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setembro 25, 2016

Danos

Mas que desagrado este hábito de me ancorar aos lugares dos problemas difíceis de resolver
das atenções roubadas,
do foco perdido,
do descaminho.
Estar sempre sendo seduzida pela desvirtuação de planos e com ânsias de perder a sanidade e ter de agarrar-me
- desgostosamente -
a um segundo de lúcida descoragem para fugir dos vícios deletérios.

maio 28, 2014

Tempestade

O tempo virou e eu mal pude perceber o processo. Num piscar o clima quente virou cheiro de umidade, frio e escuridão. De repente... correr para fechar as janelas e garantir que cada coisa permaneça no seu lugar: lá fora, o céu caindo, o vento, os relâmpagos. Cá, meu exílio.

Tempestade não se contém, não se mantém do lado de fora... invade o quarto.
A última dessas foi palco para nossa lascívia. Os relâmpagos eram nossa luz. Éramos nós, hora ocultos, ora revelados, expondo gosto, gozo e despudor.
Foi noutra noite dessas, com tempestade de correr para fechar as janelas, que suas mãos estavam percorrendo trilhas certeiras de êxtase, transformando em espasmos tudo o que eu não podia expressar.

Cada luz que ocupa meu quarto me lembra de cada minúsculo detalhe do nosso tempo. Do quanto você era meu. Eu, obviamente, ainda sou muito sua. A mesma a quem você perturbou com suas mãos e lábios. A mesma que você amou desvairadamente. Aquela que te ama. Desmedidamente.

Tudo como naquela vez... de janelas barulhentas estremecendo com o vento. Em que não se pôde perceber o frio que fazia. Noite de chuva invadindo o quarto enquanto os pelos eriçavam. Dentes, unhas, e puxões de cabelo. Com pele se tocando, se querendo. Noite em que nos consumíamos, tremíamos, suávamos.

Há já tanto tempo, e eu ainda sinto saudade da sua língua na minha orelha, da mão no final da coxa, de sentir sua pele exposta tocando a minha.
Ainda sinto, precisamente, sua respiração, aqui... pelo pescoço, perto do queixo.

Não posso saber quanto tempo esse frio vai cortar meu rosto. Nem quanto tempo vai durar toda essa chuva, que está densa. Não sei se seus dedos fazem a outro corpo neste momento o mesmo que fazia a mim, em outras tempestades. Você deixou rastros e vazios. E um monte de incertezas.
Não sei por quanto tempo você será protagonista das minhas fantasias.
Mas mas me inteiro de certeza de que vou conviver com a memória do seu suor percorrendo meu corpo tanto tempo quanto durar esta tempestade. E as próximas.

abril 17, 2014

Do átimo de sobriedade


Se eu piscar os olhos me distraio e viajo, porque ficou o gosto da vontade não satisfeita.
A cada descuido de atenção volto meus pensamentos aos seus dedos entrelaçando os meus, como quem conta em segredo tudo o que o corpo sentia, e que os olhos confessariam - se se permitissem olhar. Não havia coragem para cruzar os olhares, mas cada roçar de dedos era sentir eriçar todos os pelos do corpo à espera da mão que não me tocou.

Me retenho lutando contra esse longo dia, mas se  me permitir piscar volto àquele momento, sentindo sua respiração quente soprando meu rosto quando seus lábios namoravam minhas têmporas. Minha pele pronta par reagir ao seu toque e o meu corpo inteiro se pôs pronto para receber o beijo que não aconteceu.
Só fazia sentir a pulsação forte e o pulmão inflando. Os músculos se contraindo e as pernas latejantes, desejando desesperadamente parar de brigar contra os próprios instintos. A mente quase se perdendo.

