fevereiro 23, 2015

Animação

Acaba de dar meia-noite, e isso significa que eu acabo de concluir mais um ano de sobrevivência na terra, na vida material - ou concluirei em breve, porque não sei a que horas eu nasci. Não fossem os alertas das redes sociais, eu sequer lembraria deste detalhe, já que há tempos não vejo as horas passarem. Está tudo igual. Estou como há minutos atrás, há dias ou meses atrás, na frente do computador, trabalhando ininterruptamente para não perceber o tempo e a vida que vivem fora do meu corpo. Com os olhos cansados do sono atrasado que não será compensado por mais esta noite.
Vejo-me exatamente no mesmo lugar que a qualquer hora ou dia atrás. Em uma data arbitrária qualquer no passado. Na mesma posição enviesada. Com a mesma certeza de que não andei pra frente, e que me esforcei muito para não andar para trás. Absolutamente só, porque já não personalizo seres inanimados. Sem conquista, ou expectativa. E confiante de que deveria estar comemorando por permanecer minimamente lúcida, mas sem ânimo para qualquer estado mais intenso do que uma meditação.
Além de todos os conflitos óbvios esperados para a geração Y.
Meus sonhos eu não os tenho mais. Foram roubados há muito tempo, e eu passei a viver sem saber se quero e amo alguma coisa. E o quê. Foram roubados meus sonhos, minha vivacidade e meus movimentos no mesmo dia em que me roubaram de mim. Desde então sou carne que vaga, com uma vaga lembrança de que um dia tive muitas certezas.
A mente, às vezes, fica no rastro do corpo que se arrasta pela sobrevivência. Às vezes volta. Às vezes pensa em se esforçar mais para acompanhar o peso das pernas e do tempo. Mas no final, se rende a abraçar-se a si e dorme.
A mente dorme. A carcaça se arrasta largando os pedaços. E os olhos sem vida olham para fora esperado pelo resgate. Enquanto alertas as redes sociais avisam sobre comemorar algo que não me lembro o que era. Lembro que estou triste.
E não sei se isso passa ou vai além de um texto triste de uma pessoa que anda triste demais há tempo demais para lembrar quanto tempo tem que tudo virou do avesso.

Um comentário:

Juliana Lobo disse...

Quanto tempo eu não venho por aqui. Acho que nunca deixei um rastro. Aqui está. Adoro tudo o que escreve, abelhinha.

Que a sorte venha em sua direção.