Este blog nasceu em 2004, quando eu tinha 15 anos e o hospedava no Weblogger.
O universo virtual do período em que ele foi criado era absolutamente diverso do que conhecemos hoje, em que o que encontrávamos na blogosfera estava longe de ter o glamour (e o retorno financeiro) da atualidade.
Passeando entre vários hosts e códigos HTML ou XLM fui construindo gosto pela virtualidade, identidade na escrita, maturidade nas ideias, ganhando risos, divagações e amigos a distância. Aqui confessei aquilo que o coração adolescente não podia gritar em público, mas que era compartilhado com prazer entre desconhecidos conhecidos.
Aí aconteceu do tempo passar. E eu cresci. E eu mudei. E isso não foi uma decisão: foi um processo.
Um processo longo e constante que trouxe como resultado a pessoa que está aqui. Agora, aos quase 30, está atrás desse texto uma pessoa que até se lembra daquela menina que transformou o blog no que ele é hoje, mas nem de longe se parece com ela.
E acompanhando essas mudanças de personalidade e realidade, esse blog foi também mudando e se remendando para se adequar a mim e para que eu pudesse caber nele. Mas enfim, chegamos a um ponto decisivo: não caibo mais aqui.
Então cheguei ao fim do "diário" virtual que se estendeu por 13 anos, com muito gosto e resistência.
E assim encerro este blog. Obrigada aos envolvidos.
janeiro 29, 2017
novembro 25, 2016
Atravessar o tempo
A vida é como a onda que invade a praia, movida pelos ventos das marés. Sempre em movimento e jamais igual.
Viver é se manter movimento e se reconstruir constantemente. É imitar os grãos de areia que caminham eternamente pelo ar, construindo novas trilhas e moradas. É levar-se.
Vida é tempo e tempo é ação, atividade, fluxo. É o agente da transformação que garante a instabilidade, a evolução, o caos e a calmaria, que penetra as coisas físicas, e orienta o intangível. Tempo é movimento e o movimento nunca sessa nem pode parar: só se move aquilo que é vivo.
Tentar atravessar a vida permanecendo estático é como resistir a um vendaval: imprudente e ineficaz. Mais vale aceitar que tudo se transforma, se permitir render ao movimento eterno que tempo constrói e deixar as ondas da instabilidade imperarem novas formas de existir.
Viver é se manter movimento e se reconstruir constantemente. É imitar os grãos de areia que caminham eternamente pelo ar, construindo novas trilhas e moradas. É levar-se.
Vida é tempo e tempo é ação, atividade, fluxo. É o agente da transformação que garante a instabilidade, a evolução, o caos e a calmaria, que penetra as coisas físicas, e orienta o intangível. Tempo é movimento e o movimento nunca sessa nem pode parar: só se move aquilo que é vivo.
Tentar atravessar a vida permanecendo estático é como resistir a um vendaval: imprudente e ineficaz. Mais vale aceitar que tudo se transforma, se permitir render ao movimento eterno que tempo constrói e deixar as ondas da instabilidade imperarem novas formas de existir.
novembro 08, 2016
Querido diário
Gosto de olhar para a sua foto no Facebook e imaginar que a bolinha verde é um aviso de que você está me observando, com os dedos imóveis acima do teclado, levemente envergonhado, esperando o momento e as palavras ideais para me dar um oi. Assim como eu estava há cinco minuto atrás.
...
Apesar de ter um monte de palavras emboladas entre a cabeça, a garganta e a boca, esse texto vai acabar aqui. E nem é porque não deu para organizar essa coisa que eu estou sentido e não entendo, mas para eu poder mudar a aba do navegador e continuar te olhando em silêncio, corada e meio risonha.
...
Apesar de ter um monte de palavras emboladas entre a cabeça, a garganta e a boca, esse texto vai acabar aqui. E nem é porque não deu para organizar essa coisa que eu estou sentido e não entendo, mas para eu poder mudar a aba do navegador e continuar te olhando em silêncio, corada e meio risonha.
novembro 03, 2016
Da mulher que ama
Ela permeia por muitos braços e entre um ou outro afago recebido pelos acasos que lhe brinda a vida, consegue convencer de que sua graça é a solidão. Parece se esquivar dos afetos com a mesma destreza com que, durante as madrugadas, desliza em silêncio pela porta entreaberta, para escapar para casa antes que o sol nasça. E a casa sem fotografias soa como um aviso para quem a adentra, de que ali não há espaço para partilha, senão da instantaneidade da paixão.