Se eu piscar volto àqueles minutos de embriaguez e escuridão. E me perco.
Se eu piscar, volta ao paladar esse sabor da vontade não saciada, atormentando a paz, à espera do beijo proibido. Vem sensação do sangue correndo muito quente e corando meu rosto.

fevereiro 08, 2014

Pra não preder a prática

Há um qualquer coisa de hipnotismo na sua áurea. Um feitiço que entorpece e me tira a concentração. Acabo que, entre um suspiro e outro, encontro um delicioso par de olhos verdes nos meus pensamentos.
É por pouco que você não leva embora meu sossego. É graças ao fio de concentração que eu guardo com muito zelo, e liberto quando todo este conjunto de cores e formas se arrasta pra dentro do meu quarto e do meu devaneio.
É com muito esforço que eu preservo a minha paz.
Mas a verdade, é que salivo só em te ver. Me torno um grande perigo.
A custo de muita cautela é que não viro bicho e te atento a vida, te prendo entre as coxas e te ataco com a boca para ter cada centímetro da sua pele sangrando entre os meus dentes.
Faço muito esforço para esquecer que você é tão lindo que eu quase não acredito.
Mas garanto meu sossego.



Após dramas e desventuras diversas, passo por um enorme período de inércia emocional. Razão do texto limitado e curto.

março 23, 2011

Suor

Estou só desejo e fome de pele. Fico presa entre te invadir boca adentro ou engolir o próprio suor. E num esforço de racionalidade, guardo tudo em mim.
Me desmancho aos poucos de vontade. Agonizo e diluo nessa chuva que me despe, me atiça e em vão tenta resfriar meu corpo. - Está quente demais! A verdade é que tanto me esconder só faz inflar meus pulmões e me tornar pó, que se espalha e explora o mundo ao meu redor.
As gotas tocam minhas temporas, meu ombro, meu colo. Acariciam o meu corpo e sinto um suspiro ser lançado do meu útero e atingir o ar, muito perto das suas narinas. Me faz toda vertigem e medo.
Você quase notou.
O relógio é a fuga para esconder meus lábios já molhados. E agora vejo que se passou apenas um segundo nos seus olhos.



Crônica:

Doce vida
(Nelson Botter Jr)

O encontro estava marcado para as 15 horas, horário do recreio.
Ela de fitinha rosa nas madeixas loiras, camisa branca de botão e saia azul do uniforme escolar, lancheira do New Kids On The Block e Melissinha.
Ele com seu cabelo ruivo escorrido e penteado para o lado, óculos de aro redondo, uniforme limpinho, sardas e uma sacolinha na mão.
Quando o viu se aproximando, ficou ansiosa. Ele, por sua vez, tinha as pernas trêmulas.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto da garota, enquanto ele mal a olhava nos olhos.
Aproximou-se, cumprimentando-a timidamente com uma das mãos levantadas.
Ela estava linda. Uma bonequinha, um verdadeiro sonho com aquelas bochechas rosadas e um sorriso encantador.
- Achei que você não ia vir.
- Por quê? Que bobo...
- Ah, sei lá.
Ela ficou tímida e ele mais ainda.
- Trouxe isso pra você – ele falou, tirando de dentro da sacolinha um lanche Mirabel.
- É de chocolate? – seus olhos brilharam.
- Não... – ele titubeou – é de morango... tem problema?
Ela pensou um pouco.
- Claro que não, eu gosto de chocolate e também gosto de morango.
Ele sentiu-se aliviado e parecia caminhar nas nuvens quando a viu pegando o pacote de biscoito para guardar na lancheira.
- Obrigada.
- Se você quiser, posso te trazer um Mirabel de chocolate amanhã...
- Jura?
- Sim, juro.
- Eu quero!
- Tá bom, eu trago.
Silêncio. Constrangimento no ar pela falta de assunto.
Ele pensou, pensou e, então, encheu-se de coragem.
- Posso te dar um beijo?
Ela corou. Ficou em silêncio. Então sorriu de leve, charmosinha.
- Por que você quer me beijar?
 Ele não sabia o que dizer. Não sabia como falar que aquele beijo era um gesto de carinho, que a achava uma menina muito legal, doce, meiga... Simplesmente não sabia como dizer isso. E não disse.
- O Alexandre falou que beijou seu rosto na semana passada, então eu também queria um beijo seu...
O semblante dela se transformou. De anjinha a diaba em segundos. Com o olhar, fuzilou o garoto, que não sabia o que fazer pra reparar a bobagem.
Ainda tentou falar algo, mas as palavras não lhe vieram.
O que veio foi um tapa. No rosto. Fraco, mas forte o suficiente para disparar seu coração de garoto inocente.
Ele a viu sair em passos largos e furiosos.
Lá se foi sua menina, seu beijo e seu Mirabel.
Ao ajeitar seus óculos, começou a descobrir o quanto as mulheres são misteriosas e absurdamente tentadoras.
E tinha certeza, sabe-se lá como, mas tinha, que amanhã ela estaria ali, novamente, esperando pelo Mirabel de chocolate.

