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maio 10, 2013

Das coisas que você não sabe.

Eu tenho uma coleção de marcadores de páginas.
Eu acredito, sim, em Deus.
Eu evito vômito.
Eu leio gestos.
Não gosto de massa parafuso.
Tenho medo de me formar.
Tenho medo de espelhos.
Gosto de neblinas.
E dias úmidos.
Eu escrevia poemas na minha adolescência.
Ainda os tenho guardados.
No meu quarto.
Não sei cozinhar feijão.
Não faço as unhas por questões financeiras.
Tive a catapora mais séria que eu já vi.
Sofro de depressão desde que me entendo por gente.
Frequentemente, eu sonho com a minha escola.
Todos os meus orgasmos são verdadeiros.
Sempre tive orgasmos.
Morro de medo da solidão.
Mas sou muito sozinha.
Sinto muito frio quando tenho medo.
Tenho mania de esfregar o indicador na unha do polegar.
Sinto coceira nos lábios.
Estou com dor de cabeça desde domingo retrasado.
Eu finjo que não, mas sonho em me casar e ter uma pequena família feliz.
Sem segredos.
Eu passei minha adolescência inteira com moletom amarrado na cintura. Mesmo nos dias de verão.
Eu não consigo odiar nada.
Fico cheia de espinhas cada vez que você escapa de mim.
Gosto da comida do bandejão.
Eu não piso nas juntas de dilatação da calçada.
Nem nas pedras portuguesas brancas.
Eu te amei mais do que a mim mesma.
Eu sempre sei quando você está mentindo.
 - O tópico anterior foi redundante, mas você nem sempre entende o que eu digo -
Meu amor tem condições de conservação.
Caso contrário, fica impróprio para consumo.
Se ele está morrendo ou se já se foi, eu ainda não tenho certeza.
Essa lista ficou mesmo muito grande para tantos anos.

maio 01, 2013

Blablabla e vitimismo

Eu deixei. Meu amor pra você enxugar o rosto. Minha autoestima, pra você brincar de ser grande.

Deixei pra trás tanta coisa.
Me deixei lá, perdida no meio da estrada pra te deixar ser o único. E te conduzi para tudo o que eu não tinha mais.
E fui esvaziando. Lentamente. Até sobrarem as migalhas. Daquilo. Que um dia. Eu nunca. Fui.



Música:

Victims
(Culture Club)

The victims we know so well, they shine in your eyes
When they kiss and tell, strange places we never see
But you´re always there, like a ghost in my dream

And I keep on telling you, Please don´t do things you do
When you do those things pull my puppet strings
I have the strangest void for you

We love and we never tell,
What places our hearts in the whishing well
Love leads us into the stream and It´s sink or swin
Like it´s always been

And I keep on loving you, it´s the only thing we do
When the angels sings, there are greats things
Can I give them all to you?

Pull me the strings of emotion
Take a ride into unknown pleasure
Feel like a child on the dark night
Whishing there was some kind of heaven

I could be warm with you smiling
Hold out your hand for a while
The victims we know them so well…so well

The victims we know them so well
They shine in your eyes when they kiss and tell
Strange places we never see
But you always there like a ghost in my dream

And I keep on telling you, Please don´t do things you do
When you do those things, Pull my puppet strings
I have the strangest void for you

Show my heart some devotion
Push aside those that whisper never
Feel like a child on the dark night
Whishing we could spend it together

I could be warm with you smiling
Hold your hand for while
The victims we know them so well, so well…

dezembro 19, 2011

Agora nada

Agora acabou. E eu fiquei esperando o que acontece depois, como quem assiste aos créditos finais. Com um silencio crescendo ao meu redor e a perfeita sensação de nada estava acontecendo.
Até perceber que tenho que começar a escrever para que haja história a ser contada.
Silêncio mais uma vez.
Então olho para a janela... Provavelmente ainda na esperaça de que haja algo depois do fim, mas não há.
Não há gente, não há som, nem nada para acontecer sem que eu tenha de tomar o primeiro passo.
Mas há chuva.
Então vou começar por aí. Abrir a janela e sentir a chuva. Deixar ela lavar e levar de mim tudo isso que não existe, e trazer nem que seja o frio.
Com licença, vou lá escrever uma história.