Mas entre o leito e a despedida se guardam amores tão fugazes e legítimos quanto descreveria Vinícius. São amores tão intensos que se vão depressa, mas que lá, do lado de dentro, jamais a abandonam. Ao contrário, permanecem e se manifestam delicadamente em momentos breves de deleites eternos.
Estão todos em presença constante nos hábitos e nas paixões que hoje são tão dela que ninguém suspeita que lhe foram dadas de presente. Já não se pode separar o que é ela e o que é o outro nos vestígios dos amores que compõem sua estrutura, e não raramente ela se percebe sorrindo grata pela felicidade ter ganhado parte daquilo que eles lhes havia de belo.
Dentro da armadura impenetrável que ela jura que construiu, os amores dos seus muitos amores a tocaram com singeleza dispostos a nada levar em troca. E no seu lado de dentro, ganhando muito sem nada dar, foi escondido o segredo maior: um amor do tamanho da efemeridade, mas intenso e resiliente. Cuja expressão é a gratidão infinita, a liberdade e o voo alto - observado, em segredo, através da janela que ela construiu para ter certeza de que chegaram à felicidade.
Mas entre o leito e a despedida se guardam amores tão fugazes e legítimos quanto descreveria Vinícius. São amores tão intensos que se vão depressa, mas que lá, do lado de dentro, jamais a abandonam. Ao contrário, permanecem e se manifestam delicadamente em momentos breves de deleites eternos.
Estão todos em presença constante nos hábitos e nas paixões que hoje são tão dela que ninguém suspeita que lhe foram dadas de presente. Já não se pode separar o que é ela e o que é o outro nos vestígios dos amores que compõem sua estrutura, e não raramente ela se percebe sorrindo grata pela felicidade ter ganhado parte daquilo que eles lhes havia de belo.
Dentro da armadura impenetrável que ela jura que construiu, os amores dos seus muitos amores a tocaram com singeleza dispostos a nada levar em troca. E no seu lado de dentro, ganhando muito sem nada dar, foi escondido o segredo maior: um amor do tamanho da efemeridade, mas intenso e resiliente. Cuja expressão é a gratidão infinita, a liberdade e o voo alto - observado, em segredo, através da janela que ela construiu para ter certeza de que chegaram à felicidade.
outubro 26, 2016
Quando ela vem
Às vezes minha solidão é tão grande que ocupa o meu peito, o meu corpo e a minha casa. É tão grande que preenche todos os espaços livres ao meu redor. E é tão cruel que ela mesma se compadece do meu vazio e me põe para dormir, me afagando enquanto não houver quem tome seu lugar.
E na cama, abraçada à ausência que me faz companhia, é onde permaneço e é o único lugar em que quero estar: dormindo até que ela vá embora e o ar se torne menos denso.
E na cama, abraçada à ausência que me faz companhia, é onde permaneço e é o único lugar em que quero estar: dormindo até que ela vá embora e o ar se torne menos denso.
setembro 29, 2016
Port de bras
A bailarina entra em cena inúmeras vezes e, em todas elas, se apodera da atenção do público que esquece suas mazelas enquanto se perde na abstração que resvala delicadamente pelo linóleo, equilibrada nas pontas dos pés.
Sua vida é estar pronta para acalmar os corações alheios com ternura, roubando suas dores para si e concentrando-as nos músculos e nos pés que (e a plateia nem desconfia) se sustentam em alguns centímetros de gesso duro.
Ela é aquilo de intangível, meio fada, meio anjo, que vai alimentar todo um teatro de paixão, até que o último expectador se levante levando para a casa a doçura que, executada com amor incondicional, mascarou um tanto de martírio durante três atos.
Todos os dias.
E em todos eles, um passo mais próximo da perfeição.
Mas toda bailarina um dia tem de pendurar as sapatilhas. O corpo não suporta dançar para sempre.
É preciso descansar aquilo que o público não pode ver. É preciso dar paz à carne, aos ossos, à pele calejada. Desmanchar o sorriso eterno. Ser humana, finalmente.
Ainda que ninguém perceba, seus braços doem exaustivamente durante o adagio final e todos os seus movimentos carregam um tanto mais de sacrifício.
Na última coreografia, enquanto a casa se distrai, ela prende a respiração por mais alguns segundos e encerra a fantasia com o sorriso elegante e os gestos delicados com os quais conduziu toda a encenação: reverence.
Flores.
Cai o pano. Agora pode respirar aliviada.
Fim do espetáculo.
