Mostrando postagens com marcador Texto de Amigos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Texto de Amigos. Mostrar todas as postagens

dezembro 28, 2015

Natal

Outro incrível texto da Nicole que me tocou e que eu creio que vá te tocar também.


  Neste Natal, do ano de 2015, gostaria de desejar a todas as pessoas, com toda força e amor que existem no meu coração, que nossos sentidos sejam inebriados com amor e compreensão! Que o retrato do menino Jesus na manjedoura abarque todos os meninos que nascem em meio as ausências da vida, que suas palavras de amor, comunhão e fraternidade ecoem nos dias presentes, em nossas mentes e corações, e nos impeçam de apedrejar, julgar, separarmo-nos uns dos outros, crucificarmos...

  Que estes dias, em que estamos mais inclinados a libertar nossa sensibilidade, durem mais que uma semana! Que os muros que nos separam e classificam rachem, esfarelem e se tornem ruínas... Que sem teorias, teses ou academicismos sejamos capazes de compreender, no silêncio do vento que insufla nosso peito, que somos muitos, diversos, complexos, que existe uma multiplicidade de sapatos, com diferentes cores e formatos, que apertam calos distintos e dançam ritmos os mais variados, e que não cabe a mim julgar caminhos que não percorri, dores que não sinto, num sapato que não é meu e não me aperta... Mas, mais que isso, se existem diferenças que nos enriquecem, há muito que nos une de forma universal!!!

  Em tempos de crise, que seja farta nossa alegria, a gratidão de sermos, ainda, privilegiados, e que esta - como as crises íntimas de cada um - nos deixe reflexão, amadurecimento... Que a dureza se torne lição e que juntos possamos aprender a viver com menos: menos acessórios, menos lixo, menos extravagâncias vazias, e que sobre mais tempo, espaço, dinheiro e energia para os momentos entre família e amigos, para os banhos de mar, para cozinhar o que alimente alma e nutra o corpo, para dança, música e poesia, para pôr do sol na lagoa de Araruama, para café da tarde com quem faz pão com requeijão ser banquete...

  Que ampliemos, hoje e sempre, sentidos e horizontes, para que nossos corações sejam capazes de abraçar mais e mais, que o mundo diga que estamos sozinhos em nossos quartos e pensamentos, porque os céus, a terra que nos sustenta, e o menino da manjedoura irão nos certificar que, não, somos muitos e estamos todos juntos, entrelaçados na exuberante trama desse universo...

Feliz Natal!

março 08, 2015

Montréal, 08 de março de 2015.

Carta às minhas amigas,

Minha querida amiga, irmã que o belo encontro da vida me ofertou, hoje eu não gostaria de exaltar sua beleza, tampouco sua delicadeza, mas sim o que me faz amar-te e, sobretudo, todas as qualidades que me fazem admirar-te como ponto de luz no mundo.

Como aprecio sua companhia, o sorriso cúmplice e o coração transbordante de ternura, como gostaria de lhe desejar um mundo adequado à suas aspirações e sonhos, profundo e incandescente... Hoje, porém, escrevo-lhe não para parabenizá-la por sua condição natural, nem sequer pelo ser ímpar que se constrói a cada dia, mas para enfatizar que se Elizabeth Bennet encontrou Mr. Darcy, Jane Austen não teve a mesma sorte.

Não se entristeça quando resumirem sua caminhada em resoluções como “ela é tão bonita, mas está sozinha”, não há problema algum em diferenciar-se em mais um aspecto. Somos todos únicos, e ainda assim perdemos capítulos inteiros tecendo – e sendo costurados em – um suposto uniforme... Esse mesmo ambiente que te violenta a cada dia com investidas nojentas, que te faz abraçar, aos dez anos, o maior medo de uma mulher – o estupro, é o que nutre e acalenta os homens que estão ao nosso redor, desenvolvendo, em alguns, o maior potencial possível de opressor e, com o perdão da palavra, de idiotas.

Se um dia as amigas de nossas mães tiveram de se submeter como única forma de continuar a vida, em 2015 eu posso lhe desejar que ninguém te violente – com posse que chamam de cuidado, com ciúme que apelidam de amor, com expectativas que desumanizam, com objetificação que batizaram de desejo. Se não for pra caminhar ao seu lado, mergulhar em seus olhos não maquiados e descobrir a complexa beleza das lentes com que observa o mundo... Desejo, sim, que você permaneça sozinha!
Se não estamos preparados para que dois seres se relacionem em amor gratuito, respeito e cumplicidade... Se além dos fantasmas e cicatrizes que cada um carrega, na bagagem trouxerem também a violência silenciosa que hoje celebra seu dia e amanhã te ofende por ser exatamente quem é... Desejo que você rompa com mais uma expectativa que recai sobre ti... E que, talvez, minha Alice possa escrever uma carta um pouco mais doce às suas amigas.

Em todo caso, também estou aqui...
Com amor, Nicole.



Um super conveniente, comovente e bem escrito texto para este dia em que o mundo acha que deve exaltar nossa beleza e feminilidade (?). Não. Não é por aí. Nicole sabe disso. Todas deveríamos saber.