agosto 23, 2011

Das pernas tortas


Dançamos alegrias fazendo de conta que a música ainda toca. Rodopiamos sem sair do lugar e quase desequilibramos e quase perdemos o eixo num rítmo arisco que gosta de fingir que é equilíbrio e gosta de fingir que é paz.
Com medo arredio a gente segue a nossa coreografia, dançando na ponta dos pés que é para não acordar o sossego. Sentindo de olhos fechados o som que não se pode ouvir, dançamos uma dança torta com as pernas bambas.

(Texto que já não é coerente com a ausência total de música e gestos que tomou conta da minha vida. Mas já estava escrito, então publiquei)



Crônica:

Tempo de Saudade
(Debora Bottcher)

Então ela sentiu saudades. Do tempo em que sua maior preocupação era chegar a tempo da escola para ver Jeanny é um Gênio e Penélope Charmosa. De quando suas lágrimas eram só porque a mãe a mandava tomar banho quando ela ainda queria brincar.

Também sentiu saudades do pai: de quando andava com ele de mãos dadas pela feira, atrapalhando na escolha das frutas; de quando ele a jogava na piscina de adultos para ensiná-la a nadar, esperando, ansioso e atento, que ela emergisse sã e salva do fundo; de quando a mãe foi embora - porque as relações podem ficar muito complicadas mesmo que uma criança não seja capaz de entender - e ele cuidou dela e dos irmãos como nenhum outro pai faria.


Sentiu saudades de quando dormia em seus braços deitada no tapete da sala vendo TV e ele a levava para a cama - seu beijo delicado depois de cobrí-la; de quando ele não chegou a tempo para a sua formatura.


Teve saudades também de quando ele caminhou ao seu lado, relutante, rumo ao altar a fim de entregá-la à união com um homem que não lhe parecia a melhor opção; e especialmente de quando ele foi buscá-la de volta, não muito tempo depois, sem fazer nenhuma pergunta.


Ela sentiu saudades de quando se vestia de odalisca, bruxa e fada para brincar o carnaval.


De quando, nas manhãs de sábado, chamava os irmãos e invadiam o quarto dos pais jogando-se na cama para acordá-los: riso e alegria; e de quando eles se enfiavam todos, os cinco, debaixo do cobertor, juntos e seguros, o mundo inteiro cabendo naquelas quatro paredes.


Também teve saudades de quando aprendeu a ler e escrevia seus primeiros poemas num caderninho colorido que escondia nas gavetas, debaixo das roupas. Depois vieram os diários, a coleção de papéis de carta, o vício de rabiscar até em guardanapos pra não perder o fio de uma idéia.


Sentiu saudades dos disquinhos coloridos que cantavam músicas divertidas nas histórias de sapos, príncipes e princesas - tudo muito encantado. Teve saudades de seus livros de contos de fadas, que um dia foram queimados num incêndio que ninguém jamais soube como começou.


Sentiu saudades da primeira vez que foi sozinha ao cinema com os irmãos mais novos, responsável e orgulhosa.


De quando sentava-se no pátio do colégio, sob as árvores, sozinha, porque um pouco de solidão já se fazia necessário.


Teve saudades da avó, que na imensa cozinha da 'casa grande' da fazenda, remexia-se de um lado pra outro sobre o fogão à lenha e a mesa gigante de madeira, iniciando-a no seu dom para a culinária. A feijoada em família, o churrasco de domingo.


Sentiu saudades da faculdade, dos amigos perdidos, dos amores que não deram certo, das pessoas que a amaram e ela não pôde corresponder. Dos sonhos que abandonou porque, muitas vezes, a realidade com suas obrigações e prioridades é mais urgente e não há tempo a perder.


Teve saudades do primeiro apartamento em que morou sozinha depois do casamento desfeito e do pai chegando todas as manhãs com pão quentinho para o café - que ele preparava, a mesa bonita, enquanto ela tomava banho e se arrumava para trabalhar. Dele lhe beijando a testa na porta do carro e desejando
Bom dia! com seus olhos muito verdes e o sorriso sempre aberto.

Sentiu saudades de quando o acompanhava ao supermercado e esse era 'o' programa das tardes de sábado. Teve saudades também de quando ele ficou muito doente e cansado, e ela pensou que isso podia durar para sempre, contanto que pudesse mantê-lo vivo.


Ela sentiu saudades de quando dor era apenas sinônimo de tropeçar, cortar o dedo, desembaraçar os cabelos. De quando conseguia dormir sem pesadelos ao seu encalço.


Teve saudades de muita coisa - até do que nem se lembrava mais. E viu que um tanto disso pertencia a uma época em que ela ansiava por crescer.


Agora, descobriu que desejava mesmo nunca ter passado de um metro de altura...

2 comentários:

Dancer disse...

Você quer mesmo saber? Eu te amo. Ponto.

Mari disse...

aah uqe lindo... saudade da dança, ótimo texto!
obrigada pelos comentários... e fiquei curiosa sim... quero saber mais sobre isso =D

bjos