Eu já senti muita falta... Mas não lembro mais de quê.
A falta daquilo que faltou
(Ricardo Coiro)
Sinto um bocado de falta da sua boca e de como só ela sabia calar os meus problemas mais gritantes. Sinto um punhado de falta dos seus punhos e de ter que segurá-los para impedir que seu ciúme em forma de tapa espatifasse ardentemente em minha cara.
Sinto falta de procurar seus pés frios debaixo daqueles lençóis embolados enquanto compartilhávamos nossas insônias e controlávamos nossa respiração ansiosa, tentando, sem sucesso, fingir que dormíamos. Sinto falta dos seus livros coloridos e inutilmente ancorados em minha estante e de tudo aquilo que deixou não lido em um só instante.
Sinto falta das fotos que não tiramos em meio às muitas viagens, que nem sequer fizemos. Sinto falta dos muitos planos que hoje, sem você, nem sentido mais possuem. Sinto falta da casa em que nem chegamos a morar, da lareira que nunca tivemos a chance de acender, do cachorro sonolento que deixamos arranhando aquela vitrine abafada e das tantas coisas que queríamos para nós e não deram em absolutamente nada.
Sinto falta da geladeira vermelha que nunca foi nossa, dos ímãs bregas que nunca tiveram casa e dos potes de sorvetes que, agora, muito provavelmente já derreteram ou passaram do prazo de validade. Sinto muita falta daquilo que só foi feto, mas nunca nasceu de fato. Sinto falta do tanto que faltou em nossas festas. Dos brigadeiros que nunca enrolamos juntos e das velas que nem chegamos a acender para então, quem sabe, ter a chance imperdível de assoprar.
Sinto falta dos amigos que faltaram em nossos jantares, que foram adiados antes mesmo de o salmão descongelar e de a massa da torta resolver crescer. Sinto falta de nós. Sinto falta dos nossos insolvíveis nós. Sinto falta do seu timbre suave em minha voz e de tudo aquilo que abandonamos em nossos passos corajosos lá de atrás.
Sinto falta da jabuticabeira carregada de frutos, que não passou de semente em nossa mente, e das mentiras que ficaram enterradas entre nossos dentes manchados de uva fermentada. Sinto falta daquilo que o padre nem disse e do “sim”, que nunca pude gaguejar de cima do altar. Quer saber mesmo? Sinto falta daquilo que nem fizemos e das infinitas coisas que fizemos de conta que faríamos.
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fevereiro 01, 2015
julho 02, 2014
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Eu e você éramos uma espécie de erva daninha. Crescíamos espontânea e involuntariamente um no coração do outro e arrancávamos as flores que foram cuidadosamente cultivadas.
Não havia veneno nem remédio. Há um ditado que diz que "o que não tem remédio, remediado está". É mentira, nada estava remediado ou curado nem nunca estaria.
Nós nos machucávamos tanto, mas, de tanto amor que sentíamos, passamos a amar também as feridas que causávamos um no outro.
Eu não queria mais sentir esse amor e você queria me arrancar de dentro de si. Esse amor era um vício e,como os viciados, não conseguíamos nos livrar. Não havia clínica de reabilitação para amor doído.
Chorei durante semanas (ou meses, fiquei perdida no tempo) quando percebi que, embora esse amor fosse maior que eu, maior que você, maior até que nosso orgulho e vergonha na cara, eu já não te queria mais, mesmo sabendo que sua ausência me causaria dores terríveis e, provavelmente, um arrependimento eterno.
A verdade é que eu te amava, com todas as minhas forças (e fraquezas), mas não estava mais apaixonada por você.
Texto de Thatii Conde
Não havia veneno nem remédio. Há um ditado que diz que "o que não tem remédio, remediado está". É mentira, nada estava remediado ou curado nem nunca estaria.
Nós nos machucávamos tanto, mas, de tanto amor que sentíamos, passamos a amar também as feridas que causávamos um no outro.
Eu não queria mais sentir esse amor e você queria me arrancar de dentro de si. Esse amor era um vício e,como os viciados, não conseguíamos nos livrar. Não havia clínica de reabilitação para amor doído.
