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setembro 25, 2016

Danos

Mas que desagrado este hábito de me ancorar aos lugares dos problemas difíceis de resolver
das atenções roubadas,
do foco perdido,
do descaminho.
Estar sempre sendo seduzida pela desvirtuação de planos e com ânsias de perder a sanidade e ter de agarrar-me
- desgostosamente -
a um segundo de lúcida descoragem para fugir dos vícios deletérios.

março 30, 2016

Posse

Você será meu hoje. Somente meu. E conhecerá domínio tão inédito quanto inesperado.
Toda a sua atenção será voltada para a minha permanência, seus olhos observarão apenas minha figura e seus ouvidos se dedicarão exclusivamente para a minha voz.
Te terei em cada célula.
Você me abraçará como se te apavorasse a ideia de perder-me. Vai me espremer entre seus órgãos até nos fundirmos
Eu serei igualmente só sua e comerei seus beijos como se minha boca fosse o único lugar do mundo realmente seguro para você. Todo o meu afeto será dado às suas vontades e meu corpo será seu casulo.
Então seremos nós nossos até a exaustão. E haverá momentos em que não distinguiremos suor de lágrimas: seremos apenas sal. Na eternidade do minuto.
E amanhã seremos outros. De outros.
Distantes e plenos.

junho 22, 2015

Armas desfeitas

Ele chegou e seu cheiro desequilibrou a conversa que se desenrolava. A concentração se perdeu com o que invadiu as narinas e tudo o que havia se tornou coadjuvante daquela inebriante performance de existir. A velocidade diminuiu. Cores e sons se abafaram.

Perdi-me no seu olhar penetrante voltado para um qualquer lugar que não meus olhos, enquanto delirava com o cheiro de cigarro e álcool que ele deixava ao passar. Falava em versos e eu, muda, ouvia.
Apática. Estática. Estanque.

Falhava na tentativa de permanecer imune àquele clichê de artista. Falhei, francamente, na fútil tentativa de ser forte.

As ondas das notas esbravejadas da sua garganta, alimentadas de cachaça e cuspidas junto a baforadas de fumaça, decidiam o ritmo dos corpos - todos - de lá. Mas das suas palavras, febris, apoderei-me, como se fossem compostas para mim. Algo em toda aquela cena precisava ser só meu.

A contorção de corpo revelava quem se entrega ao gozo ou à agonia intensamente.
Contração nas cordas. Força no diafragma. Cabo encarnado entre os dedos. Cada cuidadoso detalhe da performance: hipnose.

Letárgica, embriaguei-me.

maio 28, 2014

Tempestade

O tempo virou e eu mal pude perceber o processo. Num piscar o clima quente virou cheiro de umidade, frio e escuridão. De repente... correr para fechar as janelas e garantir que cada coisa permaneça no seu lugar: lá fora, o céu caindo, o vento, os relâmpagos. Cá, meu exílio.

Tempestade não se contém, não se mantém do lado de fora... invade o quarto.
A última dessas foi palco para nossa lascívia. Os relâmpagos eram nossa luz. Éramos nós, hora ocultos, ora revelados, expondo gosto, gozo e despudor.
Foi noutra noite dessas, com tempestade de correr para fechar as janelas, que suas mãos estavam percorrendo trilhas certeiras de êxtase, transformando em espasmos tudo o que eu não podia expressar.

Cada luz que ocupa meu quarto me lembra de cada minúsculo detalhe do nosso tempo. Do quanto você era meu. Eu, obviamente, ainda sou muito sua. A mesma a quem você perturbou com suas mãos e lábios. A mesma que você amou desvairadamente. Aquela que te ama. Desmedidamente.

Tudo como naquela vez... de janelas barulhentas estremecendo com o vento. Em que não se pôde perceber o frio que fazia. Noite de chuva invadindo o quarto enquanto os pelos eriçavam. Dentes, unhas, e puxões de cabelo. Com pele se tocando, se querendo. Noite em que nos consumíamos, tremíamos, suávamos.

