e largando meu perfume pelo ar.
Sou grata pelo afagos no rosto. Hoje não há ninguém que não os liros e eu - e os enaltecimentos, assovios, os desejos.
Já me bastam, mas só por hoje, tudo isso. O céu ganhou novas cores.
Fiquei grande e não caibo em mim.
Estou assim, como quem pode. Me indo e me vindo de todos os cantos, toda indiscreta.
Dá licença para eu passar aqui com meu encanto, porque hoje eu estou bela.
Crônica:
Para continuar expandindo os conhecimentos literários alternativos. É longa, aviso logo.
O último shot
(Cléo Araújo)
Fazia duas semanas ela tinha um namorado novo.
Amor de pub, amor descoberto ao som de “Secret Smile” de Semisonic. Amor lindo, amor perfeito, amor de remember do final dos anos 1990.
Simplesmente qualquer coisa de tudo.
Apaixonada, descabelada e magra, como sempre quando acometida por aquela dieta de paixão, ela foi viajar. Era uma viagem marcada há tempos, antes de qualquer Secret Smile, Semisonic ou novo namorado existirem. Quase quis não ir, mas foi. Milhas aéreas. Questão de honra. Foi querendo voltar. E voltou, depois de dezoito dias contados pelo México, quando chegou a cumprimentar os passantes em Playa Del Carmen como se vizinhos fossem, preta de sol, morrendo de saudade, cheia de ideias e de pimenta.
Com a memória ainda fresca das misturas inusitadas em Tacos e Burritos, nada poderia ser mais adequado para receber os amigos e o hombre do que um animado e apimentado jantar mexicano.
E foi assim que foi.
Visitas a três supermercados para garantir os melhores ingredientes na manufatura dos pratos.
Tudo comprado e sem assistentes, ela se internou na cozinha.
Primeiro, o guacamole. O abacate estava maduro e fácil de amassar. Coentro, azeite, sal, limão. Pronto. Verde. Depois, a salsa. Pica daqui, pica dali e mais um molhinho aperitivo suculento e ardido estava pronto. O sour cream adaptado: cream cheese com gotinhas de limão. Voillá. Alface picada, cheddar desfiado. Check.
A pobre não tinha sequer começado a se arrumar quando já eram quase cinco da tarde. E ainda faltava ele: o chilly com carne.
Pica mais cebola, pica mais tomate, maceta mais alho. Os dedos não estão cheirosos, não.
Cozinha o feijão na pressão. A cozinha, agora, é uma bagunça aterrorizante.
Refogas, pimentões, cominho, muito cominho. Nessas alturas, sua casa era quase um pedaço do México. Até o armário de roupas cheirava a comida mexicana. Greenleaf Vanilla respingado em almofadas de sachê para deixar tudo doce, tudo como ela queria ser, sempre.
A massa do taco, então, única coisa já comprada pronta, estava na assadeira, só esperando para ser esquentada, pouco antes de ser servida.
As quesadillas estavam montadas. Sim, havia quesadillas. Elas entrariam no forno quando o taco saísse.
Opa, faltava a margherita.
Tequila, limão, Countreau, Arno. Arriba, arriba, ai ai ai!
A mesa estava arrumada, perfeita. Tão, tão linda.
Deu tempo para um banho e um hidratante. Batom, deu. Rímel, não.
Os convidados chegam.
Ele chega.
Eles entram.
Ele entra.
O amor.
Lindo.
Tudo.
Todos se acomodam ao redor de sua mesa de hotel de Cancun.
O namorado se impressiona e ela ama.
Todos começam a saborear suas tortillas com guacamole, ah, o sour cream. E essa salsa? O que tem aqui? O namorado morde o tira-gosto e olha feliz, olha para ela, olha apaixonado. “Seu amor por uma tortilla”.
Ela corre para cozinha, mal participa das animadas conversas à mesa, desculpem, tenho um chilly para assistir. Todos comem e degustam a tequila ao som de Maná, antes de os pratos principais serem servidos. “Sigue llovendo, sigue llovendo al corazón...”.
Os convidados e o namorado insistem para que ela se sente um pouco. Venha, fique aqui com a gente. Não dá. Tá borbulhando. Finalmente, ela concorda. Acomoda-se à cabeceira. Antes de experimentar o guacamole, ou de comer um Doritos, ou de provar a salsa, ou de comer um amendoim, que fosse, ela resolve tomar um shotzinho de tequila.
Um só.
Um shotzinho que era, às nove da noite, o seu café da manhã.
Jose Cuervo, primeiro, pinicou os seus lábios.
Foi escorregando língua, amídalas, esôfago abaixo. Chegou à base da garganta feito um escorpião, deixando um rastro de fogo e anestesia em toda a região. A labareda tormentosa desceu violenta feito Un amor perro de Iñarritu e caiu dentro do seu estômago mais pesada e devastadoramente do que um revolucionário zapatista.
As pessoas à mesa se afastaram como que se passassem para uma dimensão paralela. O espaço-tempo se distorceu. Ela estava a léguas de distância de tudo e de todos em seu delírio tequílico.
Tudo, tudo girou.
Trôpega, magra e semi-sã ela se levantou e correu para a penumbra do seu quarto. Caiu na cama.
Ali, se murió.
Felizmente, estava tudo pronto e tudo quente, como a namorada recente e perfeita deveria fazer, mesmo que pesando 45 quilos.
Mãos amigas (do namorado? - era impossível dizer) visitaram-na semimorta em seu quarto. Checaram sua respiração. Ela respirava. Mas não conseguia falar.
De tempos em tempos, alguém ia zelar por sua sobrevivência. De lá, da cama, ela podia ouvir as conversas animadas e a aprovação de seus pratos. Uma delícia o chilly, muito boas as quesadillas, genial esse guacamole. Mas ela teve só que dormir. Não havia mais nada que pudesse fazer.
Depois desse dia, tudo mudou. Ela nunca mais tomou tequila. Nunca mais fez margherittas. Sempre come pelo menos uma castanha de caju antes de beber qualquer tipo de álcool.
Ainda hoje, prepara jantares mexicanos.
O namoro acabou.
Não pela noite quase perfeita, mas por aquelas imperfeições misteriosas que não se corrigem nem acrescentando todo o sal, todo o coentro ou todo o cominho que há no México.
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