Chorei durante semanas (ou meses, fiquei perdida no tempo) quando percebi que, embora esse amor fosse maior que eu, maior que você, maior até que nosso orgulho e vergonha na cara, eu já não te queria mais, mesmo sabendo que sua ausência me causaria dores terríveis e, provavelmente, um arrependimento eterno.
A verdade é que eu te amava, com todas as minhas forças (e fraquezas), mas não estava mais apaixonada por você.
Texto de Thatii Conde
abril 27, 2013
Labirinto
Não há nunca desfecho nesse fio de vida que se construiu aqui. Tornamo-nos uma lama, um emaranhado de conflitos, alma misturada que não permite conclusão.
Confundi-me com o que sou, com o que me pertence e o que pertence a ti. Agora não há sentido, nem distinção. A única previsão que pude fazer para nós, é que nada nos é definitivo, em começo ou em fim. Nos embolaremos os pêlos do corpo e os batimentos cardíacos enquanto nos preservarmos insanos. E continuaremos evitando tocar no assunto tão delicado e difícil da nossa situação. Quem somos?
Quem nos tornamos?
Sem certezas do que existe, apenas com as certezas da inexistência da razão em toda aquela ausência forçada, fomos levados a seguir a direção do vento dominante e aceita-la.
É impossível te dizer adeus e achar solução para nós. Seremos sede, carne, sal, saliva, lágrima, êxtase e interdependência para sempre, e para sempre seguiremos misturando-nos.
A razão se perdeu na minha vida, e isso é absolutamente desimportante.
Não pude dar adeus para você e assim a vida segue.
E seguirá.
E seguiremos até o badalar dos sinos e os carinhos de boa noite.
Texto:
Como é mesmo o nome?
(Marina Colasanti)
Levou o manequim de madeira à festa porque não tinha companhia e não queria ir sozinho.
Gravata bordeaux, seda. Camisa pregueada, cambraia. Terno riscado, lã. Tudo do bom. Suas melhores roupas na madeira bem talhada, bem lixada, bem pintada, melhor corpo. Só as meias um pouco grossas, o que porém se denunciaria apenas se o manequim cruzasse as pernas. Para o nariz firmemente obstruído, um lenço no bolsinho.
No relógio de ouro do pulso torneado, a festa já tinha começado há algum tempo.
Sorridentes, os donos da casa se declararam encantados por ter ele trazido um amigo.
— Os amigos dos nossos amigos são nossos amigos — disseram saboreando a generosidade da sua atitude. E o apresentaram a outros convidados, amigos e amigos de nossos amigos. Todos exibiram os dentes em amável sorriso.
Recebeu o copo de uísque, sua senha. E foi colocado no canto esquerdo da sala, entre a porta e a cômoda inglesa, onde mais se harmonizaria com a decoração. A meia hilaridade pintada com tinta esmalte e reforçada com verniz náutico exortava outras hilaridades a se manterem constantes, embora nenhuma alcançasse idêntico brilho. Abriam-se os transitórios vizinhos em amenidades que o compreensivo calar-se do outro logo transformava em confidências. Enfim alguém que sabia ouvir. Relatos sibilavam por entre gengivas à mostra e se perdiam em quase espuma na comissura dos lábios. Cabeças aproximavam-se, cúmplices. Apertavam-se as pálpebras no dardejado do olhar. O ruge, o seio, o ventre, a veia expandida palpitavam. O gelo no uísque fazia-se água.
A própria dona da casa ocupou-se dele na refrega de gentilezas. Trocou-lhe o copo ainda cheio e suado por outro de puras pedras e âmbar. Atirou-se à conversa sem preocupações de tema, cuidando apenas de mantê-lo entretido. Do que logo se arrependeu, naufragando na ironia do sorriso que lhe era oferecido de perfil. A necessidade de assunto mais profundo levou-a à única notícia lida nos últimos meses. E nela avançou estimulada pelo silêncio do outro, logo úmida de felicidade frente a alguém que finalmente não a interrompia. No mais frondoso do relato o marido, entre convivas, a exigiu com um sinal. Afastou-se prometendo voltar.
O brilho de uma calvície abandonou o centro da sala e coruscou a seu lado, derramando-lhe sobre o ombro confissões impudicas, relato de farta atividade extraconjugal. Sem obter comentários, sequer um aceno, o senhor louvou intimamente a discrição, achando-a, porém, algo excessiva entre homens. Homens menos excessivos aguardavam em outros cantos da sala a repetição de suas histórias.
