novembro 03, 2016

Da mulher que ama

Ela permeia por muitos braços e entre um ou outro afago recebido pelos acasos que lhe brinda a vida, consegue convencer de que sua graça é a solidão. Parece se esquivar dos afetos com a mesma destreza com que, durante as madrugadas, desliza em silêncio pela porta entreaberta, para escapar para casa antes que o sol nasça. E a casa sem fotografias soa como um aviso para quem a adentra, de que ali não há espaço para partilha, senão da instantaneidade da paixão.

Mas entre o leito e a despedida se guardam amores tão fugazes e legítimos quanto descreveria Vinícius. São amores tão intensos que se vão depressa, mas que lá, do lado de dentro, jamais a abandonam. Ao contrário, permanecem e se manifestam delicadamente em momentos breves de deleites eternos.

Estão todos em presença constante nos hábitos e nas paixões que hoje são tão dela que ninguém suspeita que lhe foram dadas de presente. Já não se pode separar o que é ela e o que é o outro nos vestígios dos amores que compõem sua estrutura, e não raramente ela se percebe sorrindo grata pela felicidade ter ganhado parte daquilo que eles lhes havia de belo.

Dentro da armadura impenetrável que ela jura que construiu, os amores dos seus muitos amores a tocaram com singeleza dispostos a nada levar em troca. E no seu lado de dentro, ganhando muito sem nada dar, foi escondido o segredo maior: um amor do tamanho da efemeridade, mas intenso e resiliente. Cuja expressão é a gratidão infinita, a liberdade e o voo alto - observado, em segredo, através da janela que ela construiu para ter certeza de que chegaram à felicidade.

outubro 26, 2016

Quando ela vem

Às vezes minha solidão é tão grande que ocupa o meu peito, o meu corpo e a minha casa. É tão grande que preenche todos os espaços livres ao meu redor. E é tão cruel que ela mesma se compadece do meu vazio e me põe para dormir, me afagando enquanto não houver quem tome seu lugar.
E na cama, abraçada à ausência que me faz companhia, é onde permaneço e é o único lugar em que quero estar: dormindo até que ela vá embora e o ar se torne menos denso.

setembro 29, 2016

Port de bras

A bailarina entra em cena inúmeras vezes e, em todas elas, se apodera da atenção do público que esquece suas mazelas enquanto se perde na abstração que resvala delicadamente pelo linóleo, equilibrada nas pontas dos pés.
Sua vida é estar pronta para acalmar os corações alheios com ternura, roubando suas dores para si e concentrando-as nos músculos e nos pés que (e a plateia nem desconfia) se sustentam em alguns centímetros de gesso duro.
Ela é aquilo de intangível, meio fada, meio anjo, que vai alimentar todo um teatro de paixão, até que o último expectador se levante levando para a casa a doçura que, executada com amor incondicional, mascarou um tanto de martírio durante três atos.
Todos os dias.
E em todos eles, um passo mais próximo da perfeição.
Mas toda bailarina um dia tem de pendurar as sapatilhas. O corpo não suporta dançar para sempre.
É preciso descansar aquilo que o público não pode ver. É preciso dar paz à carne, aos ossos, à pele calejada. Desmanchar o sorriso eterno. Ser humana, finalmente.
Ainda que ninguém perceba, seus braços doem exaustivamente durante o adagio final e todos os seus movimentos carregam um tanto mais de sacrifício.
Na última coreografia, enquanto a casa se distrai, ela prende a respiração por mais alguns segundos e encerra a fantasia com o sorriso elegante e os gestos delicados com os quais conduziu toda a encenação: reverence.
Flores.
Cai o pano. Agora pode respirar aliviada.
Fim do espetáculo.