Sua vida é estar pronta para acalmar os corações alheios com ternura, roubando suas dores para si e concentrando-as nos músculos e nos pés que (e a plateia nem desconfia) se sustentam em alguns centímetros de gesso duro.
Ela é aquilo de intangível, meio fada, meio anjo, que vai alimentar todo um teatro de paixão, até que o último expectador se levante levando para a casa a doçura que, executada com amor incondicional, mascarou um tanto de martírio durante três atos.
Todos os dias.
E em todos eles, um passo mais próximo da perfeição.
Mas toda bailarina um dia tem de pendurar as sapatilhas. O corpo não suporta dançar para sempre.
É preciso descansar aquilo que o público não pode ver. É preciso dar paz à carne, aos ossos, à pele calejada. Desmanchar o sorriso eterno. Ser humana, finalmente.
Ainda que ninguém perceba, seus braços doem exaustivamente durante o adagio final e todos os seus movimentos carregam um tanto mais de sacrifício.
Na última coreografia, enquanto a casa se distrai, ela prende a respiração por mais alguns segundos e encerra a fantasia com o sorriso elegante e os gestos delicados com os quais conduziu toda a encenação: reverence.
Flores.
Cai o pano. Agora pode respirar aliviada.
Fim do espetáculo.
setembro 25, 2016
Danos
Mas que desagrado este hábito de me ancorar aos lugares dos problemas difíceis de resolver
das atenções roubadas,
do foco perdido,
do descaminho.
Estar sempre sendo seduzida pela desvirtuação de planos e com ânsias de perder a sanidade e ter de agarrar-me
- desgostosamente -
a um segundo de lúcida descoragem para fugir dos vícios deletérios.
das atenções roubadas,
do foco perdido,
do descaminho.
Estar sempre sendo seduzida pela desvirtuação de planos e com ânsias de perder a sanidade e ter de agarrar-me
- desgostosamente -
a um segundo de lúcida descoragem para fugir dos vícios deletérios.
agosto 27, 2016
Llegadas y salidas
A arte do encontro - agraciada pelos detalhes incríveis que nos chegam como presentes da vida - foi transformada em música. Os últimos momentos de um sonho puderam ser levados, discreta e lentamente, pelo vento. E se chover demais é por causa da saudade que guardei junto das malas.
Vamos dormir e sorrir em paz agora.
Hasta la vista, Santiago. Gracias por el amor.
Vamos dormir e sorrir em paz agora.
Hasta la vista, Santiago. Gracias por el amor.
julho 23, 2016
Amizade, Cantina da Serra e milhares de quilômetros
Você não sabe o que é saudade. Quase ninguém realmente sabe. Só supõe, baseando-se em nostalgias e na vontade de ter algo do passado que a pressa, o tempo e a idade não mais permitem ter. É quase sempre saudosismo, curiosidade ou frustração.
Eu descobri que também não sabia realmente o sentido da saudade. Até observar que você, invisível e perdido na história, está inacreditavelmente frequente no meu cotidiano. O que deveria ser palavra que escapa dos lábios vez ou outra é, na verdade, presença quase física. Você é agora. O tempo todo.
(Como é possível que você ainda esteja aqui?)
Eu também pensei que conhecia sua significância. Mas recentemente sua distância ficou tão intensa que me peguei procurando e inventando artimanhas para te trazer de volta e te guardar aqui.
Foi então percebi que você escreveu seu nome no assento que deixou vazio quando se levantou da minha mesa e garantiu que ninguém mais ocuparia o seu lugar.
Agora não sei mais sorrir seu nome no passado: você virou saudade.
E tudo o que soube fazer nestes últimos dias, quando olhei pra minha vida sem você, foi imaginar como vai ser contigo por perto de novo. E esperar que você esteja por perto de novo.
Da sua mente fascinante - e da sua capacidade de observar e saber quase tudo - escapou a percepção, tão simples, da escala do meu afeto.
Eu te amo desmedidamente.
Mas a mim mesma isso também escapou.
A gente acha que sabe o que é amor. Até ver que depois de tantos anos, aquele vão que alguém deixou aberto quando saiu ainda faz barulho e traz frio quando o vento sopra.
(Em tempo: estudos indicam que o queijo surgiu há 3.400 anos atrás, lá no antigo Egito. Se a lua tem 4,6 milhões de anos, COMO DIABOS ELA PODE SER FEITA DE QUEIJO?!)
junho 22, 2016
[diá/monó] logo
(...)
