A bailarina entra em cena inúmeras vezes e, em todas elas, se apodera da atenção do público que esquece suas mazelas enquanto se perde na abstração que resvala delicadamente pelo linóleo, equilibrada nas pontas dos pés.
Sua vida é estar pronta para acalmar os corações alheios com ternura, roubando suas dores para si e concentrando-as nos músculos e nos pés que (e a plateia nem desconfia) se sustentam em alguns centímetros de gesso duro.
Ela é aquilo de intangível, meio fada, meio anjo, que vai alimentar todo um teatro de paixão, até que o último expectador se levante levando para a casa a doçura que, executada com amor incondicional, mascarou um tanto de martírio durante três atos.
Todos os dias.
E em todos eles, um passo mais próximo da perfeição.
Mas toda bailarina um dia tem de pendurar as sapatilhas. O corpo não suporta dançar para sempre.
É preciso descansar aquilo que o público não pode ver. É preciso dar paz à carne, aos ossos, à pele calejada. Desmanchar o sorriso eterno. Ser humana, finalmente.
Ainda que ninguém perceba, seus braços doem exaustivamente durante o adagio final e todos os seus movimentos carregam um tanto mais de sacrifício.
Na última coreografia, enquanto a casa se distrai, ela prende a respiração por mais alguns segundos e encerra a fantasia com o sorriso elegante e os gestos delicados com os quais conduziu toda a encenação: reverence.
Flores.
Cai o pano. Agora pode respirar aliviada.
Fim do espetáculo.
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setembro 29, 2016
julho 02, 2014
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Eu e você éramos uma espécie de erva daninha. Crescíamos espontânea e involuntariamente um no coração do outro e arrancávamos as flores que foram cuidadosamente cultivadas.
Não havia veneno nem remédio. Há um ditado que diz que "o que não tem remédio, remediado está". É mentira, nada estava remediado ou curado nem nunca estaria.
Nós nos machucávamos tanto, mas, de tanto amor que sentíamos, passamos a amar também as feridas que causávamos um no outro.
Eu não queria mais sentir esse amor e você queria me arrancar de dentro de si. Esse amor era um vício e,como os viciados, não conseguíamos nos livrar. Não havia clínica de reabilitação para amor doído.
Chorei durante semanas (ou meses, fiquei perdida no tempo) quando percebi que, embora esse amor fosse maior que eu, maior que você, maior até que nosso orgulho e vergonha na cara, eu já não te queria mais, mesmo sabendo que sua ausência me causaria dores terríveis e, provavelmente, um arrependimento eterno.
A verdade é que eu te amava, com todas as minhas forças (e fraquezas), mas não estava mais apaixonada por você.
Texto de Thatii Conde
Não havia veneno nem remédio. Há um ditado que diz que "o que não tem remédio, remediado está". É mentira, nada estava remediado ou curado nem nunca estaria.
Nós nos machucávamos tanto, mas, de tanto amor que sentíamos, passamos a amar também as feridas que causávamos um no outro.
Eu não queria mais sentir esse amor e você queria me arrancar de dentro de si. Esse amor era um vício e,como os viciados, não conseguíamos nos livrar. Não havia clínica de reabilitação para amor doído.
Chorei durante semanas (ou meses, fiquei perdida no tempo) quando percebi que, embora esse amor fosse maior que eu, maior que você, maior até que nosso orgulho e vergonha na cara, eu já não te queria mais, mesmo sabendo que sua ausência me causaria dores terríveis e, provavelmente, um arrependimento eterno.
A verdade é que eu te amava, com todas as minhas forças (e fraquezas), mas não estava mais apaixonada por você.
Texto de Thatii Conde
fevereiro 03, 2014
Desenterrando rascunhos
Aconteceu como naqueles minutos que sucedem um sonho, quando você acorda repentinamente depois de uma noite de sono intensa. Quando você gasta tempo refletindo até entender que você despertou de um sonho que acabou de acabar.
Estou ainda assim, perdida, recém acordada, esfregando os olhos embaçados enquanto tento distinguir os dois universos. Não sei o que disso tudo foi verdade, ou o que foi só uma armação da minha mente, mas fico repassando as memórias confusas que ficaram. Mas como naqueles minutos que sucedem o sonho, eu não consigo explicar exatamente coisa alguma.
Tenho de lavar o rosto e ir viver apesar ideias desalinhadas a respeito do mundo, e das próprias experiências.
Até os pés ficaram dormentes. Dá medo de tocar o chão sem a certeza de que as maiores fantasias e pesadelos não começarão a qualquer momento.