Poesia:

Mas há a vida
(Clarice Lispector)

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

novembro 07, 2011

Liberdade finalmente


Te libertei de me amar. E mais que isso, te libertei da possibilidade de perceberem quando você me amasse, caso isso fosse acontecer.
Te libertei de me querer mais do que a outra pessoa e de me deixar fazer parte da sua vida. Te libertei de ser só meu e de desejar que eu fosse só sua.
Te libertei de me apresentar aos seus amigos ou de permitir que eles me vissem.
Te libertei de me introduzir à sua família, de casar comigo. Te deixei livre de qualquer plano que pudesse vir à sua cabeça.
Você finalmente se livrou dos meus anseios, do meu riso, da minha verdade e da minha vontade de qualquer coisa.
Te libertei dos olhares repressores (?) dos outros. Se livrou da honestidade.

Vá, voe! Está livre de saber que eu existo e de ter de me descrever seus passos.
Está livre para dizer que é livre. Para inflar o peito de orgulho e ter certeza de que não há ninguém querendo estar ao seu lado agora.

Te livrei do constrangimento de estar comigo.
Agora sorria!



Crônica:

O frango ao gengibre do homem quase perfeito
(Cléo Araújo)

Eu gosto de fechar os olhos e pensar em você grelhando um filé de frango.
Sabe aquele frango, que você fazia com gengibre? Leve toque de mostarda? Delicioso, picante, nem se via que era frango? Pois é, gosto de fechar os olhos e pensar em você passando ele na chapa, dourando um lado de cada vez, fazendo aquele fumacê sensual na cozinha. É uma visão meiga, me enche de paz e me faz salivar, no melhor e menos metafórico dos sentidos.
Acho que percebi que você seria uma coisa estupidamente inesquecível num dia como esses em que se grelham peitos de frango às três da manhã. Lembra? Uma vez foi assim, refeição feliz na madrugada. Você estava sempre com um sorriso no rosto, mesmo com sono. Estava sempre disposto a preparar uma comidinha para alguém mesmo que a matéria prima estivesse congelada. Naquela época, o alguém era eu.
Você me fez ser dessas que gostam de homens que preparam coisas. Que amassam frutas para fazer caipirinhas, parafusam buchas para colocar o pendurador de toalha, instalam fios de extensão para o DVD e assam pães de canela, tudo com o mesmo appeal.
Hoje fechei os olhos e pensei em você cozinhando com aquela camiseta que eu achava curta e que você amava. Você, de camiseta curta fazendo um franguinho, e eu, disfarçando a vontade de assumir o controle do fogão e sumir com aquele trapo velho que você vestia. Fico feliz de nunca ter feito isso. Imagine, não lembrar disso, que dó?
Teve aquele tempo em que a gente ainda não se conhecia. Tempo besta, o mundo era só um lugar abandonado e sem frangos. Ninguém nunca tinha grelhado nada no meio da madrugada para mim. Ainda não havia essas memórias, eu só me lembrava de coisas pouco importantes, como miojo e sucrilhos.
Mas um dia, então, você resolveu que adorava o cheiro de baunilha da minha casa e os meus guardanapos desenhados. E você achava que aquele carinho que eu fazia na sua testa, perto das têmporas, era a sobremesa perfeita. Isso, somado à visão de você preparando a caipirinha, grelhando um frango e me ajudando com as buchas e parafusos de casa, foram as coisas que me fizeram crer que talvez nada mais significativo viesse, um dia, a perfumar de gengibre as minhas memórias. Você sabe... Nada como memórias que cheiram a gengibre...
Agora, por exemplo, são onze da noite. Você deve estar preparando alguma coisinha para alguém.
Penso na sua risada doce e vem de novo aquela certeza de que talvez você fosse o homem quase perfeito.
Não fosse aquela camiseta curta e horrorosa, talvez você fosse.
No melhor e menos metafórico dos sentidos.