De nós as respostas já temos, e a que não temos, na verdade não importa. Os fatos presentes são os fatos verdadeiros e eles, os conhecemos bem.
São muitas as divagações que eu poderia começar sobre aquilo que não foi, como fazem as adolescentes em seus diários, mas aqui entre nós, qual o valor de visitar o futuro que não comecei?
Não há questão entre nós que não esteja acertada. Enquanto seres individuais somos eu cá e tu aí, onde estou vendo, sem qualquer incerteza de tua posição em teu lugar. Se há algo a explorar, é aqui onde não tocas e nem podes ver: nas ações que guardo dentro do meu corpo.
Tudo o que há (entre presente e passado) conhecemos. E o que não há, o sabemos igualmente bem, do início ao fim.
A questão entre nós é: até quando lamentarei ter deixado você partir?
De nós as respostas já temos, e a que não temos, na verdade não importa. Os fatos presentes são os fatos verdadeiros e eles, os conhecemos bem.
São muitas as divagações que eu poderia começar sobre aquilo que não foi, como fazem as adolescentes em seus diários, mas aqui entre nós, qual o valor de visitar o futuro que não comecei?
Não há questão entre nós que não esteja acertada. Enquanto seres individuais somos eu cá e tu aí, onde estou vendo, sem qualquer incerteza de tua posição em teu lugar. Se há algo a explorar, é aqui onde não tocas e nem podes ver: nas ações que guardo dentro do meu corpo.
Tudo o que há (entre presente e passado) conhecemos. E o que não há, o sabemos igualmente bem, do início ao fim.
A questão entre nós é: até quando lamentarei ter deixado você partir?
junho 19, 2016
Mais sorte na próxima
Para registrar que perdi todo um arquivo com futuras postagens.
Aceita que dói menos.
Aceita que dói menos.
maio 27, 2016
Tudo permanece
Um dia parei e percebi o silêncio que havia em mim.
Eco.
E um enorme vão livre.
Senti que faltava alguma coisa.
Algo havia ido embora e já fazia muito tempo. No tempo em que uma mulher adulta começou a morar dentro do meu espelho.
É como se vida começasse a perder o sentido imediatamente depois da adolescência.
Aos poucos foi tudo ficando mais calmo, mais lógico, silencioso, monocromático, estranhamente pacífico. Sobra a sensação de que as sensações sutilizaram, e fica um ser que não sabe mais - e não se lembra - viver à flor da emoção: finalmente sem sofrimento ou desgaste e livre daquela a indomável frustração da missão falha. No lugar, quedam-se as vantagens da escolha de se resguardar até alcançar o estado de não mais amar ou ter paixão.
Eu tive certeza de que crescer era carregar o corpo - curiosamente ainda vivo - em passos comedidos e ponderados atrás das horas em que, por convenção social, devemos estar de pé. E ao fim dessas horas (o resto de dia que é seu) se ocupa de um nada sem ânimo ou ânsia. Amadurecer, descobri, era garantir ao passado tudo o que era possível sentir. E ao presente apenas os olhos abertos.
Mas tropecei em um nó de trilha percorrida e caí de nariz bem em frente ao meu espelho de piso. Há poucos milímetros do que perdi.
Sem querer me vi.
Está tudo lá, exatamente onde deixei. Tudo o que acreditei ter esfarelado e esvoaçado com o sopro do tempo ficou escondido e desbotado no fundo do amontoado de vida que joguei por cima. E agora foi descoberto.
Um monte de alma, vida, sonhos bobos, riso de canto de boca e alucinações para antes de dormir.
Eco.
E um enorme vão livre.
Senti que faltava alguma coisa.
Algo havia ido embora e já fazia muito tempo. No tempo em que uma mulher adulta começou a morar dentro do meu espelho.
É como se vida começasse a perder o sentido imediatamente depois da adolescência.
Aos poucos foi tudo ficando mais calmo, mais lógico, silencioso, monocromático, estranhamente pacífico. Sobra a sensação de que as sensações sutilizaram, e fica um ser que não sabe mais - e não se lembra - viver à flor da emoção: finalmente sem sofrimento ou desgaste e livre daquela a indomável frustração da missão falha. No lugar, quedam-se as vantagens da escolha de se resguardar até alcançar o estado de não mais amar ou ter paixão.
Eu tive certeza de que crescer era carregar o corpo - curiosamente ainda vivo - em passos comedidos e ponderados atrás das horas em que, por convenção social, devemos estar de pé. E ao fim dessas horas (o resto de dia que é seu) se ocupa de um nada sem ânimo ou ânsia. Amadurecer, descobri, era garantir ao passado tudo o que era possível sentir. E ao presente apenas os olhos abertos.
