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maio 30, 2013

O que não faz um par de brincos na orelha direita


Passando batom. Rímel. Blush. E todas essas "feminilidades" que usamos para nos sentirmos melhores do que achamos que somos. Hoje saí armada de cosméticos e promessas de sedução e pele perfeita, e, não é por nada não, mas essa besteirada toda é muito interessante.
Sai toda acreditando-me, caminhando com fulgor até o momento em que olhei o reflexo do retrovisor de um carro, estacionado ao meu caminho, enquanto esperava apara atravessar a rua. Que curioso, o que eu vi.
Naquele reflexo estava eu.
Encontrei ali, muito além de uma máquina de fazer operações matemáticas ou digitar caracteres por segundo. Tinha gente viva ali dentro.
Então tomei meu pulso. Havia pulso aqui, dentro de mim.
Fui percebendo o trabalho de cada um dos meus órgãos e das minhas células. As trocas gasosas nos alvéolos pulmonares, os pulsos elétricos percorrendo todos os meus nervos, os poros se abrindo, minhas mitocôndrias consumindo glicose indiscriminadamente. A temperatura do corpo mudando discretamente. Os músculos da face se articulando com a surpresa das descobertas.
Tão de repente. Tanta certeza de que eu existo de verdade. Tanta coisa que estava perdida e escondida por detrás de uma cortina de razões e preocupações estupidas.
Até que ventou. E eu senti meus cabelos balançarem enquanto fechava meus olhos para deixar o mundo acarinhar minhas têmporas.
Então reacordei do meu mergulho interno e olhei em volta. Perdi o tempo de atravessar a rua. Agora, mais um minuto de espera para chegar ao meu destino.
Pára. Escuta.
Havia tanta gente também.
Gente viva como eu.
Batom. De novo.
Sorriso.
Senti o cheiro da leveza. E sorri de novo. Outra vez, de maneira furtiva.
Estou toda furtiva, tão de repente. Nem vi, e já estava existindo.
Minha dança volta acontecer. Quer ver?

Agora tenho trilha sonora nova.
Se ficar olhando vai me ver dançar.


Música:
(Eu to toda me querendo, toda me sentindo. E a música é vazia demais para dispor a letra de maneira escrita. E não acompanha bem o post. Mas ela é relevante o bastante para aparecer aqui, em algum momento. E me permitam, sou carioca! ;)



Música para ilustrar: Show das Poderosas - Mc Anitta
Mc Anitta - Show Das Poderosas by Va - www.musicasparabaixar.org on Grooveshark



fevereiro 06, 2013

Vai abrindo

Resvalo em meio sorriso por entre os olhos da multidão.
Abram alas para mim, que hoje é dia de desfilar os meus melindres!
Vou ouvindo comentários lisonjeiros e deixando que se cheguem aos meus ouvidos. Estou bem, como se vê.
Lancem seus valores no mercado, que eu vou corando as maçãs e largando meu perfume pelo ar.
Sou grata pelo afagos no rosto. Hoje não há ninguém que não os liros e eu - e os enaltecimentos, assovios, os desejos.
Já me bastam, mas só por hoje, tudo isso. O céu ganhou novas cores.
Fiquei grande e não caibo em mim.
Estou assim, como quem pode. Me indo e me vindo de todos os cantos, toda indiscreta.
Dá licença para eu passar aqui com meu encanto, porque hoje eu estou bela.



Crônica:

Para continuar expandindo os conhecimentos literários alternativos. É longa, aviso logo.
O último shot
(Cléo Araújo)

Fazia duas semanas ela tinha um namorado novo.
Amor de pub, amor descoberto ao som de “Secret Smile” de Semisonic. Amor lindo, amor perfeito, amor de remember do final dos anos 1990.
Simplesmente qualquer coisa de tudo.

Apaixonada, descabelada e magra, como sempre quando acometida por aquela dieta de paixão, ela foi viajar. Era uma viagem marcada há tempos, antes de qualquer Secret Smile, Semisonic ou novo namorado existirem. Quase quis não ir, mas foi. Milhas aéreas. Questão de honra. Foi querendo voltar. E voltou, depois de dezoito dias contados pelo México, quando chegou a cumprimentar os passantes em Playa Del Carmen como se vizinhos fossem, preta de sol, morrendo de saudade, cheia de ideias e de pimenta.