Não acendeu o cigarro de uma dama e esta ofendeu-se, já não havia cavalheiros como antigamente. Não acendeu o cigarro de outra dama e esta encantou-se, sabia bem o que se esconde atrás de certo cavalheirismo de antigamente. Os cinzeiros acolheram os cigarros sem uso.
Um cavalheiro sentiu-se agredido pelo seu desprezo. Um outro pela sua superioridade. Um doutor enalteceu-lhe a modéstia. Um senhor acusou-lhe a empáfia. E o jovem que o segurou pelo braço surpreendeu-se com sua rígida força viril.
Nenhum suor na testa. Nenhum tremor na mão. Sequer uma ponta de tédio. Imperturbável, o manequim de madeira varava a festa em que os outros aos poucos se descompunham.
Já não eram como tinham chegado. As mechas escapavam, amoleciam os colarinhos, secreções escorriam nas peles pegajosas. Só os sorrisos se mantinham, agora descorados.
No relógio torneado do pulso rijo a festa estava em tempo de acabar.
As mulheres recolhiam as bolsas com discrição. Os amigos, os amigos dos amigos, os novos amigos dos velhos amigos deslizavam porta afora.
Mais tarde, a dona da casa, tirando a maquilagem na paz final do banheiro, dedos no pote de creme, comentava a festa com o marido.
— Gostei — concluiu alastrando preto e vermelho no rosto em nova máscara —, gostei mesmo daquele convidado, aquele atencioso, de terno riscado, aquele, como é mesmo o nome?
Confundi-me com o que sou, com o que me pertence e o que pertence a ti. Agora não há sentido, nem distinção. A única previsão que pude fazer para nós, é que nada nos é definitivo, em começo ou em fim. Nos embolaremos os pêlos do corpo e os batimentos cardíacos enquanto nos preservarmos insanos. E continuaremos evitando tocar no assunto tão delicado e difícil da nossa situação. Quem somos?
Quem nos tornamos?
Sem certezas do que existe, apenas com as certezas da inexistência da razão em toda aquela ausência forçada, fomos levados a seguir a direção do vento dominante e aceita-la.
É impossível te dizer adeus e achar solução para nós. Seremos sede, carne, sal, saliva, lágrima, êxtase e interdependência para sempre, e para sempre seguiremos misturando-nos.
A razão se perdeu na minha vida, e isso é absolutamente desimportante.
Não pude dar adeus para você e assim a vida segue.
E seguirá.
E seguiremos até o badalar dos sinos e os carinhos de boa noite.
Texto:
Como é mesmo o nome?
(Marina Colasanti)
Levou o manequim de madeira à festa porque não tinha companhia e não queria ir sozinho.
Gravata bordeaux, seda. Camisa pregueada, cambraia. Terno riscado, lã. Tudo do bom. Suas melhores roupas na madeira bem talhada, bem lixada, bem pintada, melhor corpo. Só as meias um pouco grossas, o que porém se denunciaria apenas se o manequim cruzasse as pernas. Para o nariz firmemente obstruído, um lenço no bolsinho.
No relógio de ouro do pulso torneado, a festa já tinha começado há algum tempo.
Sorridentes, os donos da casa se declararam encantados por ter ele trazido um amigo.
— Os amigos dos nossos amigos são nossos amigos — disseram saboreando a generosidade da sua atitude. E o apresentaram a outros convidados, amigos e amigos de nossos amigos. Todos exibiram os dentes em amável sorriso.
Recebeu o copo de uísque, sua senha. E foi colocado no canto esquerdo da sala, entre a porta e a cômoda inglesa, onde mais se harmonizaria com a decoração. A meia hilaridade pintada com tinta esmalte e reforçada com verniz náutico exortava outras hilaridades a se manterem constantes, embora nenhuma alcançasse idêntico brilho. Abriam-se os transitórios vizinhos em amenidades que o compreensivo calar-se do outro logo transformava em confidências. Enfim alguém que sabia ouvir. Relatos sibilavam por entre gengivas à mostra e se perdiam em quase espuma na comissura dos lábios. Cabeças aproximavam-se, cúmplices. Apertavam-se as pálpebras no dardejado do olhar. O ruge, o seio, o ventre, a veia expandida palpitavam. O gelo no uísque fazia-se água.
