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janeiro 26, 2012

Recomeço


Música para acompanhar: Kiss From A Rose - Seal



A nossa vida termina a cada trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas aproximadamente. E recomeça quando se atinge essa fatídica sexta hora.
E por um súbito abrimos os olhos cansados e temos certeza de que os passos serão mais lentos e firmes a partir deste momento surgido das cinzas, que as palavras terão mais fluidez e que o riso será mais fácil. E enganando o espírito nos deixamos esquecer que não se findou e iniciou uma nova vida, mas que é apenas o primeiro minuto chegado depois da vigésima quarta hora do dia anterior, amargurado, desesperançado e despedaçado.
No âmago, sempre sabemos que se trata de cada vez mais lutas contra predadores e presas para alimentar-se e para dormir com o mínimo de paz que um coração acelerado consegue ter.
Então o que o corpo - a vida - pede é amor.
Amor o bastante para aquietar os ânimos já muito exaltados e aliviar as feridas abertas no peito sem clemência ou anestesia. Que lhe permita aquele segundo de eternidade quando você acorda e sente cheiro de pele limpa antes de regressar ao sono. Para olhar as contas do mês com serenidade e ir comer pipoca doce.
A vida nunca será fácil e as lágrimas virão atormentar-(m)te com uma freqüência maçante. Mas talvez o coração um dia esteja calmo e são.
Vai chover muito em Março, e muitos lares se abalarão. O esgotamento físico já estará crítico em Junho. Haverá frio e solidão excessivas em agosto.
Mas o que se pode esperar para os dias que virão, do ano que está ainda em formação - mas que já carrega o fardo das dores e experiências do que passou - senão o amor?



Poesia

Esperemos
(Pablo Neruda)

Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.

abril 18, 2009

Mata-borrão

My Diary:

Vontade de me dar asas e me lançar ao céu. Que vontade!
E por várias vezes fiquei à apenas alguns segundos de me arriscar e sentir o vento batendo no meu rosto e secando o meu suor. O corpo fica balançando que nem joão-bobo, como um pêndulo, tomando coragem e hesitando. Sempre por um triz de me sentir livre.
Um próprio mata-borrão.
Mas como a vida é tão assustadora e cada lugar novo que se conhece é sempre um risco à saúde (física e mental) fico só nessa oscilação.
Vou à beirinha do precipício, olho para a cidade lá embaixo e para a névoa que atrapalha um pouco a minha visão. Fico imaginando como pode ser boa a sensação de voar. Tenho meu ímpeto, e volto.
Volto para o meu solo firme e caminho nas pontas dos pés. Sempre experimentando cada passo, para não correr o risco de tropeçar.
Afinal, sabe-se lá, se aquela cidade que eu vejo turvamente, pouco encoberta pela neblina, é tão bela quanto ela parece ser.
A vista de cima é sempre mais bonita do que a realidade.



Poesia da Semana

(Pablo Neruda)

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

dezembro 24, 2008

Toda à flor da pele

My Diary:

Dia incomum para escrever.
Mas está sendo um tanto difícil passar tanto tempo sem colocar pra fora as angústias que - por mais que eu tente esconder - existem em mim.
E já está na hora de assumir - não pra mim, porque eu já sei disso - que eu sou toda sentimento.
Que não sou pedra nem morta. Mas sou amor e intensidade em cada célula minha.
Que choro e me desespero. Que amo, e amo em demasia.
A verdade, é que em nada na minha vida, não vejo beleza e poesia.
Em tudo há amor e sofrimento. E sofrimento de amor.
E angústia. E dúvidas.
E medo.

Um medo de criança.
Que em mim eu tenho tanta meninice. E eu nem sabia que tinha tanta.
Eu cresci cedo demais.
Mas minha meninice ia aparecer em algum momento...
Se não a tivesse guardado, ela não teria aparecido em hora tão inoportuna.

Tem dias que eu não durmo bem. Que não como bem.
Eu só espero as horas passarem.
Espero que a noite chegue e chegue logo.
E quando ela acaba, eu torço para que a próxima noite chegue logo também.
Meu dias andam perdidos. E já sem importância.
Eu só quero que a noite chegue logo.
E quando ela chega, tudo em mim pára. E eu nem preciso fechar os olhos para ouvir a minha pulsação.

A verdade, é que tudo em mim é amor.
E eu nem sei por que finjo não ser assim.



Poesia da Semana:
Quis poesia de novo. O problema é todo meu.

(Pablo Neruda)

Aqui eu te amo.
Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento.
Fosforece a lua sobre as águas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-se.

Descinge-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata se desprende do ocaso.
As vezes uma vela. Altas, altas, estrelas.

Ou a cruz negra de um barco.
Só.
As vezes amanheço, e minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui eu te amo.

Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas.
As vezes vão meus beijos nesses barcos solenes,
que correm pelo mar rumo a onde não chegam.

Já me creio esquecido como estas velha âncoras.
São mais tristes os portos ao atracar da tarde.
Cansa-se minha vida inutilmente faminta..
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.

Meu tédio mede forças com os lentos crepúsculos.
Mas a noite enche e começa a cantar-me.
A lua faz girar sua arruela de sonho.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento,
querem cantar o teu nome, com suas folhas de cobre.