Há já tanto tempo, e eu ainda sinto saudade da sua língua na minha orelha, da mão no final da coxa, de sentir sua pele exposta tocando a minha.
Ainda sinto, precisamente, sua respiração, aqui... pelo pescoço, perto do queixo.

Não posso saber quanto tempo esse frio vai cortar meu rosto. Nem quanto tempo vai durar toda essa chuva, que está densa. Não sei se seus dedos fazem a outro corpo neste momento o mesmo que fazia a mim, em outras tempestades. Você deixou rastros e vazios. E um monte de incertezas.
Não sei por quanto tempo você será protagonista das minhas fantasias.
Mas mas me inteiro de certeza de que vou conviver com a memória do seu suor percorrendo meu corpo tanto tempo quanto durar esta tempestade. E as próximas.

agosto 23, 2011

Das pernas tortas


Dançamos alegrias fazendo de conta que a música ainda toca. Rodopiamos sem sair do lugar e quase desequilibramos e quase perdemos o eixo num rítmo arisco que gosta de fingir que é equilíbrio e gosta de fingir que é paz.
Com medo arredio a gente segue a nossa coreografia, dançando na ponta dos pés que é para não acordar o sossego. Sentindo de olhos fechados o som que não se pode ouvir, dançamos uma dança torta com as pernas bambas.

(Texto que já não é coerente com a ausência total de música e gestos que tomou conta da minha vida. Mas já estava escrito, então publiquei)



Crônica:

Tempo de Saudade
(Debora Bottcher)

Então ela sentiu saudades. Do tempo em que sua maior preocupação era chegar a tempo da escola para ver Jeanny é um Gênio e Penélope Charmosa. De quando suas lágrimas eram só porque a mãe a mandava tomar banho quando ela ainda queria brincar.

Também sentiu saudades do pai: de quando andava com ele de mãos dadas pela feira, atrapalhando na escolha das frutas; de quando ele a jogava na piscina de adultos para ensiná-la a nadar, esperando, ansioso e atento, que ela emergisse sã e salva do fundo; de quando a mãe foi embora - porque as relações podem ficar muito complicadas mesmo que uma criança não seja capaz de entender - e ele cuidou dela e dos irmãos como nenhum outro pai faria.


Sentiu saudades de quando dormia em seus braços deitada no tapete da sala vendo TV e ele a levava para a cama - seu beijo delicado depois de cobrí-la; de quando ele não chegou a tempo para a sua formatura.


Teve saudades também de quando ele caminhou ao seu lado, relutante, rumo ao altar a fim de entregá-la à união com um homem que não lhe parecia a melhor opção; e especialmente de quando ele foi buscá-la de volta, não muito tempo depois, sem fazer nenhuma pergunta.


Ela sentiu saudades de quando se vestia de odalisca, bruxa e fada para brincar o carnaval.


De quando, nas manhãs de sábado, chamava os irmãos e invadiam o quarto dos pais jogando-se na cama para acordá-los: riso e alegria; e de quando eles se enfiavam todos, os cinco, debaixo do cobertor, juntos e seguros, o mundo inteiro cabendo naquelas quatro paredes.


Também teve saudades de quando aprendeu a ler e escrevia seus primeiros poemas num caderninho colorido que escondia nas gavetas, debaixo das roupas. Depois vieram os diários, a coleção de papéis de carta, o vício de rabiscar até em guardanapos pra não perder o fio de uma idéia.


Sentiu saudades dos disquinhos coloridos que cantavam músicas divertidas nas histórias de sapos, príncipes e princesas - tudo muito encantado. Teve saudades de seus livros de contos de fadas, que um dia foram queimados num incêndio que ninguém jamais soube como começou.


Sentiu saudades da primeira vez que foi sozinha ao cinema com os irmãos mais novos, responsável e orgulhosa.


De quando sentava-se no pátio do colégio, sob as árvores, sozinha, porque um pouco de solidão já se fazia necessário.


Teve saudades da avó, que na imensa cozinha da 'casa grande' da fazenda, remexia-se de um lado pra outro sobre o fogão à lenha e a mesa gigante de madeira, iniciando-a no seu dom para a culinária. A feijoada em família, o churrasco de domingo.