A própria dona da casa ocupou-se dele na refrega de gentilezas. Trocou-lhe o copo ainda cheio e suado por outro de puras pedras e âmbar. Atirou-se à conversa sem preocupações de tema, cuidando apenas de mantê-lo entretido. Do que logo se arrependeu, naufragando na ironia do sorriso que lhe era oferecido de perfil. A necessidade de assunto mais profundo levou-a à única notícia lida nos últimos meses. E nela avançou estimulada pelo silêncio do outro, logo úmida de felicidade frente a alguém que finalmente não a interrompia. No mais frondoso do relato o marido, entre convivas, a exigiu com um sinal. Afastou-se prometendo voltar.
O brilho de uma calvície abandonou o centro da sala e coruscou a seu lado, derramando-lhe sobre o ombro confissões impudicas, relato de farta atividade extraconjugal. Sem obter comentários, sequer um aceno, o senhor louvou intimamente a discrição, achando-a, porém, algo excessiva entre homens. Homens menos excessivos aguardavam em outros cantos da sala a repetição de suas histórias.
Não acendeu o cigarro de uma dama e esta ofendeu-se, já não havia cavalheiros como antigamente. Não acendeu o cigarro de outra dama e esta encantou-se, sabia bem o que se esconde atrás de certo cavalheirismo de antigamente. Os cinzeiros acolheram os cigarros sem uso.
Um cavalheiro sentiu-se agredido pelo seu desprezo. Um outro pela sua superioridade. Um doutor enalteceu-lhe a modéstia. Um senhor acusou-lhe a empáfia. E o jovem que o segurou pelo braço surpreendeu-se com sua rígida força viril.
Nenhum suor na testa. Nenhum tremor na mão. Sequer uma ponta de tédio. Imperturbável, o manequim de madeira varava a festa em que os outros aos poucos se descompunham.
Já não eram como tinham chegado. As mechas escapavam, amoleciam os colarinhos, secreções escorriam nas peles pegajosas. Só os sorrisos se mantinham, agora descorados.
No relógio torneado do pulso rijo a festa estava em tempo de acabar.
As mulheres recolhiam as bolsas com discrição. Os amigos, os amigos dos amigos, os novos amigos dos velhos amigos deslizavam porta afora.
Mais tarde, a dona da casa, tirando a maquilagem na paz final do banheiro, dedos no pote de creme, comentava a festa com o marido.
— Gostei — concluiu alastrando preto e vermelho no rosto em nova máscara —, gostei mesmo daquele convidado, aquele atencioso, de terno riscado, aquele, como é mesmo o nome?
abril 24, 2012
Foi
A verdade é que você foi feito para passar. Não para ficar aqui. E eu me iludo achando que vale a pena manter-te por perto, mas você foi criado para soprar ensinamentos no meu rosto e ir embora junto do vento. Só para eu aprender a ser mais forte, mais certa e mais eu. Porque não fosse você, seria ainda muito menina, com dúvidas sobre a vida e medo de caminhar.
Ainda bem que você veio, mas espero ansiosamente que você passe logo e me deixe seguir. Insistir em você seria como me algemar à palmatória. Autoflagelação.
Quase autopiedosa. Como quem procura um motivo para sofrer e poder lamentar a vida.
Não vale a pena guardar-te porque ficam escassas as razões pelas quais te trouxe aqui e se acentuam as razões pelas quais te quis fora. Você foi feito para passar. Para que eu enxergasse o que vale e o que não vale nada.
Texto:
Trecho de carta
(Caio F. Abreu)
"Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim."
Ainda bem que você veio, mas espero ansiosamente que você passe logo e me deixe seguir. Insistir em você seria como me algemar à palmatória. Autoflagelação.
Quase autopiedosa. Como quem procura um motivo para sofrer e poder lamentar a vida.
Não vale a pena guardar-te porque ficam escassas as razões pelas quais te trouxe aqui e se acentuam as razões pelas quais te quis fora. Você foi feito para passar. Para que eu enxergasse o que vale e o que não vale nada.