Mas tropecei em um nó de trilha percorrida e caí de nariz bem em frente ao meu espelho de piso. Há poucos milímetros do que perdi.
Sem querer me vi.
Está tudo lá, exatamente onde deixei. Tudo o que acreditei ter esfarelado e esvoaçado com o sopro do tempo ficou escondido e desbotado no fundo do amontoado de vida que joguei por cima. E agora foi descoberto.
Um monte de alma, vida, sonhos bobos, riso de canto de boca e alucinações para antes de dormir.
maio 24, 2016
Outono de novo
Quando, antes de abrir os olhos hoje pela manhã, percebi os meus pés frios, descobri você passeando pelos meus pensamentos. E no decorrer das horas deste dia cinza me preenchi de lembranças suas.
Mas como não lembrar se na ultima vez que vi inverno eu estava sentada exatamente ao seu lado?
No último dia frio de que tenho memória eu me encontrava aconchegada num cobertor de cabelos castanhos, distraída da realidade, hora observando, hora pintando sua pele como um livro de colorir, desses criados para acalmar os cansaços. E cada detalhe vivido dessas curtas horas frescas que tivemos foram compondo e estruturando minhas lembranças de dias cinzas e úmidos que, por isso, estarão sempre vinculados à sua presença.
Foi tanto Sol que assisti durante todo esse tempo, desde que fomos embora, que acabei me esquecendo de que em algum momento eu teria de inventar histórias novas para enfeitar meus dias de pés gelados e dedos roxos só para tirar você de perto. Ainda bem que o outono chegou para me trazer a oportunidade de construir algo ainda mais bonito que você.
Mas como não lembrar se na ultima vez que vi inverno eu estava sentada exatamente ao seu lado?
No último dia frio de que tenho memória eu me encontrava aconchegada num cobertor de cabelos castanhos, distraída da realidade, hora observando, hora pintando sua pele como um livro de colorir, desses criados para acalmar os cansaços. E cada detalhe vivido dessas curtas horas frescas que tivemos foram compondo e estruturando minhas lembranças de dias cinzas e úmidos que, por isso, estarão sempre vinculados à sua presença.
Foi tanto Sol que assisti durante todo esse tempo, desde que fomos embora, que acabei me esquecendo de que em algum momento eu teria de inventar histórias novas para enfeitar meus dias de pés gelados e dedos roxos só para tirar você de perto. Ainda bem que o outono chegou para me trazer a oportunidade de construir algo ainda mais bonito que você.
abril 22, 2016
Diálogos constantes com Moritz Stiefel
A banda marcial continua.
A bailarina da Dança na Corda Bamba persiste em seu percurso com postura primorosa e boca cheia de dentes à mostra. Virtuosa, segue os tempos bem contados em seus passos sincronizados com os compassos que não podem ser perdidos. A coreografia é obedecida rigorosamente e o espaço é recalculado segundo após segundo.
Fechar os olhos bem pintados e deixar a música guiá-la ao infinito não é possível: se desconcentrar, ela cai.
E não há rede.
Não descansa. Nem bem respira. Tudo por uma execução impecável.
Com toda a graça que se espera de uma bailarina, ela engana o público que não sabe que a moça que desliza pelos arames carrega pedregulhos dentro dos seus trajes de Colombina.
Pé ante pé, nas pontas dos dedos, devagarinho vai dançando e avançando através do fio infinito conforme o esperado.
março 30, 2016
Posse
Você será meu hoje. Somente meu. E conhecerá domínio tão inédito quanto inesperado.
Toda a sua atenção será voltada para a minha permanência, seus olhos observarão apenas minha figura e seus ouvidos se dedicarão exclusivamente para a minha voz.
Te terei em cada célula.
Você me abraçará como se te apavorasse a ideia de perder-me. Vai me espremer entre seus órgãos até nos fundirmos
Eu serei igualmente só sua e comerei seus beijos como se minha boca fosse o único lugar do mundo realmente seguro para você. Todo o meu afeto será dado às suas vontades e meu corpo será seu casulo.
Então seremos nós nossos até a exaustão. E haverá momentos em que não distinguiremos suor de lágrimas: seremos apenas sal. Na eternidade do minuto.
E amanhã seremos outros. De outros.
Distantes e plenos.