Com a memória ainda fresca das misturas inusitadas em Tacos e Burritos, nada poderia ser mais adequado para receber os amigos e o hombre do que um animado e apimentado jantar mexicano.
E foi assim que foi.

Visitas a três supermercados para garantir os melhores ingredientes na manufatura dos pratos.
Tudo comprado e sem assistentes, ela se internou na cozinha.

Primeiro, o guacamole. O abacate estava maduro e fácil de amassar. Coentro, azeite, sal, limão. Pronto. Verde. Depois, a salsa. Pica daqui, pica dali e mais um molhinho aperitivo suculento e ardido estava pronto. O sour cream adaptado: cream cheese com gotinhas de limão. Voillá. Alface picada, cheddar desfiado. Check.

A pobre não tinha sequer começado a se arrumar quando já eram quase cinco da tarde. E ainda faltava ele: o chilly com carne.

Pica mais cebola, pica mais tomate, maceta mais alho. Os dedos não estão cheirosos, não.

Cozinha o feijão na pressão.  A cozinha, agora, é uma bagunça aterrorizante.

Refogas, pimentões, cominho, muito cominho. Nessas alturas, sua casa era quase um pedaço do México. Até o armário de roupas cheirava a comida mexicana. Greenleaf Vanilla respingado em almofadas de sachê para deixar tudo doce, tudo como ela queria ser, sempre.
A massa do taco, então, única coisa já comprada pronta, estava na assadeira, só esperando para ser esquentada, pouco antes de ser servida.
As quesadillas estavam montadas. Sim, havia quesadillas. Elas entrariam no forno quando o taco saísse.

Opa, faltava a margherita.
Tequila, limão, Countreau, Arno. Arriba, arriba, ai ai ai!

A mesa estava arrumada, perfeita. Tão, tão linda.

Deu tempo para um banho e um hidratante. Batom, deu. Rímel, não.

Os convidados chegam.
Ele chega.
Eles entram.
Ele entra.
O amor.
Lindo.
Tudo.

Todos se acomodam ao redor de sua mesa de hotel de Cancun.

O namorado se impressiona e ela ama.

Todos começam a saborear suas tortillas com guacamole, ah, o sour cream. E essa salsa? O que tem aqui? O namorado morde o tira-gosto e olha feliz, olha para ela, olha apaixonado. “Seu amor por uma tortilla”.

Ela corre para cozinha, mal participa das animadas conversas à mesa, desculpem, tenho um chilly para assistir. Todos comem e degustam a tequila ao som de Maná, antes de os pratos principais serem servidos. “Sigue llovendo, sigue llovendo al corazón...”.

Os convidados e o namorado insistem para que ela se sente um pouco. Venha, fique aqui com a gente. Não dá. Tá borbulhando. Finalmente, ela concorda. Acomoda-se à cabeceira. Antes de experimentar o guacamole, ou de comer um Doritos, ou de provar a salsa, ou de comer um amendoim, que fosse, ela resolve tomar um shotzinho de tequila.

Um só.
Um shotzinho que era, às nove da noite, o seu café da manhã.

Jose Cuervo, primeiro, pinicou os seus lábios.
Foi escorregando língua, amídalas, esôfago abaixo. Chegou à base da garganta feito um escorpião, deixando um rastro de fogo e anestesia em toda a região. A labareda tormentosa desceu violenta feito Un amor perro de Iñarritu e caiu dentro do seu estômago mais pesada e devastadoramente do que um revolucionário zapatista.

As pessoas à mesa se afastaram como que se passassem para uma dimensão paralela. O espaço-tempo se distorceu. Ela estava a léguas de distância de tudo e de todos em seu delírio tequílico.

Tudo, tudo girou.

Trôpega, magra e semi-sã ela se levantou e correu para a penumbra do seu quarto. Caiu na cama.

Ali, se murió.

Felizmente, estava tudo pronto e tudo quente, como a namorada recente e perfeita deveria fazer, mesmo que pesando 45 quilos.


Mãos amigas (do namorado? - era impossível dizer) visitaram-na semimorta em seu quarto. Checaram sua respiração. Ela respirava. Mas não conseguia falar.
De tempos em tempos, alguém ia zelar por sua sobrevivência. De lá, da cama, ela podia ouvir as conversas animadas e a aprovação de seus pratos. Uma delícia o chilly, muito boas as quesadillas, genial esse guacamole. Mas ela teve só que dormir. Não havia mais nada que pudesse fazer.