Texto:
Não consegui, sob hipótese alguma, descobrir a quem esta carta foi endereçada, nem qual a sua versão original. Vejam bem, a internet é um lugar confuso onde tudo está sujeito a plágio e alteração.
Trecho de carta
(Caio F. Abreu)
"Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim."
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Tristeza
março 08, 2012
Dia Internarcional para quem?
(Pelo dia de hoje, o melhor e mais cabível texto, escolhido por votação de uma pessoa só.)
Texto:
Dispenso Esta Rosa
(Marjorie Rodrigues)
Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: "parabéns".
Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.
Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.
Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade – da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia
de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.
A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro. Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.
Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.
Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam.
Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo?
Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões)
têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?
Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades.
Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10º lugar entre 130 países. As mulheres têm11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso – onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.
A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou
18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor… ). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca.
Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”.
Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama.
“Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.
Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência,
estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.
Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem.
Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas.
Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir.
Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio, isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.
Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.
… Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu.
fevereiro 22, 2012
Fish eye
Céu azul muito vivo ainda, apesar de já estar em vias de despedir-se naquela preguiça pré pôr-do-Sol. O vento desfila constante, sem pressa e com êxito em levar embora o pouco calor que o sol, já fraco, consegue derramar na pele das pessoas que ocupam aquele espaço. Ondas quebram bem decididas, mas lambem o solo com a espuma correndo cansada, assim, lenta como as palavras do senhor que bebe demoradamente sua cerveja. A água traz o cheiro da maresia. E eu, com as mãos alisando a areia grossa e fofa, a cabeça recostada no travesseiro natural preparado com cuidado, o corpo muito relaxado e a mente quase perdida, observo o tempo, sem pensar que ele passa.
Por alguns minutos tudo pára. Até mesmo a tarde, se arrastando e partindo devagar rumo ao horizonte.
Durante estes calmos minutos, antecedentes ao crepúsculo, o tempo parou. Ficamos só eu e o vento me abraçando. Eu - com a cabeça mirando para o alto - observando como numa lente olho-de-peixe este céu desmedido e forte, me envolvendo com suas nuvens ralas.
O tempo realmente parou. As poucas pessoas do entorno não se movem, não há música, não há qualquer pensamento, não há nada além desta paz, deste silêncio e destas nuvens se movendo em círculos através das minhas lentes.
Por estes poucos minutos não senti pressa nem pensamentos, não refleti a vida. Eu simplesmente existi, na exata simplicidade da existência. Sou um corpo cheio de coisa alguma, que olha para o alto e tem certeza de que o mundo é redondo e que o céu o envolve. E me envolve.
Nem mesmo medito meu sossego. Está tudo pleno, parado e preguiçosamente vivo, já se despedindo. Quase bocejando um boa noite.
Quase bocejando um "até a próxima".
Até a próxima, paz. O Sol se põe e a vida tem de começar.
Texto:
Pais e filhos maridos e esposas II (Trecho)
(Fabrício Carpinejar)
Meu maior medo é viver sozinho e não ter fé para receber um mundo diferente e não ter paz para se despedir. Meu maior medo é almoçar sozinho, jantar sozinho e me esforçar em me manter ocupado para não provocar compaixão dos garçons. Meu maior medo é ajudar as pessoas porque não sei me ajudar. Meu maior medo é desperdiçar espaço em uma cama de casal, sem acordar durante a chuva mais revolta, sem adormecer diante da chuva mais branda. Meu maior medo é a necessidade de ligar a tevê enquanto tomo banho. Meu maior medo é conversar com o rádio em engarrafamento. Meu maior medo é enfrentar um final de semana sozinho depois de ouvir os programas de meus colegas de trabalho. Meu maior medo é a segunda-feira e me calar para não parecer estranho e anti-social. Meu maior medo é escavar a noite para encontrar um par e voltar mais solteiro do que antes. Meu maior medo é não conseguir acabar uma cerveja sozinho. Meu maior medo é a indecisão ao escolher um presente para mim. Meu maior medo é a expectativa de dar certo na família, que não me deixa ao menos dar errado. Meu maior medo é escutar uma música, entender a letra e faltar uma companhia para concordar comigo. Meu maior medo é que a metade do rosto que apanho com a mão seja convencida a partir com a metade do rosto que não alcanço. Meu maior medo é escrever para não pensar.