outubro 15, 2011

Da desistência


Ela não vai mais se deixar acreditar nas suas falas vãs e sem embasamento, sem alicerce e sem verdade. Sem nem mesmo confiança. Ditas só para amarrar ainda com mais força a quem já estava amordaçada e algemada às suas mãos.
Ela se atirou de uma vez, abismo abaixo, e não está preocupada em sobreviver. A escolha foi dela de se impelir e se tornar livre finalmente. Ainda que não fique viva.
E você talvez nem chore sua ausência. Nem perceba sua ausência. E a culpe pelo - que você julga ser - súbito suicídio.
Ela aceitou de braços abertos a morte que você lhe entregou de bandeja. Então chore. Mas chore de culpa.
E não peça que ela busque a redenção, ou conte até dez e puxe a corda do pára-quedas. Não peça que ela seja só sua. Não espere mais nada.

Ela só voltará se puder te ter por inteiro. E pleno. E livre. E dela.
Ela sabe que jamais o terá.

E ela parará de se referir a ela mesma na terceira pessoa.



Poesia:

Não Vale A Pena
(Maria Rita)

Ficou difícil tudo aquilo, nada disso.
Sobrou meu velho vício de sonhar.
Pular de precipício em precipício
- Ossos do ofício.

Pagar pra ver o invisível e depois enxergar:

Que é uma pena mas você não vale a pena.
Não vale uma fisgada dessa dor.
Não cabe como rima de um poema, de tão pequeno.
Mas vai e vem e envenena e me condena ao rancor.

De repente, cai o nível e eu me sinto uma imbecil
Repetindo, repetindo, repetindo
Como num disco riscado
O velho texto batido dos amantes mal-amados,
Dos amores mal-vividos e o terror de ser deixada.


Cutucando, relembrando, reabrindo
A mesma velha ferida.

E é pra não ter recaída que não me deixo esquecer:
Que é uma pena, mas você não vale a pena.

agosto 15, 2011

Do veneno ingerido


Com as minhas mãos já muito calejadas e a palma aberta para o ar eu vou assistindo você se afastar aos poucos. Ou eu mesma me afastar. Ou nós dois.
Nessa hora é que eu começo a tomar consciência da escolha tomada e desejo que o movimento das minhas mãos traga você correndo para os meus braços e afago, porque no segundo que o incidente se deu, também deu em mim a certeza de que tudo está errado.
Mas não volto atrás, porque já tenho o corpo muito envenenado.
Aproveito o movimento das minhas mãos frente ao meu rosto para disfarçar as minhas lágrimas.

Adeus.



Poesia
(Do diálogo do fim da nossa vida)

Santa Chuva
(Marcelo Camelo)

Vai chover de novo, deu na TV
Que o povo já se cansou de tanto o céu desabar
E pede a um santo daqui que reze ajuda de Deus
Mas nada pode fazer se a chuva quer é trazer você pra mim
Vem cá que ta me dando uma vontade de chorar
Não faz assim, não vá pra lá
Meu coração vai se entregar à tempestade

Quem é você pra me chamar aqui se nada aconteceu?
Me diz, foi só amor ou medo de ficar sozinho outra vez?

Cadê aquela outra mulher? Você me parecia tão bem!

A chuva já passou por aqui, eu mesma que cuidei de secar
Quem foi que te ensinou a rezar?

Que santo vai brigar por você?

Que povo aprova o que você fez?

Devolve aquela minha TV que eu vou de vez

Não há porque chorar por um amor que já morreu 

Deixa pra lá, eu vou, adeus
Meu coração já se cansou de falsidade