Sentiu saudades da faculdade, dos amigos perdidos, dos amores que não deram certo, das pessoas que a amaram e ela não pôde corresponder. Dos sonhos que abandonou porque, muitas vezes, a realidade com suas obrigações e prioridades é mais urgente e não há tempo a perder.


Teve saudades do primeiro apartamento em que morou sozinha depois do casamento desfeito e do pai chegando todas as manhãs com pão quentinho para o café - que ele preparava, a mesa bonita, enquanto ela tomava banho e se arrumava para trabalhar. Dele lhe beijando a testa na porta do carro e desejando
Bom dia! com seus olhos muito verdes e o sorriso sempre aberto.

Sentiu saudades de quando o acompanhava ao supermercado e esse era 'o' programa das tardes de sábado. Teve saudades também de quando ele ficou muito doente e cansado, e ela pensou que isso podia durar para sempre, contanto que pudesse mantê-lo vivo.


Ela sentiu saudades de quando dor era apenas sinônimo de tropeçar, cortar o dedo, desembaraçar os cabelos. De quando conseguia dormir sem pesadelos ao seu encalço.


Teve saudades de muita coisa - até do que nem se lembrava mais. E viu que um tanto disso pertencia a uma época em que ela ansiava por crescer.


Agora, descobriu que desejava mesmo nunca ter passado de um metro de altura...

março 23, 2011

Suor

Estou só desejo e fome de pele. Fico presa entre te invadir boca adentro ou engolir o próprio suor. E num esforço de racionalidade, guardo tudo em mim.
Me desmancho aos poucos de vontade. Agonizo e diluo nessa chuva que me despe, me atiça e em vão tenta resfriar meu corpo. - Está quente demais! A verdade é que tanto me esconder só faz inflar meus pulmões e me tornar pó, que se espalha e explora o mundo ao meu redor.
As gotas tocam minhas temporas, meu ombro, meu colo. Acariciam o meu corpo e sinto um suspiro ser lançado do meu útero e atingir o ar, muito perto das suas narinas. Me faz toda vertigem e medo.
Você quase notou.
O relógio é a fuga para esconder meus lábios já molhados. E agora vejo que se passou apenas um segundo nos seus olhos.



Crônica:

Doce vida
(Nelson Botter Jr)

O encontro estava marcado para as 15 horas, horário do recreio.
Ela de fitinha rosa nas madeixas loiras, camisa branca de botão e saia azul do uniforme escolar, lancheira do New Kids On The Block e Melissinha.
Ele com seu cabelo ruivo escorrido e penteado para o lado, óculos de aro redondo, uniforme limpinho, sardas e uma sacolinha na mão.
Quando o viu se aproximando, ficou ansiosa. Ele, por sua vez, tinha as pernas trêmulas.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto da garota, enquanto ele mal a olhava nos olhos.
Aproximou-se, cumprimentando-a timidamente com uma das mãos levantadas.
Ela estava linda. Uma bonequinha, um verdadeiro sonho com aquelas bochechas rosadas e um sorriso encantador.
- Achei que você não ia vir.
- Por quê? Que bobo...
- Ah, sei lá.
Ela ficou tímida e ele mais ainda.
- Trouxe isso pra você – ele falou, tirando de dentro da sacolinha um lanche Mirabel.
- É de chocolate? – seus olhos brilharam.
- Não... – ele titubeou – é de morango... tem problema?
Ela pensou um pouco.
- Claro que não, eu gosto de chocolate e também gosto de morango.
Ele sentiu-se aliviado e parecia caminhar nas nuvens quando a viu pegando o pacote de biscoito para guardar na lancheira.
- Obrigada.
- Se você quiser, posso te trazer um Mirabel de chocolate amanhã...
- Jura?
- Sim, juro.
- Eu quero!
- Tá bom, eu trago.
Silêncio. Constrangimento no ar pela falta de assunto.
Ele pensou, pensou e, então, encheu-se de coragem.
- Posso te dar um beijo?
Ela corou. Ficou em silêncio. Então sorriu de leve, charmosinha.
- Por que você quer me beijar?
 Ele não sabia o que dizer. Não sabia como falar que aquele beijo era um gesto de carinho, que a achava uma menina muito legal, doce, meiga... Simplesmente não sabia como dizer isso. E não disse.
- O Alexandre falou que beijou seu rosto na semana passada, então eu também queria um beijo seu...
O semblante dela se transformou. De anjinha a diaba em segundos. Com o olhar, fuzilou o garoto, que não sabia o que fazer pra reparar a bobagem.
Ainda tentou falar algo, mas as palavras não lhe vieram.
O que veio foi um tapa. No rosto. Fraco, mas forte o suficiente para disparar seu coração de garoto inocente.
Ele a viu sair em passos largos e furiosos.
Lá se foi sua menina, seu beijo e seu Mirabel.
Ao ajeitar seus óculos, começou a descobrir o quanto as mulheres são misteriosas e absurdamente tentadoras.
E tinha certeza, sabe-se lá como, mas tinha, que amanhã ela estaria ali, novamente, esperando pelo Mirabel de chocolate.