Toda a sua atenção será voltada para a minha permanência, seus olhos observarão apenas minha figura e seus ouvidos se dedicarão exclusivamente para a minha voz.
Te terei em cada célula.
Você me abraçará como se te apavorasse a ideia de perder-me. Vai me espremer entre seus órgãos até nos fundirmos
Eu serei igualmente só sua e comerei seus beijos como se minha boca fosse o único lugar do mundo realmente seguro para você. Todo o meu afeto será dado às suas vontades e meu corpo será seu casulo.
Então seremos nós nossos até a exaustão. E haverá momentos em que não distinguiremos suor de lágrimas: seremos apenas sal. Na eternidade do minuto.
E amanhã seremos outros. De outros.
Distantes e plenos.
março 01, 2016
Bruxas, Magos e unicórnios
Chuva forte, corredeiras e vento frio finalmente - em tanto tempo.
Escolhe e encolhe os passos e o corpo. Não escapa d'água: virou ilha.
Se funde à cidade crepúsculo, entupida, molhada. Espera.
A estrada se alimenta de minutos, encurta as horas enquanto se estica ao horizonte.
Não distrai a graça. Beleza tem cor de mar e mar é tudo em volta.
Chuva forte, corredeiras, corpo úmido.
Coragem. Desistência...
Observa as tentativas daqueles que insistem em enfrentar a tormenta do céu.
Faz mais graça, porque a vida é riso.
Cumprimenta, respira fundo. Despedida. Toma prumo.
Segue rumo.
Cidade quase hostil.
Mas de pés molhados, foge (ou chega): refúgio com amargor de prensa italiana, mascavo e canela.
Com som abafado de chuva lá fora. Calor e calma.
E o gozo se intromete na noite.
Tem mesmo sorriso nessa cidade.
Escolhe e encolhe os passos e o corpo. Não escapa d'água: virou ilha.
Se funde à cidade crepúsculo, entupida, molhada. Espera.
A estrada se alimenta de minutos, encurta as horas enquanto se estica ao horizonte.
Não distrai a graça. Beleza tem cor de mar e mar é tudo em volta.
Chuva forte, corredeiras, corpo úmido.
Coragem. Desistência...
Observa as tentativas daqueles que insistem em enfrentar a tormenta do céu.
Faz mais graça, porque a vida é riso.
Cumprimenta, respira fundo. Despedida. Toma prumo.
Segue rumo.
Cidade quase hostil.
Mas de pés molhados, foge (ou chega): refúgio com amargor de prensa italiana, mascavo e canela.
Com som abafado de chuva lá fora. Calor e calma.
E o gozo se intromete na noite.
Tem mesmo sorriso nessa cidade.
fevereiro 16, 2016
Sobre as horas em que o medo de amar vai embora
É quando dá vontade de pedir desculpas por todo amor que eu não dei e fiz questão de deixar esquecido, bem fora do alcance, para que ninguém pudesse ver. Lamentar terminantemente por deixar tantas almas irem embora sem nem ter tido um toque de doçura que eu bem sei que sempre tive pronto e implorar por perdão por não ter retribuído, nem minimamente, todo afeto que ganhei.
Nessas horas, dá uma pena danada de mim e da beleza de que privei o mundo enquanto fico imaginando os risos que os sorrisos que não arranquei e nem ganhei.
Questiono onde estive, que de tão escondida, nem eu mesma me achei.
E quero, por um segundo, sair do armário, correndo pelas ruas, arrancando as roupas e bradando aos ventos que estou pronta para amar de novo.
Mas é só um segundinho.
Depois tudo volta ao normal.
Nessas horas, dá uma pena danada de mim e da beleza de que privei o mundo enquanto fico imaginando os risos que os sorrisos que não arranquei e nem ganhei.
Questiono onde estive, que de tão escondida, nem eu mesma me achei.
E quero, por um segundo, sair do armário, correndo pelas ruas, arrancando as roupas e bradando aos ventos que estou pronta para amar de novo.
Mas é só um segundinho.
Depois tudo volta ao normal.
janeiro 22, 2016
Mortais...
Livros? Ama. Se considera um leitor veterano, assíduo em
todas as bienais. Sua casa tem mais livros do que roupas e isso lhe garante o
posto de intelectual. Seu favorito ainda é Harry Potter e o Segredo do
Príncipe. Leu em inglês, óbvio! Tinha pressa e não podia esperar pela tradução.
Come o mundo geek sem nem dar tempo de fazer a digestão.