Depois desse dia, tudo mudou. Ela nunca mais tomou tequila. Nunca mais fez margherittas. Sempre come pelo menos uma castanha de caju antes de beber qualquer tipo de álcool.

Ainda hoje, prepara jantares mexicanos.

O namoro acabou. 


Não pela noite quase perfeita, mas por aquelas imperfeições misteriosas que não se corrigem nem acrescentando todo o sal, todo o coentro ou todo o cominho que há no México.

junho 21, 2012

Fêmea delta


Música para acompanhar: The Ballad of Monalisa - Panic! At the Disco



Sinto muito, mas não sou a mulher que você espera. Desculpe decepcionar-te.
Nada tenho a te oferecer de habitual numa conversa macho/fêmea. Nada de voz sedutora, de jogos corporais, de flertes. Nenhum papo fingidamente desinteressado, travestido de conversa casual. Sem etilismo.
Aqui você não vai encontrar aquela conquista fácil, resultante de joguinhos de sedução baratos, que se pratica em noites de tédio.
Não. Não aqui.

Nada disso posso te oferecer. O máximo que consegue extrair de mim será minha timidez. Constante e indisfarçável.
Sou boba e fácil de seduzir, confesso. Mas não tenho receita. De repente: gostei ou não gostei! Não há regras ou manual de instruções.
Também não adianta discorrer elogios, porque não acredito neles. Não sou bonita, estou fora de forma e tenho chulé se fico muito tempo com sapato fechado sem meia. Eu não atraio visualmente, então, o máximo que vou poder te dar em retorno pelos galanteios é meu sorriso amarelo.
Ser seu tipo de mulher provavelmente seria muito mais fácil e efetivo. Mas não...

Eu falo olhando fixamente nos olhos, o que pode parecer ameaçador às vezes.
É a única forma que sei me comunicar, até que algo me faça perder a compostura e eu seja obrigada a evadir para meus pés.
Desde a mocidade tenho tanta certeza de mim, que usar meu espelho para baixar minha guarda não é possível. Tenho dedos magros, expressiva flacidez nadegueira, cabelos rebeldes e lido muito bem tudo com isso. Não me causam insegurança – ainda que não me causem satisfação.
Aquela solicitação gratuita de elogios nunca parte daqui - ou quase nunca. Eu gosto do reconhecimento pelo que conquistei e não o camuflo com falsa modéstia.

Devo ser o avesso daquilo que lhe atrai.
Sou um leão que brinca de ser bailarina de vez em quando. Daqueles que não se abalam por nada aparentemente.
Não estou sempre penteada, nem tenho as unhas bem feitas. Mas garanto que minhas mãos te acarinham o rosto com delicadeza que você nunca conheceu.
Enaltecimento excessivo me cansa. Não sou fêmea de pavão.
Gosto do retrato sincero. Quaisquer dos seus métodos de sedução típicos não funcionarão. Desculpe castrá-lo. Não era minha intenção. Mas pelo jeito, nasci rebelde.

Sussurros pela nuca não me eriçam, pelo contrário, me causam asco. Mas a honestidade... Essa pode me derrubar.
Eu tento a todo custo disfarçar atração e anseio. Mas se você estiver diante dos meus olhos neste momento, vai perceber bem rápido apesar do meu empenho.
Divido as contas, bebo whisky, assumo minha miopia e amo batom vermelho.

Eu sei que sou o avesso de tudo o que você já viu.
Mas também sou o que está te tirando o sono agora.

agosto 17, 2010

Meu savoir-faire


Com o meu sorriso eu sou uma lição de talento e muito estilo, ninguém tem como não ver o meu savoir-faire.
Sou noveau, robô, romano, grego, rococó, barroco, e pop, e pop... Ah! Eu sou pop! (Alguém me segure!!)
Caras bonitas não surgem à toa - eu me destaco sim na multidão.
Depois de feito quebraram meu molde. Com muita elegância e refinação sou uma alucinação!

Vilões criam confusões, decorem as celas das prisões: o verde combina com qualquer coisa que quiserem, viram?
Tem mais uma coisa que eu quero cantar, abram a boca e gritem sem parar:

CUIDADO!!!!!
Esse é o Maskara!


- Que demais!!! -