novembro 17, 2009

Labuta

My Diary:

À mim já não basta só ser sua, preciso que seja necessariamente meu. Obviamente e unicamente meu. E que me dê o posto de sua alegria maior.
Quero ser sua cachaça, que vai curar as lamúrias de um dia demasiado longo. E que a culpa do dia longo seja a minha ausência.
Que não me ver seja um sacrilégio. E me agradar que seja eternamente pouco.
E espero taquecardia quando me olhar e por mim, poderia até quase morrer. Mas só quase.
Quero ser seu veneno e sua cura ao mesmo tempo. O suor salgado.
Que você me deseje mais do que já desejou alguém. Que me ame mais do que a si próprio e que tenha sede da minha pele.
Quero que me beba
que me trague
que me coma.
Ser amada não me sacia, eu quero é ser o seu vicio, a sua maldição, sua perdição e a melhor parte de você.
O meu nome tem de estar escapando pelos seus lábios e que pensar em um pecado contra mim, te leve ao suícidio.
Quero ser indispensável, pelo menos pra você.
Ou só pra você.
Quero embolar suas palavras, escapar pelos seus dedos, e gerar virgulas e pontos finais nas suas mãos.
Única.
Que prefira morrer a ver-me em outras bocas.
E não adianta o todo tempo que estiver contigo, pois quero que ele seja sempre insuficiente.
E que doa tanto a insuficiência, que você nunca esteja saciado de mim.



Crônica da Semana:

Um dia de Merda
(Luis Fernando Veríssimo)

Aeroporto Santos Dumont, 15:30.


Senti um pequeno mal-estar causado por uma cólica intestinal, mas nada que uma urinada ou uma barrigada não aliviasse. Mas, atrasado para chegar ao ônibus que me levaria para o Galeão, de onde partiria o vôo para Miami, resolvi segurar as pontas. Afinal de contas são só uns 15 minutos de busão.
Chegando lá, tenho tempo de sobra para dar aquela mijadinha esperta, tranqüilo, o avião só sairía às 16:30'.

Entrando no ônibus, sem sanitários. Senti a primeira contração e tomei consciência de que minha gravidez fecal chegara ao nono mês e que faria um parto de cócoras assim que entrasse no banheiro do aeroporto.
Virei para o meu amigo que me acompanhava e, sutil falei:

'Cara, mal posso esperar para chegar na merda do aeroporto porque preciso largar um barro.'

Nesse momento, senti um urubu beliscando minha cueca, mas botei a força de vontade para trabalhar e segurei a onda...
O ônibus nem tinha começado a andar quando, para meu desespero, uma voz disse pelo alto falante:

'Senhoras e senhores, nossa viagem entre os dois aeroportos levará em torno de 1 hora, devido a obras na pista.'