Argumenta constantemente sobre como Jared Leto jamais superará Ledger, enquanto
espera ansioso pelo Esquadrão Suicida.
Todo dia avança um passo na organização de seu Rubik’s Cube
(sim, em inglês mesmo) e tem no quarto referências dos mais diversos ícones blockbuster,
enfeitando as paredes e prateleiras, deixando bem claro que ali vive alguém que
não veio à terra à passeio: está aqui para arguições inteligentes e olhar blasé
para os meros mortais desinteressantes que não pertencem ao seu universo.
É o tipo de sujeito sempre está numa discussão sobre física,
biologia e religião, embora seja ateísta - porque sua sabedoria elevada está
acima das sobrenaturalidades - e sua área de trabalho não tenha qualquer relação
com esses assuntos.
Um sábio. Um culto. Um rebelde, de intelectualidade superior
à quase tudo à sua volta (embora alimente sua inteligência só com ração
mainstream - palavra que ele mesmo me ensinou). Um desesperador retrato de uma
geração que sabe que é melhor do que qualquer outro mortal.
Está ali, na fila para assistir à estreia super esperada do
ano, cujo custo de produção é imensurável E não há uma série do Netflix sobre a
qual não tenha feito uma resenha no blog. Assinante da Galileu e da Super Interessante.
É, portanto, escritor e especialista em qualquer assunto, e aquele que discorda
de seu discurso, é um pobre ignorante.
Seu estilo musical favorito carrega qualidade e refinamento.
É superior. O que rende comentários constantes sobre o quanto é absurdo o funk
brasileiro ser tratado como cultura popular - porque cultura é outra coisa - e
sabe que MPB é só um estilo de música de corno chata.
As religiões são alienantes e um verdadeiro câncer social -
mas nem por curiosidade estudou o Corão ou pisou num terreiro.
A literatura brasileira é chata. Carece de emoção. Assim
como o próprio idioma “brasileiro”: imperfeito, impuro, pouco sonoro.
Subdesenvolvido. Terceiro mundo.
E tudo aquilo que está no lado B da cultura popular, que não
carrega glamour, que se aprofunda, que cansa, que desafia as certezas... Isso, com
certeza, de opinião formada, baseado em todo seu rico repertório, é só o resto.
Porque não está na blogosfera badalada. Porque não rende uma
fotografia bonita. Porque ser tão alternativo e sábio não é mais que ser um
consenso.
janeiro 18, 2016
Enquanto a calma dorme
Não desarrumar as gavetas que estavam tão bem organizadas.
Não desandar a massa do bolo porque o recheio já está pronto e está muito bom.
Não deixar que as pegadas se apaguem para poder ter direção para voltar.
Não descansar demais o corpo para que ele não se acostume ao ócio.
Não deixar que a boca fique muda, porque as palavras ditas costumavam ser muito bonitas.
Não deixar a sanidade partir porque foi muito difícil trazê-la de volta.
Não desandar a massa do bolo porque o recheio já está pronto e está muito bom.
Não deixar que as pegadas se apaguem para poder ter direção para voltar.
Não descansar demais o corpo para que ele não se acostume ao ócio.
Não deixar que a boca fique muda, porque as palavras ditas costumavam ser muito bonitas.
Não deixar a sanidade partir porque foi muito difícil trazê-la de volta.
dezembro 31, 2015
Para Dois-Mil-et-Quinze
É, Dois-Mil-et-Quinze... Você não foi fácil. A promessa era que você viria como uma avalanche, derrubando tudo aquilo de seguro em que se poderia agarrar. Não decepcionou, nem por um segundo.
O dólar subiu. A bolsa caiu.
Fui cuspida, objetificada, maltratada e culpada. Tudo de boca calada, porque é mais seguro. Quase a Geni.
E como a Geni, me pôs sempre conveniente presente. Sempre conveniente ausente. Com falta e saudade até do que não se viveu.
Faltou água.
Faltou comida.
Faltou ânimo, muitas vezes.
Faltou ar.
Foram dores e perdas constantes, e a impotência que os sucede.
Teve insolação. Teve frio. Teve chuva. Teve medo.
E teve solidão. Muita. De ouvir o vento reverberar nas paredes do peito vazio tantas vezes, que os ouvidos se acostumaram ao som.
Teve mesmo muita solidão, Dois-Mil-et-Quinze. Solidão e sono.
Mas quem diria, que neste mesmo ano, em que acordei com a certeza de não mais ser capaz de levantar da cama, eu teria a luz do sol refletindo em meus cabelos e luzindo toda a volta?