É um texto que, por mais que eu tente, eu não consigo terminar. Mas tudo bem... Eu ainda não sei o que foi realidade e o que foi sonho.
Estou ainda assim, perdida, recém acordada, esfregando os olhos embaçados enquanto tento distinguir os dois universos. Não sei o que disso tudo foi verdade, ou o que foi só uma armação da minha mente, mas fico repassando as memórias confusas que ficaram. Mas como naqueles minutos que sucedem o sonho, eu não consigo explicar exatamente coisa alguma.
Tenho de lavar o rosto e ir viver apesar ideias desalinhadas a respeito do mundo, e das próprias experiências.
Até os pés ficaram dormentes. Dá medo de tocar o chão sem a certeza de que as maiores fantasias e pesadelos não começarão a qualquer momento.
É um texto que, por mais que eu tente, eu não consigo terminar. Mas tudo bem... Eu ainda não sei o que foi realidade e o que foi sonho.
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Desorientação,
Fim
setembro 23, 2013
Carta testamento
Não que você se importe, mas meu amor é infinito e eterno, e não se curará, nem com efeito do tempo. Nem com efeito de remédios.
E me deixou com todos aqueles vazios que apagaram nosso futuro. E os meus planos. E meu riso.
Sem as respostas que eu precisava. Sem me permitir te entender. Sem as conclusões.
Eu não esperava mais nada de você. Só empatia. Piedade. Ainda que mínima.
Eu gritei até gastar a voz. Estou aqui gritando ainda. Mas você não consegue me ouvir. Não consegue me olhar. E eu não aguento mais gritar.
Gritar minha dor e esperar que você me ame de volta.
Eu só queria piedade.
Estou aqui gritando. Matando minha garganta para você ouvir que estou magoada. E que queria, uma única vez, que você notasse isso.
Mas por mais que eu implore por isso, e chame sua atenção de todas as maneiras possíveis, só há indiferença. E eu não entendo o quanto você não se importa.
Você simplesmente não se importa.
Eu queria tanto você comigo. Comemorando as nossas fases.
E meu amor não tem fim. Ele só acaba quando meu corpo não tiver mais vida.
Mas você ainda não se importa.
E eu não tenho mais voz. Nem forças.
Você iria no meu velório?
Será que você finalmente se importará?
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Fim
junho 25, 2013
Último
Você foi a melhor coisa que me aconteceu. E me fez mais feliz do que eu mereci, de maneiras que eu não poderei quantificar ou qualificar.
Eu te amei mais do que você seja capaz de compreender, e, sinceramente, não acho que serei capaz de reproduzir isto algum dia, para outra pessoa. Eu me doei tantas vezes quanto pude. Tanto quanto a saúde suportou.
Depois de você eu fiquei emotiva. Venci limites. Cheguei onde nunca acreditei que poderia. Me tornei o que não poderia sem seus braços, olhos e afagos.
Eu abandonei a razão e a racionalidade pelas quais sempre zelei.
Você foi tudo de lindo, tudo de homem, tudo de vivo, tudo de fogo, tudo de amor, tudo de maior. Você foi tudo.
Eu sinto muito a sua falta. E tenho certeza de que seu espaço não será ocupado jamais.
Você não vai mais aparecer por aqui.
Este foi o último.
O que eu sinto não lhe diz respeito.
junho 22, 2013
Vento e cinza
Sabendo que você tem uma vida - que nunca abandonou por mim - e que, por esta mesa razão, não estará sempre disponível para mim, por se amar, acima de todas as cosias, por que você sempre espera que eu abdique de mim mesma?
Por que você entende, com tanta facilidade, a sua própria infelicidade, mas não consegue entender a minha?
Hoje, talvez, seja o dia em que você, finalmente, possa entender todas as minhas escolhas, porque pode ver o que significa alguém te querer, e te ter ao seu bel prazer. E igualmente, te desquerer, e não ter-te. E você aceitar todas as escolhas feitas, previamente, por outrem independente do seu amor próprio.
Mais uma vez você saiu sem se despedir, para substituir-me por alguém que lhe parece melhor do que eu.
E eu o entendo.
Um beijo para você.
Hoje aprendemos que nós não temos mais conserto.
junho 12, 2013
Foi quase
Música para acompanhar: Emotion - Destiny's Child
Nós quase fomos aquele casal de comercial de margarina. Daqueles bem felizes que acordam sorrindo com roupas brancas e fazem gracejos logo pela manhã, sem sono, sem remela e com os dentes brancos. Só que com o sono e a remela. E sem as roupas.