Aí o urubu ficou maluco querendo sair a qualquer custo. Fiz um esforço hercúleo para segurar o trem merda que estava para chegar na estação anus a qualquer momento.
Suava em bicas. Meu amigo percebeu e, como bom amigo que era, aproveitou para tirar um sarro.
O alívio provisório veio em forma de bolhas estomacais, indicando que pelo menos por enquanto as coisas tinham se acomodado. Tentava me distrair vendo TV, mas só conseguia pensar em um banheiro, não com uma privada, mas com um vaso sanitário tão branco e tão limpo que alguém poderia botar seu almoço nele. E o papel higiênico então: branco e macio, com textura e perfume e, ops, senti um volume almofadado entre meu traseiro e o assento do ônibus e percebi, consternado, que havia cagado.
Um cocô sólido e comprido, daqueles que dão orgulho de pai ao seu autor. Daqueles que dá vontade de ligar pros amigos e parentes e convidá-los a apreciar na privada. Tão perfeita obra, dava pra expor em uma bienal.
Mas sem dúvida, a situação tava tensa. Olhei para o meu amigo, procurando um pouco de piedade e confessei sério:

'Cara, caguei!'

Quando meu amigo parou de rir, uns cinco minutos depois, aconselhou-me a relaxar, pois agora estava tudo sob controle.

'Que se dane, me limpo no aeroporto, pensei. Pior que isso não fico'.

Mal o ônibus entrou em movimento, a cólica recomeçou forte. Arregalei os olhos, segurei-me na cadeira, mas não pude evitar e, sem muita cerimônia ou anunciação, veio a segunda leva de merda.
Desta vez, como uma pasta morna. Foi merda para tudo que é lado, borrando, esquentando e melando a bunda, cueca, barra da camisa, pernas, panturrilha, calças, meias e pés.
E mais uma cólica anunciando mais merda, agora líqüida, das que queimam o fiofó do freguês ao sair rumo a liberdade.
E depois um peido tipo bufa, que eu nem tentei segurar. Afinal de contas, o que era um peidinho para quem já estava todo cagado...?
Já o peido seguinte, foi do tipo que pesa. E me caguei pela quarta vez.
Lembrei de um amigo que certa vez estava com tanta caganeira que resolveu botar modess na cueca, mas colocou as linhas adesivas viradas para cima e quando foi tirá-lo levou metade dos pêlos do rabo junto.
Mas era tarde demais para tal artifício absorvente. Tinha menstruado tanta merda que nem uma bomba de cisterna poderia me ajudar a limpar a sujeirada.
Finalmente cheguei ao aeroporto e saindo apressado com passos curtinhos, supliquei ao meu amigo que apanhasse minha mala no bagageiro do ônibus e a levasse ao sanitário do aeroporto para que eu pudesse trocar de roupas.
Corri ao banheiro e entrando de boxe em boxe, constatei falta de papel higiênico em todos os cinco.
Olhei para cima e blasfemei:

'Agora chega, né?'

Entrei no último, sem papel mesmo, e tirei a roupa toda para analisar minha situação (que concluí como sendo o fundo do poço) e esperar pela minha salvação, com roupas limpinhas e cheirosinhas e com ela uma lufada de dignidade no meu dia.
Meu amigo entrou no banheiro com pressa, tinha feito o 'check-in' e ia correndo tentar segurar o vôo.
Jogou por cima do boxe o cartão de embarque e uma maleta de mão e saiu antes de qualquer protesto de minha parte.

'Ele tinha despachado a mala com roupas'.

Na mala de mão só tinha um pulôver de gola 'V'. A temperatura em Miami era de aproximadamente 35 graus.
Desesperado comecei a analisar quais de minhas roupas seriam, de algum modo, aproveitáveis. Minha cueca, joguei no lixo. A camisa era história. As calças estavam deploráveis e, assim como minhas meias, mudaram de cor tingidas pela merda. Meus sapatos estavam nota 3, numa escala de 1a 10.
Teria que improvisar. A invenção é mãe da necessidade, então transformei uma simples privada em uma magnífica máquina de lavar.
Virei a calça do lado avesso, segurei-a pela barra, e mergulhei a parte atingida na água. Comecei a dar descarga até que o grosso da merda se desprendeu. Estava pronto para embarcar.
Saí do banheiro e atravessei o aeroporto em direção ao portão de embarque trajando sapatos sem meias, as calças do lado avesso e molhadas da cintura ao joelho (não exatamente limpas) e o pulôver gola 'V', sem camisa.
Mas caminhava com a dignidade de um lorde.
Embarquei no avião, onde todos os passageiros estavam esperando o 'RAPAZ QUE ESTAVA NO BANHEIRO' e atravessei todo o corredor até o meu assento, ao lado do meu amigo que sorria.
A aeromoça aproximou-se e perguntou se precisava de algo.
Eu cheguei a pensar em pedir 120 toalhinhas perfumadas para disfarçar o cheiro de fossa transbordante e uma gilete para cortar os pulsos, mas decidi não pedir:

