Outra vez sol quente e despreocupado deixando preguiçoso o primeiro dia do ano. Não há qualquer diferença no clima ou no ambiente do ocorrido 365 dias e seis horas atrás, mas mesmo assim, os viventes deste planeta trazem consigo a ideia de que tudo mudou, como se houvessem nascido de novo.
Das vivências mais interessantes que posso gozar, tenho essa sensação de calmaria que bate a cada dia um do um, precedendo o ânimo previsível do amanhã - quando a vida recomeça. É como aprontar todas as porções da mente e do corpo, já fora de ordem. Ponho cada sentimento na prateleira certa e cada órgão pronto para seu pleno funcionamento. Reorganizo as expectativas e a calma.
Esse é o único momento do ano em que me encontro verdadeiramente em paz, deitada de costas para o solo olhando para o céu e deixando-o me abraçar: o tão esperado, abafado, dia primeiro. De preguiça e sossego. Onde minha mente guarda silêncio e esperança para tudo começar bem.
Mais uma vez.
Todo ano.
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janeiro 02, 2015
outubro 11, 2014
Cheiro de limão
Tantas vezes quantas eu te vir, tantas serão as vezes que me apaixonarei por você. Garantido.
E então terei uns dias de sorriso bobo nos lábios, depois serão mais uns quantos dias de saudade do teu carinho, até desaparecerem as sensações e eu esquecer de tudo. E sequer lembrar que você está ali no cantinho direito da tela, com a luz verde acesa, junto com os outros contatos do livro de rostos.
A vida vai seguir, em escala de cinza, o curso de sempre. E então, em uma hora inesperada, vai acontecer - como sempre - de o acaso nos colocar frente a frente de novo e todo o ciclo recomeçará. Uma delícia de ciclo, aliás, que vai me garantir leveza e gozo por mais alguns dias.
Essa coisa gostosa que a gente vive - amor que só tem a parte boa: de paixão, saudade e beijo - durará o tempo que o tempo resolver que deve durar. Não tem previsão. Vai do plano dos astros de nos tirar, um pouco que seja, do tédio e da rotina. E leva em seguida, tudo embora sem despedidas. Sem drama ou rancor.
Por enquanto estou ainda no riso abobado que não sai do rosto. Com a memória do cheiro de limão do chão da sua casa e uma vontade danada de você aqui pertinho.
E ansiosa para que tudo isso passe, para que você possa me apaixonar de novo.
E então terei uns dias de sorriso bobo nos lábios, depois serão mais uns quantos dias de saudade do teu carinho, até desaparecerem as sensações e eu esquecer de tudo. E sequer lembrar que você está ali no cantinho direito da tela, com a luz verde acesa, junto com os outros contatos do livro de rostos.
A vida vai seguir, em escala de cinza, o curso de sempre. E então, em uma hora inesperada, vai acontecer - como sempre - de o acaso nos colocar frente a frente de novo e todo o ciclo recomeçará. Uma delícia de ciclo, aliás, que vai me garantir leveza e gozo por mais alguns dias.
Essa coisa gostosa que a gente vive - amor que só tem a parte boa: de paixão, saudade e beijo - durará o tempo que o tempo resolver que deve durar. Não tem previsão. Vai do plano dos astros de nos tirar, um pouco que seja, do tédio e da rotina. E leva em seguida, tudo embora sem despedidas. Sem drama ou rancor.
Por enquanto estou ainda no riso abobado que não sai do rosto. Com a memória do cheiro de limão do chão da sua casa e uma vontade danada de você aqui pertinho.
E ansiosa para que tudo isso passe, para que você possa me apaixonar de novo.
fevereiro 22, 2012
Fish eye
Céu azul muito vivo ainda, apesar de já estar em vias de despedir-se naquela preguiça pré pôr-do-Sol. O vento desfila constante, sem pressa e com êxito em levar embora o pouco calor que o sol, já fraco, consegue derramar na pele das pessoas que ocupam aquele espaço. Ondas quebram bem decididas, mas lambem o solo com a espuma correndo cansada, assim, lenta como as palavras do senhor que bebe demoradamente sua cerveja. A água traz o cheiro da maresia. E eu, com as mãos alisando a areia grossa e fofa, a cabeça recostada no travesseiro natural preparado com cuidado, o corpo muito relaxado e a mente quase perdida, observo o tempo, sem pensar que ele passa.
Por alguns minutos tudo pára. Até mesmo a tarde, se arrastando e partindo devagar rumo ao horizonte.
Durante estes calmos minutos, antecedentes ao crepúsculo, o tempo parou. Ficamos só eu e o vento me abraçando. Eu - com a cabeça mirando para o alto - observando como numa lente olho-de-peixe este céu desmedido e forte, me envolvendo com suas nuvens ralas.
O tempo realmente parou. As poucas pessoas do entorno não se movem, não há música, não há qualquer pensamento, não há nada além desta paz, deste silêncio e destas nuvens se movendo em círculos através das minhas lentes.
Por estes poucos minutos não senti pressa nem pensamentos, não refleti a vida. Eu simplesmente existi, na exata simplicidade da existência. Sou um corpo cheio de coisa alguma, que olha para o alto e tem certeza de que o mundo é redondo e que o céu o envolve. E me envolve.
Nem mesmo medito meu sossego. Está tudo pleno, parado e preguiçosamente vivo, já se despedindo. Quase bocejando um boa noite.
Quase bocejando um "até a próxima".
Até a próxima, paz. O Sol se põe e a vida tem de começar.
Texto:
Pais e filhos maridos e esposas II (Trecho)
(Fabrício Carpinejar)
Meu maior medo é viver sozinho e não ter fé para receber um mundo diferente e não ter paz para se despedir. Meu maior medo é almoçar sozinho, jantar sozinho e me esforçar em me manter ocupado para não provocar compaixão dos garçons. Meu maior medo é ajudar as pessoas porque não sei me ajudar. Meu maior medo é desperdiçar espaço em uma cama de casal, sem acordar durante a chuva mais revolta, sem adormecer diante da chuva mais branda. Meu maior medo é a necessidade de ligar a tevê enquanto tomo banho. Meu maior medo é conversar com o rádio em engarrafamento. Meu maior medo é enfrentar um final de semana sozinho depois de ouvir os programas de meus colegas de trabalho. Meu maior medo é a segunda-feira e me calar para não parecer estranho e anti-social. Meu maior medo é escavar a noite para encontrar um par e voltar mais solteiro do que antes. Meu maior medo é não conseguir acabar uma cerveja sozinho. Meu maior medo é a indecisão ao escolher um presente para mim. Meu maior medo é a expectativa de dar certo na família, que não me deixa ao menos dar errado. Meu maior medo é escutar uma música, entender a letra e faltar uma companhia para concordar comigo. Meu maior medo é que a metade do rosto que apanho com a mão seja convencida a partir com a metade do rosto que não alcanço. Meu maior medo é escrever para não pensar.
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