A animação que era escassa vinha aos poucos beijar meu rosto cheia de fé, e então foi só olhar com calma...
Aí foi perceber que enquanto uma mão molhava face, e a outra a enxugava com toalha macia.
E teve luta, e teve grito e teve renascimento.
Teve trabalho até o corpo exaurir.
Deu pra amar umas quantas vezes, dos olhos brilharem e a carcaça ficar boba. Deu pra gozar a falta das armas e a vulnerabilidade. Deu para apertar os laços e atar novos nós.
Teve abraço. Teve afeto. Teve riso solto. Teve jazz.
E a solidão deixou de ser sentimento pra virar companhia. E então paz. Finalmente uma paz cheia de sons.
Você, Dois-Mil-et-Quinze, de fato sacudiu o mundo e me virou do avesso. Só, mal sabia, que o avesso é o meu lado certo - sempre foi - e agora já posso ver, de novo, meu reflexo no espelho.
Mal sabia que pra cada rasteira que me passava, havia várias mãos para me segurarem. Mal sabia que aqui, do lado avesso, tem afeto em abundância. E afeto amortece quedas.
Quando você nasceu, Dois-Mil-et-Quinze, eu não imaginava tudo o que viria pela frente. Não dava para especular o quanto tudo mudaria. O quanto o hoje de agora seria tão diferente do hoje de 365 dias atrás.
Eu jamais imaginaria que a paz inerte, dura, pesada e dolorosa do Um-do-um iria em bora à francesa, e em seu lugar viria toda essa reviravolta dramática de novela mexicana em capítulos finais.
Você tentou, Dois-Mil-et-Quinze, mas eu ainda estou aqui, de pé e com fé. Não foi fácil - exatamente como prometeu - mas eu te venci.
O dólar subiu. A bolsa caiu.
Fui cuspida, objetificada, maltratada e culpada. Tudo de boca calada, porque é mais seguro. Quase a Geni.
E como a Geni, me pôs sempre conveniente presente. Sempre conveniente ausente. Com falta e saudade até do que não se viveu.
Faltou água.
Faltou comida.
Faltou ânimo, muitas vezes.
Faltou ar.
Foram dores e perdas constantes, e a impotência que os sucede.
Teve insolação. Teve frio. Teve chuva. Teve medo.
E teve solidão. Muita. De ouvir o vento reverberar nas paredes do peito vazio tantas vezes, que os ouvidos se acostumaram ao som.
Teve mesmo muita solidão, Dois-Mil-et-Quinze. Solidão e sono.
Mas quem diria, que neste mesmo ano, em que acordei com a certeza de não mais ser capaz de levantar da cama, eu teria a luz do sol refletindo em meus cabelos e luzindo toda a volta?
A animação que era escassa vinha aos poucos beijar meu rosto cheia de fé, e então foi só olhar com calma...
Aí foi perceber que enquanto uma mão molhava face, e a outra a enxugava com toalha macia.
E teve luta, e teve grito e teve renascimento.
Teve trabalho até o corpo exaurir.
Deu pra amar umas quantas vezes, dos olhos brilharem e a carcaça ficar boba. Deu pra gozar a falta das armas e a vulnerabilidade. Deu para apertar os laços e atar novos nós.
Teve abraço. Teve afeto. Teve riso solto. Teve jazz.
E a solidão deixou de ser sentimento pra virar companhia. E então paz. Finalmente uma paz cheia de sons.
Você, Dois-Mil-et-Quinze, de fato sacudiu o mundo e me virou do avesso. Só, mal sabia, que o avesso é o meu lado certo - sempre foi - e agora já posso ver, de novo, meu reflexo no espelho.
Mal sabia que pra cada rasteira que me passava, havia várias mãos para me segurarem. Mal sabia que aqui, do lado avesso, tem afeto em abundância. E afeto amortece quedas.
Quando você nasceu, Dois-Mil-et-Quinze, eu não imaginava tudo o que viria pela frente. Não dava para especular o quanto tudo mudaria. O quanto o hoje de agora seria tão diferente do hoje de 365 dias atrás.
Eu jamais imaginaria que a paz inerte, dura, pesada e dolorosa do Um-do-um iria em bora à francesa, e em seu lugar viria toda essa reviravolta dramática de novela mexicana em capítulos finais.
Você tentou, Dois-Mil-et-Quinze, mas eu ainda estou aqui, de pé e com fé. Não foi fácil - exatamente como prometeu - mas eu te venci.
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