'Nada, obrigado.'

Eu só queria esquecer este dia de merda. Um dia de merda...

Luis Fernando Veríssimo (verídico).

junho 13, 2009

Aiai

My Diary:

Antigamente eu escrevia toda semana.
Mas isso era antigamente.
Na época em que as palavras não ficavam a um triz de fugir da minha boca e eu tinha a cabeça pouco menos ocupada do que está agora.
E sabe-se lá porque, apesar de não estar com os nervos à flor da pele e os sentimentos todos escapando pelos poros, àquela época me vinham coisas a escrever.



Quero ouvir, quero falar,quero sentir sabores e odores. Quero tantas coisas e tantas coisas distantes das minhas mãos.
E só o que eu penso é no quanto meus batimentos aceleram repentinamente. E o quanto são gostosos os meus suspiros inesperados.
Ao mesmo tempo que não me deixo cair, também não me deixo no chão. E é onde eu me perco. Mas porque se perder tem de ser necessariamente ruim?

É tudo tão confuso que minhas palavras perderam a coesão. Não estou apta a escrever. Não mesmo.
Muito menos a perceber o que estou pensando ou sentindo.
Acho que na verdade, estou estática. O mais estático que o meu corpo pode se manter.
Com os batimentos a 200 por minuto. Em repouso. Não quero saber como estão eles durante atividades físicas.
Não posso pensar na palavra "físicas" agora.
Ela me levaria a horas de escritos sem sentido...



Poesia da semana:

Panorama Além
(Cecília Meireles)

Não sei que tempo faz, nem se é noite ou se é dia.
Não sinto onde é que estou, nem se estou. Não sei de nada.
Nem de ódio, nem amor. Tédio? Melancolia.
-Existência parada. Existência acabada.

Nem se pode saber do que outrora existia.
A cegueira no olhar. Toda a noite calada
no ouvido. Presa a voz. Gesto vão. Boca fria.
A alma, um deserto branco: -o luar triste na geada...

Silêncio. Eternidade. Infinito. Segredo.
Onde, as almas irmãs? Onde, Deus? Que degredo!
Ninguém.... O ermo atrás do ermo: - é a paisagem daqui.

Tudo opaco... E sem luz... E sem treva... O ar absorto...
Tudo em paz... Tudo só... Tudo irreal... Tudo morto...
Por que foi que eu morri? Quando foi que eu morri?

maio 17, 2009

Me enfeita num beijo

My Diary:

Agora tudo vai se apagando e se tornando negro e a pele arrepia com o frio que vem da janela entreaberta e chuva fina que é trazida pelo uivo constante do vento traz imagens para o meu quarto.
Turvas e em cores quentes. Quentes - tão quentes - que se derretem e se misturam. E se separam. E se desenham e se apagam.
E o ar deste lugar vai ficando escasso e denso. Úmido. Quente como as cores que não param de se fundir.
E agora eu é que me derreto. A começar pelos meus olhos que escorrem em preto até no canto da minha boca com o gosto daquela salina. E todo o rosto branco e cálido que tive se torna verde.
Um mergulho num mar límpido e verde, de onde eu não quero sair jamais.
Me afogo e me salvo. Milhões de vezes em segundos até voltar à terra firme.
Nas minhas mãos, tenho a alma e o coração que já não cabiam no corpo disforme e que tenho que segurar firme para que não me escape e se misture à confusão de formas que eu tenho na minha frente.
Tudo se apaga novamente e, num último instinto, inspiro aquele ar pesado.
Mas sem alma eu não respiro.
Não tenho ar.
Não tenho ar.
Não tenho...
E depois de segundos desacordada, o sol atinge duas esmeraldas que cegam a minha visão.
Tudo luz verde ao meu redor.
E agora estou salva. Com minha alma e coração de volta ao peito. A respiração regular. E eu toda não mais disforme.
Eu toda.