maio 17, 2009

Me enfeita num beijo

My Diary:

Agora tudo vai se apagando e se tornando negro e a pele arrepia com o frio que vem da janela entreaberta e chuva fina que é trazida pelo uivo constante do vento traz imagens para o meu quarto.
Turvas e em cores quentes. Quentes - tão quentes - que se derretem e se misturam. E se separam. E se desenham e se apagam.
E o ar deste lugar vai ficando escasso e denso. Úmido. Quente como as cores que não param de se fundir.
E agora eu é que me derreto. A começar pelos meus olhos que escorrem em preto até no canto da minha boca com o gosto daquela salina. E todo o rosto branco e cálido que tive se torna verde.
Um mergulho num mar límpido e verde, de onde eu não quero sair jamais.
Me afogo e me salvo. Milhões de vezes em segundos até voltar à terra firme.
Nas minhas mãos, tenho a alma e o coração que já não cabiam no corpo disforme e que tenho que segurar firme para que não me escape e se misture à confusão de formas que eu tenho na minha frente.
Tudo se apaga novamente e, num último instinto, inspiro aquele ar pesado.
Mas sem alma eu não respiro.
Não tenho ar.
Não tenho ar.
Não tenho...
E depois de segundos desacordada, o sol atinge duas esmeraldas que cegam a minha visão.
Tudo luz verde ao meu redor.
E agora estou salva. Com minha alma e coração de volta ao peito. A respiração regular. E eu toda não mais disforme.
Eu toda.



Crônica da Semana

Vou não vou
(Nelson Botter Jr.)

- te devoraria tal caetano a leonardo di caprio
- isso é música, é?
- é, mas também é o que eu sinto quando cruzo olhares contigo
- obrigada, mas não quero não
- é, eu sei
- mas nem esquenta, caê, tem mais quinhentas por aí que seriam o seu leonardo di caprio num estalar de dedos
- é, eu sei
- então...
- ...
- ai, menino, tudo menos silêncio, acho desesperador, constrangedor, sei lá
- não tenho nada pra dizer, além do que já disse
- ah, sabe o que é... espero que você entenda, é que não me envolvo com garotos solteiros
- hein?
- não me envolvo com garotos solteiros
- mas quem falou em envolvimento?
- ah, que fosse uma noite e nada mais, pra mim já é um tipo de envolvimento, sabe... sou reservadona, sensível, moro no alto da torre do castelo, qualquer pele com pele já é um tipo de violação pra mim, quer dizer, envolvimento, coisa sagrada, sabe, eu sou assim, fazer o quê? espero que você entenda
- é, você sempre espera que eu entenda
- isso
- mas mesmo que role um carinho, qual o problema? não quer dizer que vai ficar apaixonadona e que vai sofrer por minha causa, é só uma amizade que rola algo a mais, uns beijinhos de vez em quando, um sexo gostoso...
- hahaha, garoto convencido, se liga, apaixonada eu? mesmo se eu sentisse alguma coisinha a mais de especial por você não desceria do salto, você nunca saberia, nem uma dica sequer, sou clássica, e essa coisa de amizade com sexo não rola, são princípios da minha vovó, tradição é tradição, sublimo com sorvete e seriados na tv a cabo
- e qual o problema de demonstrar algum afeto, baixar um pouco a guarda?
- eu não, vai que você me convence...
- se tem medo de ser convencida é porque quer que role, só não tem coragem... não?
- ihh, quer saber, você faz muitas perguntas, me irrita, me atrapalha... tinha de ser solteiro, né? quando bati o olho na sua mão e não vi aliança já sabia que era confusão à vista
- mas o que você tem contra solteiros?
- ué, não gosto de sofrer não
- sofrer?
- isso, a possibilidade de compromisso me arrepia, sabe, eu sou assim mesmo, prefiro homens casados ou que namoram, eles sabem os limites, não ficam atrás de você esperando algo a mais, querem ir direto ao ponto e fim de papo, solteiros não, procuram relacionamento, uma nova mãe, eu tô fora, já tenho um hamster que me consome muita atenção, cruzes!
- mas sou um solteiro diferente, ajo feito casado ou compromissado, fico na minha, nem vou querer algo mais sério depois, a amizade continua normal, apenas a cumplicidade aumenta
- não vai mesmo querer algo mais sério depois?
- não!
- e por que não? você não me acha bonita o suficiente? não sou boa o suficiente pra ser sua namorada?
- eu não disse isso
- então disse o quê? acha que sou bobinha? que não entendo nas entrelinhas? tudo bem, tudo bem, eu consigo superar... seu grosso
- mas você mesma disse que...
- não precisa ficar se explicando, tudo bem, eu sou assim mesmo, espero que você entenda
- eu realmente não estou entendendo mais nada
- pois é, homens, todos iguais, nunca entendem nada, depois nós é que somos complicadas
- olha aqui pra mim, pára de chorar, por favor, vai
- tá tudo bem, vou ficar bem
- eu não quis dizer aquilo que... que disse
- me leva pra casa?
- mas...
- eu sabia que você seria dor de cabeça na certa
- tô quieto
- você tem chocolate aí?
- chocolate???
- é, cacau, açúcar...
- eu tô aqui falando sério e você com esse papo de doce?
- ai ai ai, vamos embora, vai
- ...
- vamos, cafa
- hmm...
- esse seu olhar me mata, menino
- esquece o certo e o errado, vamos aproveitar enquanto existe vida
- dramático
- sou
- xavequeiro
- sou
- charmoso
- sou?
- tentador
- sou?
- ai ai
- quê?
- vamos, meu caetaninho, vamos
- pra onde?
- demorou...
- hmmm
- é, caê, menino abusado, vamos
- pois não, madame di caprio, e vamos pra minha ou pra sua casa?
- melhor pra sua, né... se formos pra minha acho que meu marido não vai gostar