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Fabrício Capinejar,
Reflexão,
Texto
julho 22, 2011
"É quando a gente sabe muito bem o que quer, mas acha que devia querer outra coisa"
Todo dia ela acorda disposta a não errar mais o caminho para casa. Acorda sabendo para onde ir, estuda todo o roteiro antes de partir e vai finalmente trilhar o caminho certo. O caminho que ela sabe que é certo. Que lhe disseram ser certo. O certo... Mas nunca o caminho que ela quer seguir.
Infla o peito e segue, com certeza e dor. Ao longo do caminho vai deixando as migalhas da sua coragem para alimentar os pássaros. Quando acabam, ela deixa seu próprio amor. E quanto mais caminha, mais se se perde numa trilha que se tranforma num fio de cabelo castanho. E se torna uma artista de circo, a malabarista tão maquiada se equilibrando na corda bamba dos seus cabelos.
Distrai-se. Entranha-se nestas ondas incertas e quanto mais caminha mais errada vai ficando e também mais distante da salvação de que tanto precisa. Uma salvação triste e indesejada, que arde os olhos como cal soprada.
Até o fim da linha ela já se esqueceu de todo o mapa e perdeu todo o seu planejamento. Está longe de casa mais uma vez.
Atrás, só as migalhas que deixou, marcando o caminho de volta para lugar nenhum. Agora não tem mais dor, ou coragem, ou amor, ou sentimento qualquer.
Volta o corpo e começa a catar as partes que deixou. De coragem e certeza. O coração deixa. Ela não precisa mais.
Texto:
Os Sentimentos
(Mário Prata)
Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue;
Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo;
Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego;
Preocupação é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair de seu pensamento;
Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa;
Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára;
Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista;
Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora;
Ansiedade é quando sempre faltam muitos minutos para o que quer que seja;
Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogaçãono final do sentimento;
Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes;
Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração;
Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma;
Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros;
Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia;
Lucidez é um acesso de loucura ao contrário;
Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato;
Sentimento é a linguagem que o coração usa quando precisa mandar algum recado;
Vontade é um desejo que cisma que você é casa dela;
Paixão é quando apesar da palavra "perigo" o desejo chega e entra;
Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado...
Amor é um exagero...
Também não.
Um dilúvio , um mundaréu, uma ansiedade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?
Talvez porque não tenha sentido, talvez porque não tem explicação, esse negócio de amor não sei explicar.
Sentir é simplesmente estar vivo......viva!!!
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agosto 17, 2010
Meu savoir-faire
Com o meu sorriso eu sou uma lição de talento e muito estilo, ninguém tem como não ver o meu savoir-faire.
Sou noveau, robô, romano, grego, rococó, barroco, e pop, e pop... Ah! Eu sou pop! (Alguém me segure!!)
Caras bonitas não surgem à toa - eu me destaco sim na multidão.
Depois de feito quebraram meu molde. Com muita elegância e refinação sou uma alucinação!
Vilões criam confusões, decorem as celas das prisões: o verde combina com qualquer coisa que quiserem, viram?
Tem mais uma coisa que eu quero cantar, abram a boca e gritem sem parar:
CUIDADO!!!!!
Esse é o Maskara!
- Que demais!!! -
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janeiro 20, 2008
Prova de fogo
(no Weblogger - o falecido - domingo, 20 de janeiro de 2008)
My Diary:
Vamos viver o momento ou viver o futuro?
Uma simples mudança de substantivo, pode multiplicar as próximas 12 horas em 1.825 dias.
Intrigante? Talvez. Mas à mim, é, principalmente uma dúvida cruel.
Todo mundo precisa se divertir um pouco às vezes - não que eu não me divirta, é claro - mas é necessário saber ser um pouco inconseqüente também de vez em quando.
Agora, diga-me: depois de tudo duramente conquistado, você tem coragem de se entregar ao Carpe Diem?
Eu ainda não consegui me responder. Mas se eu não fui capaz de chegar a uma conclusão, provavelmente seja porque eu não terei coragem sequer de pensar nessa possibilidade. Tudo bem, pensar eu já pensei.