Quase fomos daqueles que os amigos usam como exemplo de cumplicidade. Daqueles que não fazem nada no dia dos namorados. Daqueles que se surpreendem num começo de noite, de um meio de mês qualquer, com um churro bagunçado de açúcar e canela.
Quase fomos a dupla que ninguém nunca vê discutir. Não que a gente não discorde. Mas isso é coisa nossa. E tão pequena que eu sempre fiquei na dúvida se eram verídicas ou se eram meras gozações inconscientes, só para a vida não cair na monotonia da perfeição.
E foram muitos quases. Quase nos arrancamos a carne de tanto tesão até gastar os dentes. Quase nos afogamos no próprio gozo. Quase viramos clientes preferenciais daquele restaurante étnico. Quase nos casamos no outono. Quase tivemos filhos loirinhos e melindrosos. Quase fomos tão legais, mas tão legais, que todo mundo queria ser nosso filho, nosso irmão, tio, parente, conhecido, amigo distante...
Mas foi quase.
Foi por um triz. Bem pequenininho.
Mas mesmo pequenininho, não deu para estar aqui agora, te esperando com strogonoff no fogão.
Esse seu tão pequenininho quase, tão perto de nada, mudou o nosso futuro brilhante. E matou nós dois.
Tentei catar uma poesia para os amores vivos e os amantes desvairados do dia dos namorados, mas preciso de poetas novos. Ficou tudo muito clichê.
dezembro 19, 2011
Agora nada
Agora acabou. E eu fiquei esperando o que acontece depois, como quem assiste aos créditos finais. Com um silencio crescendo ao meu redor e a perfeita sensação de nada estava acontecendo.
Até perceber que tenho que começar a escrever para que haja história a ser contada.
Silêncio mais uma vez.
Então olho para a janela... Provavelmente ainda na esperaça de que haja algo depois do fim, mas não há.
Não há gente, não há som, nem nada para acontecer sem que eu tenha de tomar o primeiro passo.
Mas há chuva.
Então vou começar por aí. Abrir a janela e sentir a chuva. Deixar ela lavar e levar de mim tudo isso que não existe, e trazer nem que seja o frio.
Com licença, vou lá escrever uma história.
Poesia:
Mas há a vida
(Clarice Lispector)
Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.
Até perceber que tenho que começar a escrever para que haja história a ser contada.
Silêncio mais uma vez.
Então olho para a janela... Provavelmente ainda na esperaça de que haja algo depois do fim, mas não há.
Não há gente, não há som, nem nada para acontecer sem que eu tenha de tomar o primeiro passo.
Mas há chuva.
Então vou começar por aí. Abrir a janela e sentir a chuva. Deixar ela lavar e levar de mim tudo isso que não existe, e trazer nem que seja o frio.
Com licença, vou lá escrever uma história.
Poesia:
Mas há a vida
(Clarice Lispector)
Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.
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Clarice Lispector,
Desistência,
Fim,
Inércia,
Poesia
agosto 15, 2011
Do veneno ingerido
Com as minhas mãos já muito calejadas e a palma aberta para o ar eu vou assistindo você se afastar aos poucos. Ou eu mesma me afastar. Ou nós dois.
Nessa hora é que eu começo a tomar consciência da escolha tomada e desejo que o movimento das minhas mãos traga você correndo para os meus braços e afago, porque no segundo que o incidente se deu, também deu em mim a certeza de que tudo está errado.
Mas não volto atrás, porque já tenho o corpo muito envenenado.
Aproveito o movimento das minhas mãos frente ao meu rosto para disfarçar as minhas lágrimas.
Adeus.
Poesia
(Do diálogo do fim da nossa vida)
Santa Chuva
(Marcelo Camelo)
Vai chover de novo, deu na TV
Que o povo já se cansou de tanto o céu desabar
E pede a um santo daqui que reze ajuda de Deus
Mas nada pode fazer se a chuva quer é trazer você pra mim
Vem cá que ta me dando uma vontade de chorar
Não faz assim, não vá pra lá
Meu coração vai se entregar à tempestade
Quem é você pra me chamar aqui se nada aconteceu?
Me diz, foi só amor ou medo de ficar sozinho outra vez?
Cadê aquela outra mulher? Você me parecia tão bem!
A chuva já passou por aqui, eu mesma que cuidei de secar
Quem foi que te ensinou a rezar?
Que santo vai brigar por você?
Que povo aprova o que você fez?
Devolve aquela minha TV que eu vou de vez
Não há porque chorar por um amor que já morreu
Deixa pra lá, eu vou, adeus
Meu coração já se cansou de falsidade
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