novembro 07, 2013

Das etapas


De repente você percebe o quanto as paredes são brancas, grossas e silenciosas. O quanto o ar pode ser opressor. Um torturador delicado. Você percebe o quanto as coisas são volúveis. Você percebe a casa ficar vazia por tempo demais.
É um oco suave que entra no seu corpo através dos seus ouvidos e te percorre por inteiro, circulando junto com o seu sangue. E você o vê a todo instante desde o dia em que notou o tempo passar.
São os amigos que se mudam, os velhos que morrem, os primos e irmãos que se casam.
A sala vai esvaziando. O burburinho diminui gradativamente, significativamente. Tudo pára de fazer sentido.

Encerrar etapas não é fácil.

Seu tempo livre é só seu. O diploma está em sua posse agora. O seu currículo cresceu. Agora inclui o tempo que passa depressa demais e a percepção de que não foi usado tanto quanto deveria.
O relógio já superou o correr tradicional. As horas se tornaram almas apressadas e a maior parte delas é acompanhada da solidão, das obrigações e de certo desconforto. Do trabalho que não é exatamente o que você queria, mas que dá graças por existir. Labutar lutando contra os minutos tictaqueados - entre uma xícara de café e outra, até a redenção de voltar para seu ninho de isolamento – é, agora, o que preenche sua rotina.

Daqueles amigos de todo dia, ficaram dois, que se tornam visita quinzenal. Se der sorte. Se tudo der certo. Se não chover. E a casa... A casa fica vazia demais. Tempo demais.

A casa perde o sentido.

A cidade toda perde o sentido, mas você continua lutando nela (contra ela) porque voltar faria ainda menos sentido. Embora, um pouco de calor familiar pareça sempre muito conveniente.

A refeição é para um. A comida é industrializada demais, silenciosa e apressada. Pressa sem razão. Pressa do hábito. O hábito de saber que os dias são curtos.
E tão brusca quanto sempre, a noite chega com o silencio da cidade grande: cheia de sons. Só a luz azulada do monitor existe além da sua própria presença, e ela invade despudoradamente os espaços livres do seu quarto. E nunca se desliga. É sua ilusão de estar vivo. É a hora do sorriso tímido sincero. Tímido mas sincero, finalmente. É a sua companhia.

Você sabe que cresceu, mas, aparentemente, o mundo cresceu mais ainda, mais forte e te engoliu. E Sobrou tanto espaço em volta, que a casa ficou vazia demais.

2 comentários:

João Rodrigues disse...

Assim é a vida, pelo menos pra mim. Triste é o momento em que você até gosta de fazer hora extra. Assim chega mais tarde e mais cansado em casa. Dorme logo. =/

Gisela Passos disse...

Interessante como eu também me vejo nas suas palavras... Acordo às 7h e volto pra casa às 21h, tudo passa tão rápido que penso que esqueci de viver... o fim de semana que antes era tão esperado, se torna também um dia útil pra fazer o que não deu nos dias úteis... Seja mal-vinda síndrome dos 20 poucos anos... T_T