Texto da Semana:
Flicts (trecho)
(Ziraldo)
Era uma vez uma cor muito rara e muito triste que se chamava Flicts
não tinha a força do Vermelho
não tinha a imensa luz do Amarelo
nem a paz que tem o Azul
Era apenas o frágil e feio e aflito Flicts
Tudo no mundo tem cor
tudo no mundo é
Azul
Cor-de-rosa
ou Furta-cor
é Vermelho ou
Amarelo
quase tudo tem seu tom
Roxo
Violeta ou Lilás
Mas não existe no mundo
nada que seja Flicts
- nem a sua solidão -
Flicts nunca teve par
nunca teve um lugarzinho
num espaço bicolor
(tricolor muito menos
- pois três sempre foi demais)
(...)
E o pobre Flicts
procura alguém
para ser seu par
(...)
UM DIA FICTS PAROU
e parou de procurar
(...)
Sumiu
que o olhar mais agudo
não podia adivinhar
para onde tinha ido
para onde tinha fugido
em que lugar
se escondera
o frágil e o feio e aflito
Flicts
E hoje com dia claro
mesmo com o sol muito alto
quando a Lua vem de dia
brigar com o brilho do sol
a Lua é Azul
Quando a Lua aparece
- nos fins das tardes de outono -
do outro lado do mar
como uma bola de fogo
ela é redonda
e
Vermelha
E nas noites
muito claras
quando a noite é toda dela
a Lua é de prata e ouro
enorme bola
Amarela
MAS NINGUÉM SABE A VERDADE
(a não ser os astronautas)
que
de perto
de pertinho
a Lua é Flicts
não tinha a força do Vermelho
não tinha a imensa luz do Amarelo
nem a paz que tem o Azul
Era apenas o frágil e feio e aflito Flicts
Tudo no mundo tem cor
tudo no mundo é
Azul
Cor-de-rosa
ou Furta-cor
é Vermelho ou
Amarelo
quase tudo tem seu tom
Roxo
Violeta ou Lilás
Mas não existe no mundo
nada que seja Flicts
- nem a sua solidão -
Flicts nunca teve par
nunca teve um lugarzinho
num espaço bicolor
(tricolor muito menos
- pois três sempre foi demais)
(...)
E o pobre Flicts
procura alguém
para ser seu par
(...)
UM DIA FICTS PAROU
e parou de procurar
(...)
Sumiu
que o olhar mais agudo
não podia adivinhar
para onde tinha ido
para onde tinha fugido
em que lugar
se escondera
o frágil e o feio e aflito
Flicts
E hoje com dia claro
mesmo com o sol muito alto
quando a Lua vem de dia
brigar com o brilho do sol
a Lua é Azul
Quando a Lua aparece
- nos fins das tardes de outono -
do outro lado do mar
como uma bola de fogo
ela é redonda
e
Vermelha
E nas noites
muito claras
quando a noite é toda dela
a Lua é de prata e ouro
enorme bola
Amarela
MAS NINGUÉM SABE A VERDADE
(a não ser os astronautas)
que
de perto
de pertinho
a Lua é Flicts
dezembro 10, 2007
Pierrot e Colombina
(no Weblogger - o falecido - segunda-feira, 10 de dezembro de 2007)
My Diary:
My Diary:
O Pierrot sofre pelo amor jamais encontrado e não faz se não chorar por sua Colombina. Colombina esta que jamais percebeu que o pobre palhaço tristonho vendeu sua alma ao diabo, com a esperança de poder olhar seu rosto pelo resto dos seus dias solitários.
Cega Colombina... Cega! Que não pode ver o palhaço triste definhar durante anos até sumir!
Mas o que acontece quando é a Colombina que chora pelo amor do Pierrot?
E choro pelo meu Pierrot.
Humor da Semana:
10 erros do cinema nacional
(Lusa Silvestre)
1 - Mulher Pelada:
Hoje está todo mundo vestido. Isso vai contra a nossa cultura. O cinema nacional sempre mostrou a mulherada das novelas peladas, quase sempre antes das revistas masculinas. E melhor: em movimento.
2 - Cenas no meio da caatinga:
Quer coisa mais brazuca que um tiroteio entre cangaceiros e a poliça? O máximo que aparece hoje é a Fernanda Montenegro procurando gente no sertão pra entregar carta. Desarmada.