Crônica da Semana

Vou não vou
(Nelson Botter Jr.)

- te devoraria tal caetano a leonardo di caprio
- isso é música, é?
- é, mas também é o que eu sinto quando cruzo olhares contigo
- obrigada, mas não quero não
- é, eu sei
- mas nem esquenta, caê, tem mais quinhentas por aí que seriam o seu leonardo di caprio num estalar de dedos
- é, eu sei
- então...
- ...
- ai, menino, tudo menos silêncio, acho desesperador, constrangedor, sei lá
- não tenho nada pra dizer, além do que já disse
- ah, sabe o que é... espero que você entenda, é que não me envolvo com garotos solteiros
- hein?
- não me envolvo com garotos solteiros
- mas quem falou em envolvimento?
- ah, que fosse uma noite e nada mais, pra mim já é um tipo de envolvimento, sabe... sou reservadona, sensível, moro no alto da torre do castelo, qualquer pele com pele já é um tipo de violação pra mim, quer dizer, envolvimento, coisa sagrada, sabe, eu sou assim, fazer o quê? espero que você entenda
- é, você sempre espera que eu entenda
- isso
- mas mesmo que role um carinho, qual o problema? não quer dizer que vai ficar apaixonadona e que vai sofrer por minha causa, é só uma amizade que rola algo a mais, uns beijinhos de vez em quando, um sexo gostoso...
- hahaha, garoto convencido, se liga, apaixonada eu? mesmo se eu sentisse alguma coisinha a mais de especial por você não desceria do salto, você nunca saberia, nem uma dica sequer, sou clássica, e essa coisa de amizade com sexo não rola, são princípios da minha vovó, tradição é tradição, sublimo com sorvete e seriados na tv a cabo
- e qual o problema de demonstrar algum afeto, baixar um pouco a guarda?
- eu não, vai que você me convence...
- se tem medo de ser convencida é porque quer que role, só não tem coragem... não?
- ihh, quer saber, você faz muitas perguntas, me irrita, me atrapalha... tinha de ser solteiro, né? quando bati o olho na sua mão e não vi aliança já sabia que era confusão à vista
- mas o que você tem contra solteiros?
- ué, não gosto de sofrer não
- sofrer?
- isso, a possibilidade de compromisso me arrepia, sabe, eu sou assim mesmo, prefiro homens casados ou que namoram, eles sabem os limites, não ficam atrás de você esperando algo a mais, querem ir direto ao ponto e fim de papo, solteiros não, procuram relacionamento, uma nova mãe, eu tô fora, já tenho um hamster que me consome muita atenção, cruzes!
- mas sou um solteiro diferente, ajo feito casado ou compromissado, fico na minha, nem vou querer algo mais sério depois, a amizade continua normal, apenas a cumplicidade aumenta
- não vai mesmo querer algo mais sério depois?
- não!
- e por que não? você não me acha bonita o suficiente? não sou boa o suficiente pra ser sua namorada?
- eu não disse isso
- então disse o quê? acha que sou bobinha? que não entendo nas entrelinhas? tudo bem, tudo bem, eu consigo superar... seu grosso
- mas você mesma disse que...
- não precisa ficar se explicando, tudo bem, eu sou assim mesmo, espero que você entenda
- eu realmente não estou entendendo mais nada
- pois é, homens, todos iguais, nunca entendem nada, depois nós é que somos complicadas
- olha aqui pra mim, pára de chorar, por favor, vai
- tá tudo bem, vou ficar bem
- eu não quis dizer aquilo que... que disse
- me leva pra casa?
- mas...
- eu sabia que você seria dor de cabeça na certa
- tô quieto
- você tem chocolate aí?
- chocolate???
- é, cacau, açúcar...
- eu tô aqui falando sério e você com esse papo de doce?
- ai ai ai, vamos embora, vai
- ...
- vamos, cafa
- hmm...
- esse seu olhar me mata, menino
- esquece o certo e o errado, vamos aproveitar enquanto existe vida
- dramático
- sou
- xavequeiro
- sou
- charmoso
- sou?
- tentador
- sou?
- ai ai
- quê?
- vamos, meu caetaninho, vamos
- pra onde?
- demorou...
- hmmm
- é, caê, menino abusado, vamos
- pois não, madame di caprio, e vamos pra minha ou pra sua casa?
- melhor pra sua, né... se formos pra minha acho que meu marido não vai gostar