agosto 16, 2008

Lavadeira

My Diary:

Como será a vida de um corpo celeste? Por exemplo... Um satélite natural?
Pensemos no nosso único satélite natural: Nossa Lua.
Bela, incomparável, gigante e linda.
Maravilhoso contemplá-la, e, invariavelmente, alguém já a contemplou, se encantou e torna a fazê-lo alguma outra vez.
Apesar de não tomar conta da noite sozinha, é quem tem o brilho mais intenso. E quem mais chama atenção - provavelmente porque é a mais alcançável.
Sempre imagino que se a Lua fosse um ser animado (e sabe que eu não duvido disso?), talvez ela adorasse toda essa paixão.
Mas tenho parado para pensar... Entre nossos principais corpos celestes (Sol e Lua), ela é a desnecessária. Todos podem sobreviver sem ela; é esquecida quando vem o dia; apagada pela luz; e todo mundo sempre a faz lembrar de que ela não tem brilho próprio.
Se torna algo apenas de contemplação momentânea. E momentânea mesmo, porque nem sempre as pessoas lembram dela.
Só quando não tem mais nada com maior brilho para ocupar sua mente.
Aí lembram da Lua.
De repende, ela começa a detestar essa contemplação.
Ninguém gosta de ser prazer momentâneo. Ocupação para o tempo ocioso.



Posia da Semana:

Eu tô que tô (Trecho)
(Kleiton e Kledir)

(...)

Vem cá minha compoteira
Balança essa pasmaceira
Me bate com a cabideira
Me chama de lavadeira...

Não grita, não dá bandeira
Periga marcar bobeira
Quebrei o pé da cadeira
Cuidado com a cristaleira...

Segura, me deu gagueira
Eu juro que é verdadeira
Disfarça e chama a enfermeira
Tá dando uma tremedeira
Mamãe, viva o Zé Pereira!
Cadê meu advogado?...

Eu Tô Que tô! Eu Tô Que Tô!
Eu Tô Que tô! Eu Tô Que Tô!

La luz a la media boca
Besame mucho loca
Não, isso não
Me dá coceira...

(...)