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maio 27, 2016

Tudo permanece

Um dia parei e percebi o silêncio que havia em mim.
Eco.
E um enorme vão livre.

Senti que faltava alguma coisa.
Algo havia ido embora e já fazia muito tempo. No tempo em que uma mulher adulta começou a morar dentro do meu espelho.
É como se vida começasse a perder o sentido imediatamente depois da adolescência.
Aos poucos foi tudo ficando mais calmo, mais lógico, silencioso, monocromático, estranhamente pacífico. Sobra a sensação de que as sensações sutilizaram, e fica um ser que não sabe mais - e não se lembra - viver à flor da emoção: finalmente sem sofrimento ou desgaste e livre daquela a indomável frustração da missão falha. No lugar, quedam-se as vantagens da escolha de se resguardar até alcançar o estado de não mais amar ou ter paixão.

Eu tive certeza de que crescer era carregar o corpo - curiosamente ainda vivo - em passos comedidos e ponderados atrás das horas em que, por convenção social, devemos estar de pé.  E ao fim dessas horas (o resto de dia que é seu) se ocupa de um nada sem ânimo ou ânsia. Amadurecer, descobri, era garantir ao passado tudo o que era possível sentir. E ao presente apenas os olhos abertos.

Mas tropecei em um nó de trilha percorrida e caí de nariz bem em frente ao meu espelho de piso. Há poucos milímetros do que perdi.
Sem querer me vi.
Está tudo lá, exatamente onde deixei. Tudo o que acreditei ter esfarelado e esvoaçado com o sopro do tempo ficou escondido e desbotado no fundo do amontoado de vida que joguei por cima. E agora foi descoberto.
Um monte de alma, vida, sonhos bobos, riso de canto de boca e alucinações para antes de dormir.

agosto 18, 2015

Vim sem brinco

Olha, preciso conversar com você.
Não é nada sério, é só pra te dizer que essa é a última vez que eu venho. E também vou cortar contato. Qualquer que seja.
Sabe, isso está começando a ficar gostoso demais pra mim. Dá vontade de esticar o fim de semana aqui, nesse canto da cama, sentindo esse cheiro de lençol até a terça-feira, e levantar só para pegar alguma besteira na geladeira.
Está definitivamente ficando bom demais. Pra mim. E daqui a pouco se torna um hábito.
Eu até concordaria que isso é ótimo e que não faz sentido abandonar algo que está em aprimoramento, mas acontece que é uma via de mão única. É só pra mim. Então antes que me arrume problemas, estou sambando fora!
Eu sei que, por mais que você também ache um deleite esse lambuzar de divagações, gordura, açúcar, gozo e conchinha, eu sou só sexo casual. Para ocupar o tempo que sobrou nos planos.
Não, não se preocupe em negar! É isso mesmo, sim, e não tem qualquer problema nessa relação. Acho super saudável, inclusive! E de forma alguma me isso ofende. Não, enquanto for honesto.
Eu também adoro gastar minha monotonia dessa forma, e adoro saber que sou uma boa companhia. A gente funciona bem nessa coisa, né? O sexo é encaixadinho, papo pós coito flui bem... O papo pré coito também, aliás. Perdoe-me não tê-lo mencionado primeiro.
A gente realmente dá muito certo.
Mas acontece que é isso aí: tudo tem início meio e fim. E esse é o nosso. Acho que concordamos que estamos acabando muito bem.
Eu vou apagar seu número e te bloquear no Facebook, só por segurança. Não se ofenda.
Uma recaída aqui é fácil demais. É obvia, até. E eu sei que você vai me procurar quando estiver à toa numa noite de sábado. É melhor fechar todas as portas e barrar todas as possibilidades, portanto.
Então estou indo. Vou sentir sua falta de uma forma extremamente positiva, e até nostálgica. Sei que vai ter algum momento entre a meia-noite e as duas da manhã em que eu vou olhar o telefone esperando algum contato, mas no segundo seguinte vou me lembrar que ele não vai acontecer, e pego um livro qualquer para ler. Vai ficar tudo bem.
Estou indo de vez
Eu só preciso encontrar meu soutien. Ele foi muito caro e seria uma ótima desculpa para voltar.