agosto 16, 2008

Lavadeira

My Diary:

Como será a vida de um corpo celeste? Por exemplo... Um satélite natural?
Pensemos no nosso único satélite natural: Nossa Lua.
Bela, incomparável, gigante e linda.
Maravilhoso contemplá-la, e, invariavelmente, alguém já a contemplou, se encantou e torna a fazê-lo alguma outra vez.
Apesar de não tomar conta da noite sozinha, é quem tem o brilho mais intenso. E quem mais chama atenção - provavelmente porque é a mais alcançável.
Sempre imagino que se a Lua fosse um ser animado (e sabe que eu não duvido disso?), talvez ela adorasse toda essa paixão.
Mas tenho parado para pensar... Entre nossos principais corpos celestes (Sol e Lua), ela é a desnecessária. Todos podem sobreviver sem ela; é esquecida quando vem o dia; apagada pela luz; e todo mundo sempre a faz lembrar de que ela não tem brilho próprio.
Se torna algo apenas de contemplação momentânea. E momentânea mesmo, porque nem sempre as pessoas lembram dela.
Só quando não tem mais nada com maior brilho para ocupar sua mente.
Aí lembram da Lua.
De repende, ela começa a detestar essa contemplação.
Ninguém gosta de ser prazer momentâneo. Ocupação para o tempo ocioso.



Posia da Semana:

Eu tô que tô (Trecho)
(Kleiton e Kledir)

(...)

Vem cá minha compoteira
Balança essa pasmaceira
Me bate com a cabideira
Me chama de lavadeira...

Não grita, não dá bandeira
Periga marcar bobeira
Quebrei o pé da cadeira
Cuidado com a cristaleira...

Segura, me deu gagueira
Eu juro que é verdadeira
Disfarça e chama a enfermeira
Tá dando uma tremedeira
Mamãe, viva o Zé Pereira!
Cadê meu advogado?...

Eu Tô Que tô! Eu Tô Que Tô!
Eu Tô Que tô! Eu Tô Que Tô!

La luz a la media boca
Besame mucho loca
Não, isso não
Me dá coceira...

(...)

dezembro 14, 2007

Eu te amo!

(no Weblogger - o falecido - sexta-feira, 14 de dezembro de 2007)

My diary:

Eu te amo! E não finja que não percebeu, pois até o vento já me olha diferente. Até o vento já percebe que te amo!
Um dia sem vê-lo é mais um dia perdido. Sinto-me definhar a cada segundo em que não cruzo com seus olhos e não sinto o seu perfume - não propriamente um perfume, mas o cheiro da sua pele. E sinto que vou morrer em cada fuga de pensamento em que me vem a possibilidade de ele estar com alguém. E sinto que não sobrevivo se nem ao menos sonhar com ele antes de dormir.
Mas seus cheiro está tão distante...

Quero chorar, quero correr, quero gritar... Mas acima de tudo, quero ser sua! E quero que seja meu! Preciso dele para sobreviver.
Preciso dele.
Ou vou definhar como uma folha seca.



Poesia da Semana:

Antialética
(Camila Quevedo)

É claro que sinto dor
E que minha melancolia, é indízível
É claro que te acho linda
Em você vejo a beleza e a perfeição
É claro que a vida é bela
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que te amo