3 - Roteiros do Nélson Rodrigues:
Eram diversão garantida. Sempre histórias cabeludas, e trazendo mulheres loucas pra mostrar um peitinho pro primeiro primo disponível.
4 - Perseguições de Dodge e Opala:
As perseguições de Hollywood eram em San Francisco. As nossas, na 23 de maio. Agora, pra rever aqueles Dodjões cor de sopa de cenoura, só mesmo indo no pátio do Detran.
5 - Fotografia:
Bons tempos quando o filme parecia ter sido revelado num vidro de cândida. Atualmente, estão até retocando cor na pós produção. É o mesmo que tirar o verde da Amazônia.
6 - Palavrões:
Justiça seja feita: eles ainda são ouvidos. Mas sempre fazendo parte do contexto. Não pode: cinema nacional é palavrão gratuito. De preferência, fora de sincronia. Eu te amo, porra!
7 - Trilha Sonora:
Gilliard, Bartô Galeno, Magal, Perla, quanta gente boa já cantou nos nossos cinemas. Pra esses caras voltarem pra telona, só se a Marisa Monte regravar.
8 - Aberturas:
Cinema brasileiro é libertário, é revolução, é Glauber. É abertura de filme com cartolina e canetinha. Necas de computador, design, etc. Isso tudo é coisa de povo aculturado.
9 - Títulos dos Filmes:
Virou moda batizar um filme pensando na versão pro mercado americano. E por causa disso, perde-se todo o humor brasileiro. Como traduzir sutilezas de sentido dúbio como Baralho e Tênis?
10 - Lucélia Santos:
Cadê a Lucélia Santos, que tantas alegrias nos deu em filmes como "Engraçadinha" ou "Bonitinha mas Ordinária"? A nova geração só vai lembrar da Lucélia como Escrava Isaura. Que além de chata pacas, se vestia até o pescoço.
Hoje está todo mundo vestido. Isso vai contra a nossa cultura. O cinema nacional sempre mostrou a mulherada das novelas peladas, quase sempre antes das revistas masculinas. E melhor: em movimento.
2 - Cenas no meio da caatinga:
Quer coisa mais brazuca que um tiroteio entre cangaceiros e a poliça? O máximo que aparece hoje é a Fernanda Montenegro procurando gente no sertão pra entregar carta. Desarmada.
3 - Roteiros do Nélson Rodrigues:
Eram diversão garantida. Sempre histórias cabeludas, e trazendo mulheres loucas pra mostrar um peitinho pro primeiro primo disponível.
4 - Perseguições de Dodge e Opala:
As perseguições de Hollywood eram em San Francisco. As nossas, na 23 de maio. Agora, pra rever aqueles Dodjões cor de sopa de cenoura, só mesmo indo no pátio do Detran.
5 - Fotografia:
Bons tempos quando o filme parecia ter sido revelado num vidro de cândida. Atualmente, estão até retocando cor na pós produção. É o mesmo que tirar o verde da Amazônia.
6 - Palavrões:
Justiça seja feita: eles ainda são ouvidos. Mas sempre fazendo parte do contexto. Não pode: cinema nacional é palavrão gratuito. De preferência, fora de sincronia. Eu te amo, porra!
7 - Trilha Sonora:
Gilliard, Bartô Galeno, Magal, Perla, quanta gente boa já cantou nos nossos cinemas. Pra esses caras voltarem pra telona, só se a Marisa Monte regravar.
8 - Aberturas:
Cinema brasileiro é libertário, é revolução, é Glauber. É abertura de filme com cartolina e canetinha. Necas de computador, design, etc. Isso tudo é coisa de povo aculturado.
9 - Títulos dos Filmes:
Virou moda batizar um filme pensando na versão pro mercado americano. E por causa disso, perde-se todo o humor brasileiro. Como traduzir sutilezas de sentido dúbio como Baralho e Tênis?
10 - Lucélia Santos:
Cadê a Lucélia Santos, que tantas alegrias nos deu em filmes como "Engraçadinha" ou "Bonitinha mas Ordinária"? A nova geração só vai lembrar da Lucélia como Escrava Isaura. Que além de chata pacas, se vestia até o pescoço.
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